Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Temporariamente suspenso

Caros Seguidores do À Margem,

Como já terão reparado, o blogue não é actualizado há algum tempo... Deste modo, cumpre-me anunciar-vos que suspendo temporariamente a actividade desenvolvida no mesmo e inicio um projecto um pouco mais abrangente e que melhor se adequa ao actual momento que atravesso... Poderão continuar a seguir o "meu rasto" em http://tintapermanenteblog.blogspot.com/.

Quanto ao À Margem, voltaremos a encontrar-nos por aqui em breve...

Domingo, Agosto 30, 2009

"O Rapaz do Pijama às Riscas" John Boyne

Boyne, John, O Rapaz do Pijama às Riscas (The boy in the striped pyjamas), Asa, Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos, 2009.

Numa história de contornos simples John Boyne consegue infiltrar o leitor no mundo em mudança de Bruno, uma criança dividida entre o universo protector que conhece e o exterior pleno de sombras indefiníveis por explorar e realidades paralelas em colisão com os ideais nazis representados pelo pai, recém-nomeado comandante de um campo de concentração.

As mutações sofridas na vida de Bruno entrecruzam-se com a própria metamorfose do Mundo face ao avanço megalómano nazi e o desmoronar da vida que sempre conhecera em Berlim coincide com a derrocada do Mundo livre.

O pequeno Bruno reúne em si a gravidade do despojamento violento com que o Mundo é sacudido, sobretudo o Mundo Judeu Europeu e os Mundos distintos não tolerados pela nova cultura “ariana” de perfeição.

Isolado na prisão sombria que constitui a nova casa da família, junto ao campo que o pai comanda, Bruno explora os bosques que circundam “Acho-Vil” e depara-se com um local vedado com arame farpado.
Ao aproximar-se vê que se encontra sentado junto à vedação um rapazinho de aspecto frágil, vestido com um estranho pijama às riscas. Shmuel e Bruno tornam-se amigos. Ambos fugitivos da casa que os adultos lhes impuseram. Unidos pela inocência, pelo total alheamento face à realidade de horrores que os rodeia, materializada pelos fumos que se erguem ao céu, a evasão possível.

Recomendo este livro porque já li muitas páginas de ficção e não ficção sobre o tema e encontrei nesta pequena obra originalidade na abordagem e na construção narrativa, provando que este é um tema inesgotável com desenlaces sempre passíveis de surpreender mesmo o leitor mais experimentado.

Domingo, Agosto 16, 2009

"O Rei de Ferro" de Maurice Druon

Druon, Maurice, O Rei de Ferro (Le Roi de Fer), GótiItálicoca, tradução de Helena Ramos, 2006.

Terminado que está este primeiro volume dos sete que constituem a saga “Os Reis Malditos” de Maurice Druon, fica o desejo de continuar a acompanhar as desditas dos reis amaldiçoados por Jacques de Molay, o Grão-Mestre da Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Templo, naquele dia 14 de Março de 1314 quando a morte pela fogueira estava iminente após um processo de condenação fraudulento que retivera de Molay encarcerado durante sete anos até à execução final.

Agradou-me a forma como o autor humanizou as personagens históricas intervenientes nestes últimos anos do reinado de Filipe, o Belo, bem como as intrigas palacianas em que a corte francesa nesta primeira metade do século XIV se viu envolvida.

A frieza do Rei de França aqui retratado é lendária mas nesta aproximação, neste zoom com que Maurice Druon nos presenteia, deparamo-nos com pormenores de emoção de grande interesse e que vão desde a consciência de que a filha Isabel, Rainha de Inglaterra, daria uma mais adequada sucessora do que qualquer um dos três filhos, até ao terror final, à íntima certeza de que a maldição de Jacques de Molay de que os seus carrascos em breve seriam pó, se concretizara com uma precisão indubitável.

Em menos de 1 ano, os algozes do Grão-Mestre estavam, também eles, mortos em circunstâncias pouco claras deixando um reino a algumas gerações de ser levantada a desgraça que se abateria sobre as cabeças reais que se seguiam. Que venham os próximos volumes!

Domingo, Junho 21, 2009

"A Rainha de Sabá" de Marek Halter

Halter, Marek, A Rainha de Sabá (La Reine de Saba), Bizâncio, Tradução de António Carlos Carvalho, 2009.

Os acontecimentos reais e míticos que rodeiam a figura da Rainha de Sabá, preenchem esta obra de Marek Halter, um romance biográfico sobre uma mulher de carácter forte e capacidade de liderança irreprimível num mundo dominado pelos homens.

Makêda, Rainha de Sabá, desde cedo demonstra inclinação política para enfrentar os inimigos do Reino de forma implacável e corajosa. Contudo, a par desta ferocidade cruel dirigida aos usurpadores da união construída pelo pai, Makêda revela-se possuidora de uma predisposição humana que comove os seus mais próximos conselheiros e o povo do seu Reino.

Conhecemos, assim, a menina antes de se tornar mulher e Rainha e acompanhamos essa transição natural operada para que, chegado o momento da subida ao trono de Sabá, tal responsabilidade fosse encarada como a continuidade dos preceitos que sempre haviam regido a educação da futura Rainha e o governo do Reino que herdara por morte do pai.

A perseguição e extermínio dos assassinos do Rei comandam a vida de Makêda nos primeiros tempos do seu reinado, mas uma vez saciada essa sede de vingança e estabilizada a vida conturbada do Reino com a morte dos agitadores, a Rainha de Sabá dedica-se à consolidação das trocas comerciais já existentes e ao alargamento desses intercâmbios a outros reinos distantes que se dão a conhecer como foi o caso do Reino de Judá e Israel, governado pelo Rei Salomão, que envia uma delegação para contactos comerciais a Sabá.
Os mensageiros de Salomão exaltam as qualidades humanas e políticas do seu soberano e Makêda sente-se impelida a retribuir a visita indo a Jerusalém pessoalmente para conhecer esse Rei tão sábio e sensível, com um carácter tão contrário aos costumes por vezes selváticos que imperavam à época.

Esta viagem ao mundo de Makêda, Rainha de Sabá, é também um encontro entre uma mulher e um homem e os mundos distantes e próximos que habitam, dois soberanos unidos debaixo do mesmo céu de inteligência e amor.

Domingo, Maio 31, 2009

"Jane Eyre" de Charlotte Brontë

Brontë, Charlotte, Jane Eyre, Difel, Tradução de João Gaspar Simões, 2004.

Ler “Jane Eyre” é penetrar num universo cindereliano mas de contornos mais intrincados, mais espinhosos.
A história da menina órfã entregue aos cuidados de uma tia detestável e mais tarde a uma escola onde encontra, finalmente, o afecto por que tanto ansiara, sofre mutações várias ao longo da narrativa.

A solidão absoluta da criança e da jovem, termina, numa primeira fase quando chega ao colégio de crianças carenciadas que até atingir a idade adulta será a sua casa.
Mais tarde, quando responde a um anúncio de jornal para uma colocação como preceptora numa grande casa de família e se reúne a essas pessoas que a recebem de forma hospitaleira, sente-se, em definitivo, em casa.

Quando o Senhor de Thornfield Hall regressa à sua propriedade encontra em Jane uma mestra bem diferente do que estava à espera. A sua humildade temperada de um espírito de intensidade e genuinidade raraos prendem, de imediato, a atenção do patrão que dificilmente tolera uma noite sem a requestar para uma interessante troca de ideias.

A solidão é cada vez mais um conceito indistinto tanto para Jane como para Mr. Rochester.

Contudo, o idílio que Jane vivia é abruptamente interrompido pela partida de Rochester por um período de várias semanas. Perdida, cumpre as suas tarefas de professora da pequena Adéle e pensa sem cessar na possível união de duas casas ricas de que Mrs. Fairfax, a governanta de Thornfield lhe falara. Descrevera-lhe a beleza de Miss Ingram, a prometida, e Jane via-se ao espelho mais desengraçada que nunca. Penitencia-se sem cessar por ter idealizado o afecto sincero e desinteressado de Mr. Rochester e compreendia que o seu sonho esbarrava na crueza de convenção social.

Restava-lhe aguardar pelo regresso do patrão e pelo anúncio de um casamento por conveniência útil às pretensões sociais de ambos.

A comitiva de convidados de Mr. Rochester chega a Thornfield Hall e ao vislumbrar a aparência elegante de Miss Ingram, conforma-se com a sua sorte adversa e com a breve partida para uma outra casa a que jamais conseguiria chamar de lar. O seu destino estava traçado e Mr. Rochester nunca faria parte desse futuro de reencontro com a solidão que a esperava.

A montagem deste cenário e a introdução de uma personagem verdadeiramente reveladora, a cigana, conduzem o leitor rumo às reais intenções de Edward Rochester e julgamos que, por fim, a pobre heroína não deverá enfrentar quaisquer outras provações.

Mas mais um obstáculo se atravessa no seu caminho de forma inesperada e o choque emocional impele-a a partir sem rumo, a vaguear como mendiga de terra em terra.

Para além de se tratar de um clássico da literatura mundial, recomendo “Jane Eyre” por ser uma obra plena de uma sensibilidade excepcional repleta de nuances no fio narrativo como só uma grande escritora saberia manobrar.

Sábado, Maio 23, 2009

"O Anel de Basalto" de Mário Cláudio

Cláudio, Mário, O Anel de Basalto, Dom Quixote, 2000.
O tempo é de milagres. Uma sucessão de nascimentos anunciados por anjos ou sábios monges budistas completa o círculo que as velhas profecias de regresso do Encoberto há muito vaticinavam: a missão próxima dos iluminados no mundo português visando a libertação do Rei dos calabouços da morte.

É necessário percorrer longes míticos, estabelecer alianças de casamento, viver rodeado de sociedades diversas para encerrar o anel de fogo revelador do trono de pedra firme em que o reino de Portugal postaria o seu Rei há muito desaparecido.

A ideia de um Quinto Império erguido pelos grandes nomes do passado português, coadjuvados por sábios de todo o mundo e por dois contemporâneos nascidos em circunstâncias extra-ordinárias é o ponto nuclear desta narrativa. Um segredo milenar comungado por um grupo restrito de privilegiados é a sarça ardente no coração dos que lideram a mudança prenunciada. A estratégia de regresso do Rei abarca elementos sobrenaturais, viagens fantásticas, elos inimagináveis entre civilizações distantes unidas pelo propósito comum de ressuscitar o Salvador de Portugal, do mundo.

Esta utopia, alimentada pelo Padre António Vieira e por Fernando Pessoa (só para referir os mais destacados intérpretes da ideia), continua a produzir entre nós uma literatura ficcional de grande interesse porque de homenagem a um espírito português que perdura (nem que seja num prisma meramente filosófico) e que nos empurra para as tormentas da realidade, para o desconhecido habitado por Adamastores ameaçadores com a esperança dos exercitados na eterna restauração. Levantados do chão…

Domingo, Maio 10, 2009

"A Vida de Sonho de Sukhanov" de Olga Grushin

Grushin, Olga, A Vida de Sonho de Sukhanov (The Dream Life of Sukhanov), Bizâncio, Tradução de Francisco Agarez, 2007.

A salvação de um homem pela arte, eis uma das problemáticas abordadas no universo de realismo mágico que Olga Grushin nos apresenta com este seu “A Vida de Sonho de Sukhanov”.
Anatoly Sukhanov é um microcosmo da sociedade russa dos últimos sessenta anos, representando em simultâneo o que de mais nobre e o que de mais deplorável subjaz na sombra desse período da história do seu país.

Enquanto jovem, a sua ideologia artística centra-se nos movimentos nascentes com os quais se identifica e segue o seu impulso criativo rumo à criação de um estilo próprio, nunca renegando contudo os grandes mestres russos proscritos por não pintarem arte para o povo. Sukhanov tinha uma vida artística dupla: onde leccionava, expunha a arte oficial, aquela que lhe era exigida pelo poder político (infiltrado em todas as vertentes da sociedade) e em casa, escondia o seu pequeno mundo de verdade artística, imune à influência desviante da arte partidária. No apartamento onde vivia com a mãe, as asas recolhidas durante o dia, abriam-se à imensidão de liberdade que o aguardava em cada nova obra.

Quando conhece Nina Malinina, filha de um conceituado pintor arregimentado na ordem estabelecida, a sua arte é transformada pelo aparecimento da musa mas, com o tempo, com o resvalar das certezas que o haviam tornado homem e pintor, com as dificuldades e incapacidade de ser o que de si era esperado pela sereia que povoava a sua realidade, Anatoly cede ao apelo dos vencedores, instala-se como seguidor daqueles que tanto desprezara, torna-se ele próprio um manipulador de mentes, contribuindo para o “bem comum”.

Os vinte anos de escuridão que se seguem são ilusoriamente felizes preenchidos de feitos ilusoriamente significativos.
Até que um dia, pequenos acontecimentos simples, plenos de casualidade, desencadeiam em Anatoly Sukhanov as recordações do que havia sido, de quem havia feito parte da sua vida e eis que a caixa empoeirada que enterrara no seu coração se abria e ele penetrava no seu interior como Alice na toca do coelho. Revisita todos os momentos desse passado que julgava perdido e compreende que a renegação de valores em que tão resolutamente acreditava o conduzira ao estado de confusão e perda de identidade em que se encontrava.

Sukhanov empreende uma viagem de sonho na sua vida de pesadelo e, ao vaguear nos recessos mais esconsos da sua alma vê, finalmente, a luz
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Domingo, Maio 03, 2009

"O Retrato" de Nikolai Gógol

Gógol, Nikolai, O Retrato, Edições Quasi, Tradução de Tatiana Carmo, 2008.

Na primeira parte desta narrativa tecida de elementos que reconhecemos como integrantes de um mundo estranho a que comummente designamos de fantástico, conhecemos Tchartkov, um jovem e pobre pintor fiel à sua arte, aos seus ideais artísticos e humanos que entrelaça de forma genuína nas suas telas fora de moda a sua concepção de arte, fugindo aos cânones da época de forma a manter-se no caminho da verdade, mesmo que para tal seja despejado da sua humilde habitação, passe fome e frio ou não tenha dinheiro suficiente para tintas e, consequentemente, para pintar com a regularidade que lhe permitiria viver, ainda que com as dificuldades naturais de um pintor não eleito pelos eleitos da sociedade, da sua pintura.

Tchartkov entra na lojinha de quadros do mercado de Chukine Dvor, uma espécie de montra para as classes mais desfavorecidas poderem apreciar obras de fácil pincelada mas ainda assim inacessíveis aos seus bolsos. Entra porque no meio de tanta ausência de arte, poderia encontrar algo de realmente precioso. Entra porque um inexplicável apelo o incita a perscrutar aquelas obras enfadonhas uma a uma. A sua ambição oculta já havia sido pressentida pelos olhos ardentes do “… velho com um rosto cor do bronze, de maçãs do rosto salientes, mirrado;…” cujo olhar, captado com uma “meticulosidade diligente” brilhava com um vigor tal que parecia destruir a “harmonia com a sua estranha vida”. O velho ali representado com trajes asiáticos parecia conhecer a alma de cada transeunte que se detinha na loja ou reconhecê-las como se com elas já se tivesse cruzado e soubesse o que almejavam da vida. O pintor pobre compra o quadro por vinte copeques, todo o dinheiro que tinha. Perturba-o e, no entanto, regateia o preço com o vendedor e leva-o para casa.

A transformação que a posse do quadro despoleta na sua vida é a negação de tudo quanto sempre defendera. O quadro ganha literalmente vida e é oferecida uma nova vida a Tchartkov, uma nova vida encerrada numa bolsa com moedas de ouro. Mas a sua alma é arrebatada por um mal sem nome, é perdida num torvelinho de confusão identitária. Ele já não sabe quem é. Só sabe o que tem.

Na segunda parte de “O Retrato” deparamo-nos com o nefasto quadro a ser leiloado e alguém de entre os licitadores reclamar o direito de contar uma história que lhe daria prioridade na aquisição da obra. E assim conhecemos a história do retratado e a história do homem que o pintou e que não foi capaz de terminar a obra graças à influência negativa que o homem oriental, um conhecido usurário de S. Petersburgo, exercia sobre ele.

Fica implícito que o homem nunca identificado pelo nome, exigia, em troca do dinheiro que emprestava, algo de absolutamente interdito, e a pintura do retrato era uma forma de a intervenção nefasta na vida das pessoas que consigo contactavam nunca cessar, mesmo depois de morto. O consentimento dos desesperados era a seiva de que se alimentava para continuar o seu trabalho de propagação do fado negro destinado aos atormentados pela vida.

Domingo, Abril 26, 2009

"Património" de Philip Roth

Roth, Philip, Património (Patrimony), Dom Quixote, Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, 2008.

Philip Roth narra o declínio físico do pai, Herman Roth, que sucumbe gradualmente ao avanço de um tumor cerebral mas não se limita a descrever essa queda do homem que conhecera vigoroso e enérgico de forma factual e inócua: o ocaso da vida do pai obriga-o a reflectir sobre a sua existência enquanto filho outrora e agora.

Essa evolução do ser pai e a progressão da noção de filho perpassa toda a obra mas não como algo que perturbe o autor, que o desmotive perante a naturalidade da realidade regressiva de papéis assumidos. Tudo se resume a uma aceitação clara dos factos da vida (nos quais se inclui a morte), mas o debate interno do filho que assiste à degradação das capacidades de um pai moribundo que acompanha desde o primeiro momento, sobrepõe-se a esse acolhimento da fatalidade.

Herman Roth recorre à memória para se agarrar à vida e a memória funciona, de facto, como um poderoso instrumento que desbrava o caminho desconhecido que o aguarda. Uma forma de ultrapassar o medo ou simplesmente de se sentir rodeado do mundo de pessoas e situações que sempre conheceu.

E o património, o legado, os destroços de uma vida já desaparecida, resume-se ao tempo que passámos junto dessa presença já fisicamente oculta, os tempos partilhados de felicidade ou sofrimento, levar um pai ao colo para a cama depois de lhe ter dado banho e pensar que há cinquenta anos atrás quem necessitava de ser acarinhado e protegido era o filho. Património é abraçar em absoluto o ser-se filho.

Sábado, Abril 18, 2009

"A Feiticeira de Florença" de Salman Rushdie

Rushdie, Salman, A Feiticeira de Florença (The Enchantress of Florence), Dom Quixote, Tradução de J. Teixeira de Aguilar, 2008.

Ocidente e Oriente. Florença e o Indostão. O príncipe Lourenço de Médicis, Senhor da volátil cidade europeia e Akbar, o Imperador da remota terra exótica onde a fantasia reinava e uma Rainha invisível era a preferida do Rei.
Um viajante louro auto-denominando-se como Mogor dell’Amore, chega à grande capital do Reino de Indostão como enviado de Isabel I de Inglaterra, após ter pilhado os aposentos onde o verdadeiro Embaixador guardava o documento numa passagem breve mas profícua por um navio de piratas escoceses.
Inventou um conteúdo irreal para a missiva, atingindo o intento de se aproximar do Imperador. E quando a sua vida é ameaçada pela desconfiança que floresce na corte de Akbar e se vê enclausurado numa masmorra e mais tarde frente a frente com um elefante enraivecido, disposto a espezinhá-lo como um verme que desafiara o Reis dos Reis com histórias que o apontavam como tio do soberano, Mogor dell’Amore socorre-se de expedientes vários e acalma a fúria do animal destinado a executar a vontade do Senhor de Indostão.

Algo semelhante a um milagre sucedera e o Rei, rendido ao poder obscuro do pálido desconhecido, ouve a história composta por várias narrativas distintas com o objectivo último de revelar a origem verdadeira do forasteiro. Sangue real afirmara ele possuir. Filho de Qara Köz, a Dama Olhos Negros, irmã de Baber, pai de Akbar, Senhora de uma vida aventurosa e de uma beleza rara que enfeitiçava os homens e mitigava a inveja das mulheres.

A vida desta mulher que se atrevera a retirar o véu e que se fazia acompanhar pela sua serva, a “espelho” por ser tão surpreendentemente idêntica à ama, é contada em paralelo com a vida de três amigos florentinos que acabarão por se ver enredados na história de aclamação e queda da Feiticeira de Florença que de “Santa” se converte em “bruxa” após uma noite passada com Lourenço II de Médicis e morte rápida do Senhor de Florença. Ela embruxara-o, dizia o povo, lançara-lhe feitiço mortal. E a Dama Olhos Negros, zelara apenas pelo regresso do seu amado Argalia ao deitar-se com Lourenço. A cidade já ansiava pelo cheiro a carne humana queimada que as fogueiras exalavam nos tempos áureos da cristandade. A explicação da justiça era sobrenatural.

Tudo se conjuga de forma a que quase no fim das suas vidas, os três amigos se reúnam novamente e, apesar dos diferentes caminhos por que haviam optado, a fraternidade entre almas unidas pela amizade nunca fora olvidada.

Sexta-feira, Abril 10, 2009

"O Físico Prodigioso" de Jorge de Sena

Sena, Jorge de, O Físico Prodigioso, Edições Asa, 2005.

Como o próprio autor confessa nas notas finais que acompanham a minha edição de "O Físico Prodigioso", a novela baseou-se em dois “exemplos” do Orto do Esposo, livro moralístico-religioso da primeira metade do século XV: o do homem com poderes mágicos de cura através do seu sangue virgem, e o do homem que não conseguiam enforcar porque o diabo o levantava no ar.
Trata-se de um “conto” de imortalidade e de invisibilidade asseguradas pela posse de um barrete mágico e pela presença protectora do próprio diabo que retira prazer da mera observação das movimentações humanas (mas sempre com o seu quê de “maravilha”; e utilizo aqui a palavra maravilha no sentido com que a encontramos nos livros de cavalaria – acontecimento inverosímil) do protagonista cujo nome é por ele mesmo considerado acessório e assim ocultado.

Contudo, a contemplação do físico pelo diabo tem o seu custo: a alma vazada do jovem inicia-se na agonia de tudo ter. Desta forma, uma “rebelião” interior irrompe e interrompe a até então intocável plenitude de imortal de que gozava. É assim o seu zelo e não um diabo insatisfeito que o arrasta para um calabouço da inquisição onde permanecerá longos anos perdendo o viço que o caracterizara, mas transmitindo-o a outros por meio de uma obra de contaminação digna do seu patrono. Curioso é que o diabo, apesar da degradação física do seu protegido, não cessa de o amar salvando-o, inclusivamente, da provação última, a morte.

É uma novela que julgo “recuperar” o conceito de “aventura” tal qual exposto nos seus contornos essenciais nos livros de cavalaria. O absurdo, a tentação, a linha ténue que por vezes demarca o mal do bem, surgem no caminho do donzel apresentado sob uma luz aqui e ali semelhante à que ilumina um Galaaz, mas com uma diferença fundamental: Galaaz, o herói casto da “Demanda do Santo Graal”, serve Deus; o físico prodigioso é um escolhido do demónio (e assume várias formas ao longo do livro, identificando-se no entanto sempre pela referência à audição súbita de um “riso casquinado”). Ambos prisioneiros, embora de forças antagónicas.

Domingo, Abril 05, 2009

"A Última Estação" de Jay Parini

Parini, Jay, A Última Estação (The Last Station), Editorial Presença, Tradução de Maria de Almeida, 2007.

Jay Parini escreve este “A Última Estação” após uma aturada pesquisa histórica que teve como principal fonte os diários de Lev Tolstói e do círculo de familiares e seguidores que o acompanharam no último ano de vida.
O autor convida-nos a assumir uma postura voyeurista ao partilhar a sua visão de “primeira fila” dos acontecimentos que decorreram nesse ano de 1910. E o leitor segue-o de bom grado ora integrando o grupo de tolstoianos mais próximos do maior autor russo do seu tempo, ora como observador da atitude rígida e persecutória da mulher de Tolstói, Sófia Andréevna.
As duas facções digladiam-se ferozmente e no meio deparamo-nos com um Tolstói ansioso por encontrar a paz absoluta em Iássnaia Poliána, a propriedade e casa da família onde o autor nascera e vivera quase toda a sua vida. Mas Iássnaia Poliana é o palco de sofrimento do velho Conde Tolstói onde Sófia Andréevna não o poupa, expondo a quem quisesse ouvir o conteúdo dos diários do marido, devastada por um ciúme doentio de Tchertkov, o mais amado dos discípulos de Tolstói. A suspeita das relações existentes entre os dois homens, dilacera-a e a desconfiança face às reais intenções de Tchertkov motiva-a na cruzada de humilhação que empreende contra o marido e na propagação dos seus medos, temendo sobretudo que a proximidade entre os dois homens trouxesse dissabores para a família após a morte de Tolstói e revelação do testamento.

Os últimos anos de vida de Tolstói são marcados por uma perspectiva marcadamente religiosa e social que o autor tenta aplicar à sua vida. Ele não quer ser o Conde Tolstói, mas somente Lev Nikoláevitch. Ele não quer viver rodeado de luxo, nem ceder a impulsos sexuais. Ele não quer conviver sob o jugo opressivo de uma mulher castradora, que lhe retira a paz tão desejada e lhe proíbe visitar e ser visitado pelo seu mais querido amigo. Ele quer fugir. Desaparecer.

Lemos as impressões de Sacha, a filha que vive em Iássnaia Poliána e que ajuda o pai no seu trabalho, sabemos que considera a mãe alguém profundamente teatral e egoísta, encenando achaques e mais tarde tentativas de suicídio para prender o marido na sua prisão dourada; temos acesso aos pensamentos de Bulgákov, o Secretário de Tolstói nesse último ano, reverente admirador do mestre que começa por sentir pena de Sófia Andréevna, mas acaba por pressentir a dimensão da paranóia da companheira de quarenta e oito anos de Tolstói; conhecemos a aversão que Tchertkov tem por Sófia e as suas maquinações para ter acesso ao mestre contornando o controle cerrado de Sófia Andréevna, o legado de Tolstói não seria pertença da família Tolstói mas do povo russo que ele tanto amava; as impressões do Dr. Makovítski, o médico pessoal, a propósito da saúde cada vez mais periclitante de Lev Nikoláevitch, os seus receios que a influência funesta de Sófia se revelasse, no fim, fatal; da própria mulher de Tolstói que manifesta todo o seu amor pelo marido e a necessidade em impedir a todo o custo o golpe que Tchertkov planeia; por fim, sabemos o que o próprio Tolstói pensa sobre este mundo que ameaça desabar sobre si. Urge evitar que o fim sobrevenha sem que encontre a paz.

E assim parte na companhia de Makovítski, com as sombras da noite como silenciosas cúmplices. A sua fragilidade física agudiza-se durante a fuga e atinge o auge ao chegarem à estação de Astápovo, a última estação, a última paragem antes da morte de Lev Nikoláevitch. Sacha pressente-o antes de todos ao dizer que parecia que tinham chegado ao fim do mundo. Era realmente o desfecho da busca aventurosa de liberdade neste mundo. Aproximava-se a maior aventura de todas e Tolstói acolheu-a com um sorriso nos lábios.

Que livro magnífico!

Domingo, Março 29, 2009

"O Quadro" de Nina Schuyler

Schuyler, Nina, O Quadro (The Painting), Bizâncio, Tradução de Maria do Carmo Figueira, 2006.

“O Quadro” de Nina Schuyler é não só a história de quatro vidas que se cruzam em pontos distantes do mundo no ano de 1870 sem que desse elo que os une tenham consciência, como também a história do cenário de transformações sociais e culturais inerentes ao período Meiji no Japão e à guerra franco-prussiana em França.

A ligação entre as quatro personagens sucede quando Ayoshi, a mulher de Hayashi, um proeminente oleiro e comerciante japonês com uma deformidade nos pés causada por um fogo que matara a sua família quando criança, coloca, secretamente, um quadro por si pintado na caixa de artefactos a enviar para venda em França. Esse quadro, um entre vários que Ayoshi pintara para eternizar o seu amor perdido por Urashi, um Ainu de quem engravidara antes de se casar com Hayashi, revela a intimidade dos amantes e imortaliza esse amor intocável representado de forma comovente e hipnotizante. Quando Jorgen, um mutilado dinamarquês da guerra franco-prussiana e armazenista numa empresa que se dedica ao comércio de produtos raros, abre a caixa e se depara com o quadro que não consta da lista de artigos enviados, apodera-se dele para mais tarde o vender. Natalia, a meia-irmã do dono da empresa, entra no mundo escuro de Jorgen com a sua determinação em salvar a França e alista-se nas fileiras do exército francês, almejando tornar-se uma exímia atiradora. A perda de um irmão ferido na guerra aproxima-a desse lado negro a que Jorgen não consegue fugir desde que fugira da mulher que amara e engravidara na Dinamarca.

É com relutância que Ayoshi aceita inicialmente a presença da sua “voz da consciência”, Sato, um velho amigo de infância ocidentalizado que conhece toda a extensão do seu sofrimento, e mais tarde a protecção que o marido concede a um monge budista que escapara a um massacre do exército na montanha. Mas é este monge jovem que nunca conhecera a vida fora do reduto do mosteiro que permite a Ayoshi reencontrar um sentido para a sua vida suspensa desde que uma curandeira lhe “arrancara as entranhas”.
Perpetuar a imagem do seu amado era a sua missão de vida mas, quando o monge Enri rasga um dos quadros em que figuram os amantes e ritualiza essa morte simbólica num cântico fúnebre budista, Ayoshi agradece-lhe a libertação mas espera o impossível do monge cujo destino não se entrelaçaria ao seu.
A proibição de realização de cerimónias budistas é quebrada pelo monge e todos partem, menos Hayashi que aguarda ser, finalmente, consumido pelo fogo purificador que o incapacitara há tantos anos.

Jorgen tenta convencer Natalia a não partir para a frente de combate, mas a sua vontade férrea supera qualquer súplica, mesmo a de alguém que perdera uma perna nessa guerra a que ela tanto desejava aderir. E como podia ele censurá-la? O seu maior desejo era comprar uma prótese e voltar para a frente de batalha. O custo da perna artificial obrigava-o a vender o quadro a que tanto se afeiçoara. De cada vez que o observava, parecia encontrar novos pormenores, quase como se o quadro se modificasse à medida que o próprio Jorgen se transformava por influência de Natalia. Ele já não era indiferente à vida.
Quando vende o quadro, fá-lo com a esperança de a nova perna lhe permitir ir ao encontro de Natalia e acorre ao consultório do médico inglês que entretanto, havia sido preso como espião.
Perante a impossibilidade de marchar rumo a Natalia, Jorgen recupera o quadro gastando todas as suas economias e sobe para um balão a gás de carvão cheio de correspondência militar e pessoal. Toda Paris cerca o balão, a esperança dos suplicantes e a sua própria de encontrar Natalia sobrevoando os céus, parece impelir o engenho a encontrar o caminho do amor.

Este é um livro de afectos superiores e de como os recomeços são sempre realizáveis. Indispensável.

Domingo, Março 22, 2009

"História da Beleza" de Georges Vigarello

Vigarello, Georges, História da Beleza (Histoire de la Beauté), Teorema, Tradução de Paula Reis, 2005.

Georges Vigarello sistematiza neste estudo histórico/sociológico a evolução da ideia de beleza da Renascença à actualidade detendo-se sobretudo na noção de beleza feminina, explorada ao longo dos séculos de forma tão diversa tanto pela palavra escrita como pelas artes pictóricas e oscilando ao sabor de gostos e contextos sociais/históricos díspares.

É curiosa a hierarquização do corpo na descrição do modelo de beleza no século XVI, a compartimentação das partes que constituem o todo feminino e a omissão dessa mesma soma, remetendo a delineação ao essencial, ou seja, a uma beleza revelada no “triunfo do alto”. A pesagem do belo efectuava-se por meio da avaliação da qualidade do busto e dos olhos, assim como através do temperamento e moralidade que esses traços físicos escondiam. A mulher era a maneira, o ar, a graça, tudo reunido num ser uno radiante, criado por Deus para ser exemplo de idealidade.

No século XVII vingam as denominadas beleza expressiva e beleza experimentada. Pede-se uma beleza mais natural, mais harmoniosa, mais plena de significado, mais individualizada mas em simultâneo mais atreita à escolha do penteado ou da cor do rosto. É o inicio da correcção do volátil conceito. A modificação, o retoque é possível

O século XIX apresenta-nos uma mulher mais activa, mais capaz e determinada a mostrar-se. Surge igualmente um mercado do embelezamento, ou seja, técnicas e meios de corrigir formas, adiar o aparecimento de incómodos físicos, artifícios que protelassem a “decadência”.

No século XX as formas femininas tendem a adelgaçar-se, a aproximar-se cada vez mais das figuras das “stars” do cinema que são exemplo estético e intelectual. Mulheres, contudo, ainda dependentes no inicio do século XX dos seus homens. Mas é uma tendência que se dilui e se consome na certeza da independência da mulher no período pós segunda guerra mundial. Ela é o que quer ser. A moda serve o seu propósito de se sentir bem na sua pele, bem como os mecanismos de correcção colocados ao seu dispor. O consumo proporciona a receita para uma manutenção de um ideal. O cânone colectivo esboroa-se. Nasce a amálgama de inclinações em que hoje nos situamos.

A leitura deste livro confirma e consolida a percepção histórica e sociológica que tínhamos deste longo caminho de exigências internas e externas a que as mulheres estiveram sujeitas desde a renascença até à presente data. Compila e dinamiza novos dados através de fontes tais como as primeiras revistas femininas surgidas no século XIX e as primeiras cartas de leitoras dessas publicações, a voz das mulheres ouvida pela primeira vez. Os seus desejos e exigências como melhor forma de conhecer/estudar uma época em que o que elas dizem começa a ser relevante. Nem que seja só para outras mulheres.

Domingo, Março 15, 2009

"Desconhecidos" de Taichi Yamada

Yamada, Taichi, Desconhecidos (Ljin-Tachi Tono Natsu), Civilização Editora, Tradução de Helena Serrano, 2006.

Hideo vive num Japão contemporâneo impessoal. Descobre que habita um imenso bloco de apartamentos que, durante a noite, se esvazia a ponto de nele só permanecerem duas almas solitárias nessas horas nocturnas: O próprio Hideo e uma mulher atormentada por uma deformidade física chamada Kei.

A vida pessoal de Hideo sofrera recentemente o golpe de um divórcio apetecido e descobria os primeiros passos de um percurso que desenvolveria sozinho. Não esperava importar-se com o facto de um amigo lhe confessar que iria cortejar a sua ex-mulher, pressentindo nessa manifestação uma pequena traição.
No silêncio do condomínio deserto, ele reflecte sobre as implicações que o conhecimento da relação entre o amigo e a mulher com quem estivera casado quase vinte anos teria na amizade de ambos quando ouve alguém bater-lhe à porta. Um gesto tão íntimo e deslocado do contexto de retiro e isolamento que o mausoléu em que estava encerrado simbolizava.
Demasiado ocupado com os pensamentos de ruptura com o círculo de pessoas que lhe eram mais próximas, Hideo enxota da forma mais diplomática possível a mulher que pernoita no prédio tal como ele. Ele compreende que a presença de Kei à sua porta é um pedido de ajuda, um último recurso para sobreviver a mais uma noite de reclusão que se adivinha e, no entanto, egoisticamente, volta-se para si e repele aquela mulher que não conhece de lado nenhum mas cuja súplica no olhar ele não ignora.
Ao fechar a porta, Hideo tem a perfeita noção de que terá cometido um erro e que algo perturbava Kei de forma tão excessiva que lhe ocorre que aquela poderia ser a primeira e última vez que falaria com ela.

A nova vida por que optara deixa-o nostálgico da infância que vivera numa pequena cidade não muito longe da grande cidade. E faz uma incursão a esse local que já quase não reconhece. É confrontado com o seu passado de privação ao encontrar duas pessoas que são a cópia fiel do pai e da mãe mortos num acidente de viação. Reúne-se sucessivamente aos dois (des)conhecidos numa tentativa de retomar a vida interrompida algumas décadas atrás e os três assumem essa convivência como natural até Kei, a quem Hideo pede desculpa pela sua falta de hospitalidade no dia seguinte e com quem desenvolve uma relação amorosa, reparar no seu envelhecimento acelerado de que ele próprio não se consegue aperceber ao olhar para o espelho.

Ao contar a Kei que visita regularmente os pais mortos há mais de trinta anos, esta parece não estranhar a história de fantasmas relatada e parte do princípio que as duas assombrações sugam a vida do filho para se manterem nesta dimensão. Aconselha-o a deixá-los partir, a despedir-se deles para sempre. E assim faz. Contudo, a rapidez com que os traços físicos de Hideo decaem continua e a descoberta de que é vítima de uma vingança sobrenatural sobrevém-lhe.

Esta obra é mais um exemplo da rara criatividade dos japoneses na forma como olham o mundo dos mortos a partir de uma perspectiva pulsante de vida. Um livro de enganos, uma história de fantasmas, de interditos e de palavras não ditas. Uma história de amor entre pais e filhos que ultrapassa a barreira do plausível. E uma história de vidas em potência, de vidas não concretizadas.

Domingo, Março 08, 2009

"A Festa de Anos" de Panos Karnezis

Karnezis, Panos, A Festa de Anos (The Birthday Party), Bizâncio, Tradução de Irene Guimarães, 2009.

Marco Timoleon é um dos homens mais ricos do mundo.
Todas as suas conquistas ancoravam num inelutável faro para os negócios e numa persistência sobre-humana que o empurrava a tocar resolutamente às portas que encontrava fechadas à sua passagem. Cessava de insistir quando o que almejava já era seu.

É organizada por si uma festa de anos para celebrar o vigésimo quinto aniversário da filha mas, na verdade, esta celebração esconde uma maquinação do milionário para conduzir a filha a uma tomada de posição que vá ao encontro das pretensões do pai. A festa de anos é a desculpa encontrada por Marco para suavizar a decisão que induziria Sofia a tomar.

Contudo, a perspicácia da filha (mesclada com desequilíbrios próprios de quem tivera uma vida familiar marcada pela morte misteriosa e prematura da mãe e pelos acessos de fúria do pai) põe à prova a lendária tenacidade de Marco Timoleon bem como a lealdade do amante e biógrafo do pai.

Ela consegue desnudar a alma de cada um. Só à beira do abismo eles se lhe revelam tal qual são e Sofia bebe a verdade com a sofreguidão dos desesperados.

Esta pobre menina rica e o seu pai poderoso que julga poder esmagar o mundo com o que representa e sobretudo ter absoluto controlo sobre as mulheres da sua vida demonstrando uma crueldade inexplicável para com quem o ama, fez-me vir à memória a história real de Onassis com tudo que teve de glorioso e espantoso, mas também com a denegação daquilo que era mais certo e seguro e precioso na sua vida sendo o exemplo da relação com Maria Callas o mais manifesto.

O estratagema de Timoleon para, mais uma vez, sair vencedor numa querela familiar em que a sua afirmação como o patriarca dominador é posta em causa, fracassa ante o rumo que os acontecimentos no dia da festa de anos na ilha privada de Marco seguem.

A manipulação de pessoas que pratica com a habilidade fácil de alguém que tem como hábito atropelar a vontade do outro, é evidente nesta personagem que Panos Karnezis trabalha com minúcia surpreendente naquilo que é a história de vida de um homem destinado a perder todos aqueles que ama e que num último esforço e rebate de consciência inédito nele, evita a destruição definitiva da sua família. Bem a tempo de viver, finalmente, em paz.

Domingo, Março 01, 2009

"Amor e Saltos Altos" de Sinéad Moriarty

Moriarty, Sinéad, Amor e Saltos Altos (In My Sister’s Shoes), Mercado de Letras, Tradução Colectiva, 2008.

O livro sobre o qual hoje aqui deixo o meu testemunho, “Amor e Saltos Altos” de Sinéad Moriarty, toca, com uma linguagem ligeira e algum humor, questões pertinentes que se levantam a quem está na faixa dos trinta anos e se vê confrontado com a necessidade de delimitação de prioridades na sua vida.

A perspectiva a que temos acesso é a de uma mulher de precisamente trinta anos, Kate O’Brien, que persegue o seu sonho de se tornar uma profissional dos media londrinos, longe da sua Irlanda natal à qual regressa poucas vezes por ano e por curtos espaços de tempo. Kate prepara-se para finalmente assumir e se instalar no mundo a que sempre aspirara pertencer quando recebe a notícia de foi diagnosticado à irmã mais velha a doença que matara a mãe.
Após inúmeras tentativas para encontrar uma solução que não passasse pela interrupção da sua promissora carreira em Londres, Kate ruma à Irlanda para apoiar a irmã no longo percurso de cura que a aguarda e, acima de tudo, para tomar conta dos sobrinhos gémeos de cinco anos que para uma mulher solteira de trinta anos viciada no trabalho são um completo enigma.

E é esta viagem conjunta de descoberta mútua entre uma mulher que desconhece em absoluto as implicações de ter duas crianças a seu cargo e a naturalidade com que os gémeos mostram o caminho a seguir à tia, que acompanhamos com um misto de curiosidade e ternura esta história simples, produto dos tempos que vivemos.

Não será uma encruzilhada desconhecida de muitos a que Sinéad Moriarty nos apresenta com esta narrativa. Até que ponto vai o espírito de sacrifício de alguém profundamente apegado a uma ambição de carreira bem sucedida? Quais as cedências que estaria alguém nestas circunstâncias disposto a fazer numa situação de crise familiar?

A autora confronta-nos com a realidade profissional a que estamos “presos” e com aquela outra realidade bem diversa a que a maior parte se dedica de forma abnegada encarando-a como uma libertação… Trabalhosa, é certo, mas um reencontro de nós connosco próprios: A maternidade.
Uma obra que desafia o leitor pela actualidade dos temas nela contidos e tratados de forma acessível, conduzindo-nos a extremos de humor: Tanto nos deparamos com a solenidade dos dramas como com a descontracção das formas de tratamento usados somente com aqueles que nos são mais próximos.

Domingo, Fevereiro 22, 2009

"Rapariga com Brinco de Pérola" de Tracy Chevalier

Chevalier, Tracy, Rapariga com Brinco de Pérola (Girl With a Pearl Earring), Quetzal, Tradução de Ana Falcão Bastos, 2008.

Johannes Vermeer e a mulher Catharina procuram uma criada. Sabendo o notável pintor da tragédia que se havia abatido sobre a família de um pobre pintor de azulejos que ficara recentemente cego e, consequentemente, impossibilitado de trabalhar, dirige-se na companhia de Catharina a casa deste para avaliarem de perto Griet, a filha de dezasseis anos do infortunado artista.

Griet prepara os legumes para uma sopa e dispõe-nos de uma forma que imediatamente chama a atenção de Vermeer por nada possuir de aleatório. Uma estranha organização intencionalmente bela pela conjugação de cores e formas, inquieta o distinto pintor logo na primeira abordagem à jovem escolhida para servir em sua casa.
E também Catharina, grávida do sexto filho, mostra sinais de desconforto na presença da rapariga, como se uma ameaça à sua supremacia como Senhora da casa se manifestasse subitamente na pessoa da jovem que mal ler e escrever sabia mas que denotava uma sensibilidade que havia enlaçado Vermeer numa teia de cumplicidade a ela, a sua mulher, jamais poderia aspirar.

A intimidade do casal parecia expressar-se apenas nos filhos que os rodeavam e nos que vinham a caminho. De resto, Catharina nunca tinha sido pintada pelo marido e o seu atelier era um local proibido. Até chegar a criada encarregue de o limpar.
O poder de observação de Griet, permitia-lhe afastar objectos para arejar superfícies e colocá-los milimetricamente no mesmo local de onde os havia arredado. Assim, quando o Senhor se dispusesse a trabalhar, tudo estava imaculado, intocado, imune à contaminação do mundo exterior como sempre tinha estado.
Mas o seu Senhor pintava a um ritmo insuficiente para alimentar a família, era demasiado exigente consigo próprio, atormentava-o a obrigação de pintar para um mecenas, de ceder à sua vontade cénica e quando este lhe pede para o ajudar a misturar substâncias que resultariam em tinta para os seus quadros, Griet teme a ira de Catharina. Só com a ajuda de Maria Thins, a mãe da sua senhora, é que foi possível a concretização do sonho de estar próxima de Vermeer e do seu trabalho. E até quando se converteu em modelo do pintor, foi Maria Thins, mulher detentora de elevada astúcia e compreensão das necessidades familiares, que apreendeu que assim poderia o marido de sua filha trabalhar com maior rapidez.

Não contavam com a sagacidade malévola de Cornelia, a filha de Vermeer que se mostrara indomável como a mãe face à presença ameaçadora de Griet. Uma mulher e uma menina inseguras, que não sabiam distinguir entre o uso de um par de brincos de pérola para posar para um quadro a pedido do artista e a usurpação dos objectos por motivos pouco honestos.

Griet é vítima da sua dedicação ao génio de Vermeer e sucumbe apenas quando nem o pintor que lhe exigira a pose com o brinco de pérola luzindo ante a glória da pincelada que lhe dera vida, nem a protectora de todas as horas difíceis naquela casa se dignaram defendê-la ante a acusação infundada de Catharina que contra todas as previsões galgara a escadaria que conduzia ao atelier do marido, apesar do peso de mais uma gravidez, instigada por Cornelia.

É um livro que nos envolve desde o início e nos transporta para algumas das telas de Vermeer, para as histórias por detrás delas, e para a realidade de vozes, cheiros, tonalidades e sabores que o Mestre Flamengo terá experienciado. Uma leitura que brilha no meu horizonte de memórias literárias como um brinco de pérola cintilando eternamente, num jogo de luz sem fim.

Sábado, Fevereiro 14, 2009

"Onde Vivi e Para Que Vivi" de Henry David Thoreau

Thoreau, Henry David, Onde Vivi e Para que Vivi (Where I Lived, and What I Lived For), Quasi, Tradução de Odete Martins, 2008.

Neste pequeno livro editado pela Quasi e oferecido com o Diário de Notícias, temos acesso a quatro capítulos da obra-prima de Henry David Thoreau, “Walden”, que passo a nomear: De Economia, Onde Vivi e Para que Vivi, Animais de Inverno e Da Conclusão.

Nesta amostra de “Walden”, pressentimos a natureza intrépida da obra no seu todo por meio da exposição de uma filosofia de vida advogada pelo autor e vivenciada sem subterfúgios.
Thoreau adverte prontamente o leitor de que apenas escreverá sobre as suas experiências, sobre a realidade que conhece e que realmente ensaiou. Não lhe interessa narrar factos empreendidos por outrem. A base da sua escrita, a sua grande força anímica é a prática na primeira pessoa.

E assim, é num registo diarístico que Henry David Thoreau elabora o seu relato de vida parcimoniosa na margem do Lago Walden em Concord, Massachusetts.

A observação da natureza e a observação da natureza humana cruzam-se em várias frentes nesta obra. Se por um lado a natureza oferece ao Homem os recursos necessários à sua sobrevivência, por outro a natureza humana procura suprir as suas carências buscando meios de ultrapassar o que existe para lá da soleira da porta, acessível e sobretudo dando demasiada atenção aos detalhes da vida alheia, às futilidades que a modernidade apadrinha e que o autor enumera de forma lúcida.

Para além das suas observações concernentes à dualidade vida prosaica/ vida moderna e defesa do desprendimento material que exerce apaixonadamente, Henry David Thoreau aborda igualmente questões de cariz economicista que considero de uma actualidade incomparável, senão vejamos: «Não sou capaz de acreditar que o nosso sistema de produção é o melhor modo através do qual os homens têm acesso à roupa. A condição dos operários está a tornar-se, a cada dia que passa, mais semelhante à dos operários ingleses, o que não é de estranhar, já que, por tudo o que tenho ouvido ou visto, o principal objectivo não é que a humanidade possa apresentar-se bem vestida e de forma honesta, mas sim, inquestionavelmente, que as corporações possam enriquecer. Os homens alcançam, a longo prazo, somente aquilo que ambicionam. Assim sendo, apesar de, a curto prazo, poderem falhar, fariam melhor se almejassem algo num patamar mais elevado.»

A explanação do seu estilo e filosofia de vida é uma inspiração numa sociedade em que, a percepção do que significa a natureza e todos os recursos que a compõem é pouco clara talvez porque cada vez menos haja o contacto directo com essa Mater que nos acolheu desde tempos imemoriais.

Domingo, Fevereiro 08, 2009

"Os Livros que Não Escrevi" de George Steiner

Steiner, George, Os Livros que Não Escrevi (My Unwritten Books), Gradiva, Tradução de Miguel Serras Pereira, 2008.

“Os Livros que Não Escrevi” é um conjunto de sete ensaios interligados por um fio condutor comum: O facto de tratarem temas que George Steiner gostaria de ter transposto para livro e que, por um motivo ou outro, não galgaram as margens da mera ideia.

É com um nível de erudição intimidante que o autor nos transporta para os universos de cultura, política, relações humanas, amor aos animais, admiração por mentes brilhantes e estado da educação que almejou tratar em obras ensaísticas que nunca foram executadas.
O tom ensaístico assume por vezes roupagens mais primaveris, empurrando o leitor para uma abordagem narrativa de descoberta de histórias pessoais e colectivas que enchem a alma de quem lê com cores, cidades, livros, autores, conflitos e circunstâncias da vida comum. Ocorre um reconhecimento, uma identificação entre as preocupações manifestadas pelo Professor Steiner e as que também afligem os seus leitores.

A linguagem utilizada, mas sobretudo as inúmeras referências culturais a que alude nos textos apresentados tornam esta obra uma leitura sensível. E sensível em que medida? Para a ler é necessária uma disponibilidade de espírito elevada, altos níveis de concentração, uma dedicação e atenção ao que se lê acima da média, uma enorme capacidade de captação dos enunciados descritos e um grau de assimilação colossal. Parece a receita para qualquer boa leitura que se preze mas, na verdade, George Steiner obriga-nos a obedecer a estas regras de forma absolutamente integral, até radical, diria.

Apesar de se poder considerar uma obra mais “ligeira” de Steiner, há que reter que o autor não consegue desprender-se daquilo que é, daquilo que pratica e postula: Um Ser profundamente consciente da sua sapiência embora não a apresente de forma descabida ou caudalosa mas sim inserida num contexto pleno de sentido.

Domingo, Fevereiro 01, 2009

“O Meu Diário de Guantánamo - Os Prisioneiros e as Histórias que me Contaram” de Mahvish Rukhsana Khan

Khan, Mahvish Rukhsana, O Meu Diário de Guantánamo – Os Prisioneiros e as Histórias que me Contaram (My Guantánamo Diary – The Detainees and the Stories They Told Me), Bizâncio, Tradução de Cláudia Brito, 2008.

Filha de pais afegãos, nascida nos Estados Unidos da América, dividida entre a tradição, cultura e língua pashtun e uma vivência ocidental, Mahvish Rukhsana Khan, mergulhou na realidade periférica de Guantánamo ainda enquanto estudante de direito mas conhecedora dos costumes e idioma que fariam com que os advogados que tratavam dos processos dos prisioneiros de origem afegã, mais facilmente com eles comunicassem e lhes transmitissem a confiança necessária numa relação advogado/cliente.

Três casos em particular a ocupam no tempo interrompido que significa Guantánamo para os prisioneiros inocentes que aguardam uma acusação alguns há três anos. Esse tempo imóvel desde que haviam sido separados das suas famílias, parece retomar o seu andamento com a presença familiar de uma mulher que fala a língua deles, que conhece os seus costumes, que os observa com o respeito que a cultura pashtun incutida pelos pais reservava a todo o Ser-Humano. E confessam-se, inundam aquelas celas de histórias de horror, ódio e traição protagonizadas não só pelos americanos que os maltratavam enquanto pretensos terroristas, como também pelos conterrâneos que os tinham vendido.

É um conjunto de histórias de vidas suspensas aquelas apresentadas por Mahvish Khan, de pessoas normais que na espiral de medo que se seguiu ao 11 de Setembro (impelindo os americanos a distribuir milhares de panfletos nos países que albergavam terroristas nos quais eram oferecidas recompensas milionárias a pessoas que viviam abaixo do limite da pobreza e que movidas pela inveja, pela oposição política ou social, pela mera rivalidade tribal, entregaram adversários aos americanos sem qualquer prova de culpa – bastava apontar e dizer que aquele ou aquela estava envolvido em actividades terroristas) foram apanhadas na teia de uma febre inquisitorial e farisaica própria de um qualquer improvável farwest.

Contudo, a autora não se limita a expor os casos de injustiça evidentes existentes em Gitmo. Ressalva sempre que por trás daquelas paredes, estão não só inocentes como culpados, embora a acusação não formada dos prisioneiros de Gitmo e a tortura de que todos foram vítimas, não seja, forma digna ou humana de conduzir qualquer processo, seja ele qual for.

Gitmo funciona não só como símbolo do autoritarismo selvagem e sem lei da Administração Bush, mas igualmente como súmula da indiferença do mundo perante tão evidente transgressão do direito internacional e do que é humanamente tolerável.

Como é possível libertar-se um prisioneiro depois de anos de cativeiro, provada que ficou a sua inocência, e largá-lo simplesmente no local onde o haviam inicialmente interceptado? Será isto civilização? A estas e muitas outras questões se alude no presente volume que deixa marca.

Domingo, Janeiro 25, 2009

"Titus - O Herdeiro de Gormenghast" de Mervyn Peake

Peake, Mervyn, Titus - O Herdeiro de Gormenghast (Titus Groan), Saída de Emergência, Tradução de José Manuel Lopes, 2007.

No mundo incrível a que Mervyn Peake deu o nome de Gormenghast, o leitor vislumbra uma terra com algumas menções espaciais que não identifica à luz da sua realidade e as referências temporais limitam-se à passagem de dias, meses ou anos, não sendo possível reter os acontecimentos numa redoma temporal que reconheçamos como nossa.

Tudo se estrutura de forma invertida, numa confusão premeditada de personagens fantásticas com funções assombrosas e aparência admirável.
Titus Groan é filho da Condessa e do Conde Sepulchrave, o último de uma linhagem antiga e poderosa dentro dos muros do castelo, submissa aos rituais imemoriais que haviam tornado a Casa de Groan um bastião de obediência a essas cerimónias por vezes sem sentido que Sourdust primeiro e o filho Barquentine depois se asseguravam de garantir sem que percebamos jamais o seu propósito. Os protocolos poeirentos de Gormenghast desgastavam Sepulchrave mas eram cumpridos sem qualquer objecção ocupando-lhe grande parte do dia até que, por fim, se deleitava junto da única companhia que lhe proporcionava verdadeira satisfação: os seus livros.

Titus nasce e a Condessa pede à Ama Slagg para a criança lhe ser imediatamente retirada e apenas o voltar a ver quando tiver completado seis anos, mais importância parece dar aos inúmeros pássaros e gatos que a rodeiam e com os quais comunica. Mesmo Lorde Sepulchrave não denota interesse pelo filho senão pelo facto de ser o herdeiro de Gormenghast e em consequência guardião dos rituais sem sentido que tornavam Gormenghast um reino desolado de trevas e escadas tortuosas que desembocavam invariavelmente num outro compartimento de Gormenghast. Um labirinto do qual não parece ser possível escapar.

Apenas Fuchsia, a filha mais velha de Lorde Sepulchrave e da Condessa, se aventura em locais onde o verde da natureza ou o azul do céu se lhe insinuam como que a desafiando a transpor barreiras, convenções e preconceitos com que se via rodeada no castelo.
É como se o mundo no castelo se apresentasse a preto e branco e a verdadeira vida estivesse para lá dessas muralhas. Até conhecer Steerpike. Um jovem ambicioso que é encontrado por Fuchsia ferido numa sala por si dominada. Steerpike foge da cozinha e do seu terrível Chefe Swelter e ilumina e torna colorida com os seus embustes a monótona vida do castelo. Steerpike fascina Fuchsia sem que esta o admita ou até o depreenda conscientemente. Entra no seu espaço secreto e deixa o odor da sua presença de liberdade no coração de Fuchsia, compreende-a, lê o seu coração como ninguém. Fuchsia será a única pessoa de quem Steerpike se aproxima desinteressadamente.

A escrita de Mervyn Peake é uma escrita repleta de cores e movimentos, acções e expressões, uma escrita eminentemente plástica, digna de uma adaptação de Tim Burton… O filtro gótico que Peake empresta a esta obra melancólica, cheia de um sentimento de perda comum a todas as personagens, o contraste entre os vestidos roxos das irmãs loucas de Sepulchrave e o vestido vermelho de Fuchsia e ainda o ambiente de ódio entre o decrépito Flay e o obeso Swelter que culmina com um combate até à morte, para além de todos os improváveis de que o livro é incrustado, tornam-na indispensável.

Domingo, Janeiro 11, 2009

"O Carteiro de Pablo Neruda" de Antonio Skármeta

Skármeta, Antonio, O Carteiro de Pablo Neruda (El Cartero de Neruda), Biblioteca Sábado, Tradução de José Colaço Barreiros, 2008.

Desde que vi a transposição para o grande ecrã de “O Carteiro de Pablo Neruda” dirigido por Michael Radford que queria ler a obra de Antonio Skármeta na qual o filme se baseou. Criei grandes expectativas em relação a esta leitura porque a história contada no cinema era muito simples mas repleta de uma aura poética e humana que muito admirei e aplaudi.

Contudo, a riqueza das personagens no filme de Radford (quem não se recorda da magnífica interpretação de Massimo Troisi como Mario, o carteiro de Neruda?) esbate-se no suporte inicial e desilude pela simplicidade sem magia que patenteia.
Falta-lhe a genuinidade e pureza das vozes que deram corpo à história de um carteiro que entregava cartas à única pessoa que as recebia naquele mundo do fim do mundo, Pablo Neruda, estabelecendo-se uma relação de cumplicidade e mesmo amizade entre dois homens fruto de gerações diferentes mas feitos da mesma matéria sensível.

Em contraste com a política de aldeia que se desenrolava na ilha, palco menor mas ainda assim revelador de tendências nacionais, surgia a grande política na qual Neruda era actor principal no proscénio do destino do Chile.
É evidente que para além das questões políticas que muito ocupavam Neruda, Mario trazia-lhe sempre com o correio as suas francas interrogações sobre poesia e o amor por Beatriz, questões que assumiam proporções salientes na vida do carteiro de Neruda e nas quais envolveu o poeta.

Era um mundo de coisas simples, de pessoas que sonhavam a vida e o pequeno mundo que habitavam sem complicações e a convivência de Neruda com as pequenas dificuldades que Mario encontra para conquistar as poucas coisas a que poderia aspirar, servem de inspiração ao poeta que descobre no jovem carteiro essa sensibilidade tão difícil de percepcionar, de presenciar.

Não existe uma correspondência de qualidade entre livro e filme e por muito que quisesse, não consigo deixar de efectuar esta associação, ainda para mais tratando-se de um filme que tanto aprecio. Ocorre-me dizer que Antonio Skármeta desenvolve com alguma pobreza uma bela ideia e Michael Radford transforma um livro vulgar numa obra cinematográfica, para mim, inesquecível.

De notar, contudo, que a espaços assistimos a momentos de prosa poética que não posso deixar de valorizar e destacar conforme poderão confirmar na barra lateral esquerda na rubrica “Excertos” onde reproduzo um dos mais belos instantes lidos da presente obra.

Sábado, Janeiro 03, 2009

"A Guerra dos Tronos" de George R. R. Martin

Martin, George R. R., A Guerra dos Tronos (A Game of Thrones), Saída de Emergência, Tradução de Jorge Candeias, 2007.

A incursão no género literário em que “A Guerra dos Tronos” se encaixa, atribuo-a às várias críticas entusiastas lidas nos meus poisos literários habituais. Foi, assim, com alguma naturalidade que fui generosamente instigada a ler a actual obra, livro primeiro da saga denominada “As Crónicas de Gelo e Fogo”.

Esta fantasia por alguns dada como próxima daquela criada por Tolkien, parece-me claramente diversa.
É certo que estamos numa Idade Média imaginária e é igualmente certo que as personagens são marcantes, fortes nos seus propósitos e atitudes. Contudo, o mundo de fantasia de Tolkien vai um pouco mais além, é mais ousado na medida em que para além da panóplia de personagens humanas, são introduzidos seres com características físicas ou espirituais não humanas como duendes, fadas, elfos ou feiticeiros. George R. R. Martin, e reporto-me apenas ao primeiro volume de uma obra vasta, simplifica o universo apresentado dispondo apenas tipos humanos na história até agora contada.

Existe, no entanto, uma insinuação de ameaça quase sobrenatural para lá do mundo conhecido, para lá da Muralha de Gelo que separa os espaços em que as personagens apresentadas neste primeiro livro se movimentam e essa outra extensão de terra de onde parecem emergir sinais inquietantes que nos deixam em suspenso para o volume seguinte.

A história é simples e contada sem grandes artifícios estilísticos, mas o dinamismo que o autor empresta ao narrador na forma como nos transmite as venturas e desventuras dos Stark, dos Lannister e dos Targaryen, incute no leitor o desejo de mergulhar nas águas profundas das tramas em que estas três casas nobres estão implicadas.

A literatura fantástica é o género literário que menos explorei até ao presente momento, mas depois desta experiência de grande interesse e da oferta neste Natal do segundo volume de “As Crónicas de Gelo e Fogo” – A Muralha de Gelo” – será, como é óbvio, uma experiência a repetir.

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

"Carrie" de Stephen King

King, Stephen, Carrie, Tradução de Maria Filomena Duarte, Bertrand Editora, 2008.

A história de Carrie White, uma jovem adolescente rejeitada com o dom (ou a maldição) da telecinesia, é contada por várias vozes que sobreviveram à vingança do Baile de Finalistas e que participam no inquérito aos acontecimentos daquela noite fatídica.

Assim, sabemos que Carrie vivia com uma mãe que professava uma fé religiosa ultra conservadora impondo à filha, por meio da violência psicológica, os valores e atitudes desencadeantes do afastamento do mundo profano e repleto de tentações; Sabemos que Carrie vestia roupas largas que escondiam as formas do seu corpo e desconhecia os factos mais naturais da vida como é o caso da menstruação; sabemos que quando tinha cerca de três anos uma chuva de pedras se abateu sobre a casa em que vivia com a mãe e essa fora a primeira manifestação da telecinesia, analisada numa base científica como sendo algo de hereditário, uma espécie de doença que se manifestava quando o sujeito estava sob uma forte tensão provocando a mobilidade de objectos estáticos; sabemos que Carrie era e sempre fora vítima de perseguição por parte das alunas mais populares na escola que frequentava; sabemos que fora convidada para o Baile de Finalistas e que no momento de receber o prémio de Rainha do Baile juntamente com o seu par, algo de inominável acontecera despoletando a vingança de Carrie naquele pavilhão e depois um pouco por toda a cidade.

Carrie como o fruto do pecado, como a lembrança viva da prevaricação da sua mãe, enfrentou-a para se tornar em alguém normal por uma noite. Fez o seu vestido, foi genuinamente elogiada por aqueles que a desprezavam horas antes, aplaudida quando subiu ao seu palco de glória e por fim, quando nada poderia já correr mal, foi ridicularizada perante aquelas centenas de pessoas voláteis.

As portas foram encerradas com um simples olhar. Carrie primeiro estática ao ser, novamente, o centro da mofa alheia, depois move-se freneticamente para fugir das gargalhadas que a dilaceram.
Depois de fechadas as portas, instala-se o pânico e tudo se move sozinho e as chamas purificam o local onde o cordeiro foi publicamente sacrificado.

Carrie ainda vagueia pela cidade enquanto a mãe a espera com uma faca para a matar, para o derradeiro derramamento de sangue, a imolação final.

Este romance de Stephen King aborda em 1974 o tema do assédio entre adolescentes mais universalmente conhecido por “bullying” levado a um extremo de consequências terríveis nesta obra adaptada brilhantemente ao cinema por Brian de Palma em 1976.

Apesar da carnificina final, perpassa a ideia de que a verdadeira vítima é Carrie, uma menina que só queria ser amada.

Domingo, Novembro 30, 2008

"Diego & Frida" de J.M.G. Le Clézio

Le Clézio, J. M. G., Diego & Frida (Diego et Frida), Relógio D’Água, Tradução de Manuel Alberto, 1994.

Um elefante e uma pomba.

Frida Kahlo, a jovem sofredora mas decidida, delicada, resolvida a trepar árvores para gritar o seu amor incondicional por Diego.

E Diego de Rivera, o experiente homem do mundo, ogre de mulheres, coleccionador itinerante de rostos e corpos, gigante corpulento que arrebata o olhar perscrutador e rígido de Frida.

Antes de começar verdadeiramente a história de vida de Diego & Frida, deparamo-nos com um Diego ávido de aventura e da descoberta dos locais “sagrados” observados e percorridos pelos seus mestres de sempre. Parte para Paris onde se deslumbra com o ambiente de fervilhante revolução artística, conhece e priva com os grandes obreiros dessa reforma criativa, vive, pinta, ama e perde o seu único filho na buliçosa e gélida cidade onde pululam ideias e génios mas não o conforto que poderia ter salvo a criança cujo fim o deixará eternamente ferido e com uma triste aversão pela cidade da escuridão.

O regresso ao México traz-lhe um projecto de frescos no anfiteatro de uma escola, ideais políticos que espera representar na sua pintura e uma nova mulher, Lupe Marín.

Aliás, o compromisso de Diego de Rivera com a pintura é de cariz interventivo e nunca cessará de o ser mesmo quando põe um ponto final na sua filiação no partido comunista. Diego é livre, é um selvagem na medida em que não suporta que imponham restrições ao seu livre pensamento, à sua liberdade artística, não aprecia os limites, as barreiras. Para ele tudo é possível, a sua confiança ilimitada e vive de acordo com essa crença linear e segura em si próprio.

Já o compromisso de Diego de Rivera com as mulheres da sua vida, não terá sido tão imaculado…

Quando uma adolescente curiosa se aproxima do local onde Diego pinta os frescos da Preparatoria, Lupe Marín sente a incomodidade na pele. Aquele encontro que não chega a ser encontro, será o primeiro de uma vida de encontros e desencontros entre Frida Kahlo e Diego de Rivera. Entre a pomba e o elefante.

Algum tempo depois desse primeiro impacto de vida, Frida sofre um acidente que lhe transforma o corpo, a alma, a vida para sempre. Um impacto de morte. Tinha um destino a cumprir, uma missão, mesmo que tal significasse ficar encarcerada num corpo mutilado e presa a uma forma de vida que não desejava mas que abraça com coragem. Tem de aprender a viver todos os dias com a dor física. Porque Diego a espera. Porque toda a vida esperou por Diego.

É o confronto de Frida com Frida, ferida de morte, sobrevive através de Diego, da pintura que é o cordão umbilical que a liga ao mundo exterior, a Diego, ao filho que tanto desejara e não conseguira conceber. A dor. Dor de alma por se olhar ao espelho e tudo lhe parecer bem e as entranhas, no entanto, a despedaçarem por dentro.

Frida una não existe, Frida é diferente e outra em cada auto-retrato pintado, em cada cenário que cria em cada vivência que abraça.
E também Diego se auto recria em vários momentos, qual Fénix renascida após a aventura americana em que deixa a marca dos ideais comunistas nas grandes metrópoles americanas, provocando a ira dos magnatas do núcleo capitalista mundial.
É a provocação maior a que poderia almejar e no regresso ao México é herói público, aclamado pelo povo e Frida a seu lado uma heroína privada, saudada pelo seu sofrimento.

Um livro que vai para além da mera biografia, J. M. G. Le Clézio interpreta, investiga, cruza informação e decifra o que Frida e Diego escreveram sobre a sua vida em comum e os seus tormentos privados, romanceia uma história que atravessou a História e fez História.

Domingo, Novembro 23, 2008

"O Pregador Atormentado" de Thomas Hardy

Hardy, Thomas, O Pregador Atormentado (The Distracted Preacher), Quasi, Tradução de Vasco Gato, 2008.

Um jovem pregador metodista, Richard Stockdale, chega à pequena aldeia de Nether-Moynton para guiar o rebanho de fiéis provisoriamente, e logo compreende que ninguém havia assegurado a questão do alojamento do novo pastor, indiferentes que estavam à sua chegada.
A única casa com um quarto disponível era a da jovem viúva Lizzy Newberry que nela vivia com a mãe e uma criada.

E é nessa estada em casa de Lizzy que Stockdale se começa a aperceber das estranhas e inconstantes rotinas da Senhora Newberry, atento que estava às suas movimentações graças a um crescente interesse pela sua pessoa, assim como desperta para o envolvimento da aldeia numa forma de subsistência ilícita na qual Lizzy está implicada.

As incursões nocturnas de Lizzy preocupam-no não só porque a integridade física da mulher que ama pode estar em causa, mas também porque pondera os hábitos peculiares da viúva como um entrave, uma impossibilidade para esta se tornar mulher de um pregador metodista, neste caso, sua mulher.
As responsabilidades de uma mulher na posição em que Stockdale a projecta, não seriam compatíveis com a vida noctívaga, por razões de sobrevivência pessoal é certo, em que Lizzy se encontra.
Mas o apelo da subsistência não é o único a pesar no coração dividido da viúva Newberry. A vida aventurosa que leva também a requesta a uma continuidade ilógica e perante a insistência do pastor na desistência do modo de vida escolhido, a heroína deste conto aventura-se a permanecer sozinha, a atravessar os campos inundados de lua em amenas madrugadas de verão, a liderar homens com o casaco do marido falecido por cima do vestido, a fugir intrepidamente do fiscal Latimer que persegue os que roubam Sua Majestade o Rei.
Lizzy abdica do Amor e Stockdale na encruzilhada da emoção e do dever, parte de Nether-Moynton rumo a outra congregação, a uma existência sem sobressaltos nem atribulações, longe da mulher amada, mas seguro da impraticabilidade daquela união naquelas circunstâncias, reprovando a obstinação daquela mulher independente.

O fim da história, um fim ideal, “praticamente de rigueur numa revista inglesa ao tempo em que foi escrito” como afirma Hardy muitos anos mais tarde, sofre em 1912 um acrescento final, uma nota do autor, em que explica o porquê dessa escolha e sem qualquer contemplação, afirma que, na verdade, o desfecho da história de Lizzy e Stockdale seria fiel ao temperamento libertário da viúva, sem salpicos de exemplaridade mas unicamente transbordante da coragem de Lizzy em assumir que a noção de perfeição dos outros nem sempre coincide com os nossos sonhos.

Sábado, Novembro 22, 2008

"Rua do Ácido Sulfúrico - Patrões e Operários: Um olhar sobre a CUF do Barreiro" de Jorge Morais

Morais, Jorge, Rua do Ácido Sulfúrico – Patrões e Operários: Um olhar sobre a CUF do Barreiro, Bizâncio, 2008.

Uma cidade dentro de uma cidade. Eis o que a CUF, a Companhia União Fabril, foi no Barreiro durante décadas de existência e convivência com o pólo citadino ali próximo.
Hoje, de regresso à CUF, restam “escombros e silêncio”. O que sobreviveu do movimento de gente e máquinas que dava vida a um dos maiores e mais significativos complexos industriais do Portugal da primeira metade e parte da segunda metade do século XX? O autor observa a extensão de “… vestígios desengonçados de estruturas metálicas, tubagens esventradas, caldeiras, fornos e carris roídos pela ferrugem, esqueletos machucados de armazéns, muretes em decomposição, portões entaipados por madeira podre. A erva cresceu em ramagens de mato e finca os seus pés no território deste deserto, reclamando espaço na desolação. Um vento absurdo silva por entre pilares esfiapados até à medula, tectos que sucumbem, frontispícios desdentados, mecanismos calcinados onde bamboleiam com sarcasmo teias de aranha. O céu escancara-se para aplicar uma luz cruel, cegante, sobre planaltos de cinzas, resíduos de um clamor que se extinguiu. Apenas restos de lancis sugerem que aqui houve ruas, vozes, gente. Pontuando os destroços, chaminés agonizam com a dignidade de gigantes lacónicos.”.

“Rua do Ácido Sulfúrico” é um estudo de vivo interesse sobre o percurso da CUF desde os seus primórdios (1907) até ao seu fim (1974).
Para além da ênfase dada ao trabalho meritório de Alfredo da Silva, o fundador, e seus descendentes, somos igualmente arrebatados pela força da maioria, daqueles que faziam da CUF um grupo de empresas com níveis de produtividade extraordinários, pautadas por um prestígio imaculado e por um conceito de cidade de trabalho que transformou a Companhia União Fabril no exemplo mais acabado de empresa que provia às necessidades não só laborais mas também pessoais dos seus trabalhadores.

Muitos viviam com as suas famílias no interior do complexo industrial, abasteciam-se na mercearia que lhes disponibilizava produtos mais baratos que no exterior, tinham uma assistência médica invejável, faziam parte do grupo cultural e recreativo, praticavam as mais diversas modalidades desportivas, sentiam-se parte de uma organização que reconhecia o valor do trabalho e fazia questão de o premiar devidamente.

Jorge Morais relata-nos o trajecto ascendente da CUF e a sua queda, mostra o legado positivo que permaneceu, sobretudo como modelo de como uma estrutura empresarial deve funcionar não só em termos organizacionais mas sobretudo ao nível do relacionamento com a massa trabalhadora.
O autor também realça o impacto negativo que a industrialização do Barreiro trouxe, nomeadamente, a qualidade do ar que se respirava nos tempos de pleno funcionamento da CUF não seria, evidentemente, a melhor. O progresso sempre teve um preço.

Trata-se de um capítulo pouco explorado e, consequentemente, pouco conhecido da nossa história do século XX que esta “Rua do Ácido Sulfúrico” vem enriquecer com imagens de progresso, engenho, trabalho que nada mais são que exemplares para os herdeiros dessa memória: Todos nós. Uma obra essencial.

Domingo, Novembro 16, 2008

"A Cura de Schopenhauer" de Irvin D. Yalom

Yalom, Irvin D., A Cura de Schopenhauer (The Schopenhauer Cure), Saída de Emergência, Tradução de Carlos Romão, 2006.

Julius Hertzfeld é terapeuta e é-lhe revelada a inesperada notícia da sua morte iminente.

Esta é a história da forma como Julius partilha essa revelação com um grupo de terapia que acompanha e, sobretudo, como inclui nesse conjunto de pessoas por si “escolhidas” um antigo paciente, tido como um fracasso marcante na carreira de Julius.
A reabertura do dossier de Philip Slate traz à memória de Julius uma patologia que não fora possível debelar e ocorre-lhe que uma das suas últimas missões enquanto Ser-Humano seria procurar Philip e tentar compreender o que falhara e se recuperara.

Encontra um homem diferente graças ao seguimento de uma filosofia que transpusera para a sua vida quotidiana, uma auto-prescrição de pensamentos e normas provenientes dos escritos de Arthur Schopenhauer.

Philip estava curado do problema que o afligira vinte anos antes contudo, o facto de reger a sua vida em torno de um conjunto de ideias rígidas, anti-sociais e deterministas, transformara o seu mundo de descartável (visto as relações humanas que encetava serem fugazes e, consequentemente, sem significado profundo, tudo era substituível e procedia sem remorso) em insular. Ele isolara-se conscientemente da massa humana imprópria, convertera-se num Ser hibernante, preso numa cela de ideais dourados, refugiado da influência nefasta que o contacto humano lhe proporcionara. Philip rompe com a vida.

Julius sente que é seu dever resgatar alguém que em vida não vive e que ele não conseguira ajudar a encontrar um rumo. É quase como se sabendo da sua ausência para breve e para sempre, pretendesse restaurar a alma enfraquecida de Philip, lhe pegasse na mão para ocupar o lugar que ele, Julius, deixaria vago no teatro do mundo.

A frieza das doutrinas de Schopenhauer apodera-se da semi-vida de Philip, contribuindo para a fruição que parecia retirar da absoluta solidão em que sustinha a sua existência. E é então que, gradualmente, a partilha de experiências com o grupo, o exorcizar de todo o mal que o apoquentara e que via reflectido nas mágoas dos “outros”, dos seus companheiros de viagem, relegam-no para um estado de entendimento, de comiseração, de compaixão pela humanidade ali representada e por si próprio como elemento constituinte desse universo humano.

A cura de Schopenhauer facilitara-lhe a fuga de um abismo mas conduzira-o a outro, à denegação da sua condição humana. E o ressurgir de Philip como homem completo faz-se por meio do choro, acto humano por excelência.

Sábado, Novembro 08, 2008

"A Fé de um Escritor" de Joyce Carol Oates

Oates, Joyce Carol, A Fé de um Escritor (The Faith of a Writer), Casa das Letras, Tradução de Maria João Lourenço, 2008.

“A Fé de um Escritor” é uma compilação de doze ensaios e uma entrevista de cariz intimista publicados originalmente em revistas e jornais da especialidade e através dos quais acedemos a reflexões sobre a actividade da escrita na perspectiva de quem escreve (Joyce Carol Oates como escritora) e de quem lê (Joyce Carol Oates como leitora voraz).

Conhecemos na primeira pessoa os hábitos da escritora e da leitora. O antes, o durante e o após a “fúria” criativa enquanto escritora e a absorção do furor criativo de outros autores enquanto leitora; a transformação que o acto da escrita provoca no sujeito que escreve e a metamorfose operada no leitor quando se propõe debruçar-se sobre uma determinada obra; a forma como o espaço físico condiciona a postura do autor e do leitor; a predisposição do autor em determinados momentos para juntar todos os pequenos papéis que foi acumulando nos bolsos à medida que as ideias brotavam e que após uma longa caminhada origina aquilo que designamos por obra, um todo coeso produto de muitas e aturadas leituras, muitas e prolongadas considerações íntimas, muitas e forçosas vivências, muita observação aparentemente vazia de sentido, muitas e profundas influências, rastos deixados na alma, no coração da escritora/leitora.

Joyce Carol Oates, autora consagrada, presta homenagem às suas autoridades literárias, dedica inúmeras páginas aos seus “guias” enquanto escritora metódica e leitora compulsiva, povoa os escritos de “A Fé de um Escritor” de autores fabulosos e obras eminentes que condicionaram a sua existência enquanto escritora/leitora.
Fragmentos desses livros memoráveis, sejam romances ou poemas, são perpetuados no seu como forma de aniquilar o esquecimento, de louvar a intensidade do acto de ler porque só assim nasce o verdadeiro escritor (para quem tem essa pretensão, naturalmente… Quanto aos que não aspiram a tal patamar, subsiste sempre a delícia, o prazer, o abandono a essa espécie de fé inabalável pelo livro).

Joyce Carol Oates reverencia os mestres que a antecederam e os mestres seus contemporâneos, todos os que lhe apontaram o caminho quando ainda não tinha consciência de que esse trilho, essa opção era uma realidade a seguir ou a rejeitar. É numa perspectiva de amor pelos livros e seus autores que Oates nos apresenta uma panóplia das mais marcantes forças literárias da sua vida.

A voz franca, de uma honestidade cristalina e sábia de Joyce Carol Oates é motivo suficiente para ler, degustar os ensaios agora compilados neste volume que evidencia com simplicidade e mestria que a actividade literária, a vida e a técnica são partilhados por escritor e por leitor. Sim, nós leitores desenvolvemos uma actividade literária em muitos casos intensa.

Este é um livro indispensável para quem lê como quem respira, para quem venera a leitura e os livros como se de um acto e um objecto de fé se tratassem.

Domingo, Outubro 26, 2008

"O Segredo da Casa de Riverton" de Kate Morton

Morton, Kate, O Segredo da Casa de Riverton (The Shifting Fog), Porto Editora, Tradução de Vítor Guerreiro, 2008.

“O Segredo da Casa de Riverton” é o romance de estreia de Kate Morton, autora australiana que não esconde o fascínio pelos anos que precedem a 1ª Guerra Mundial e pelos que imediatamente lhe sucedem.

E é neste contexto temporal, no seio da Inglaterra nobiliárquica, tendo como cenário principal a velha mansão rural da família Hartford, a Casa de Riverton, que as histórias que compõem esta obra se desdobram.

Uma realizadora americana interessada em contar a história do suicídio do poeta R. S. Hunter ocorrido em Riverton em 1924, procura Grace, a única serviçal que prestara serviço na antiga casa ainda viva.
O reencontro de Grace com memórias e segredos da família Hartford e muito particularmente, a sua compreensão da proximidade com Hannah, uma das filhas do Sr. Frederick, filho de Lord Ashbury, o Senhor da Casa de Riverton, provocam um turbilhão de emoções na mulher prestes a completar o século de existência e já entregue aos cuidados de um lar.

Recordar a sua chegada a Riverton com 14 anos, o seu primeiro contacto com os 3 filhos do Sr. Frederick, a cumplicidade estabelecida sobretudo com Hannah apesar da rigidez existente no que respeitava à conduta dos criados, as perdas humanas que advieram da 1ª. Guerra Mundial, os sonhos perdidos das crianças Hartford, tudo é relembrado por Grace com a nitidez de quem esteve sempre presente, com a clareza de quem partilhou segredos com quem vivia na parte superior da Casa.

O facto de Grace ter acesso aos segredos maiores da família (incluindo o próprio segredo da sua existência) que acompanhou ao longo de mais de 20 anos, tornam-na a principal fonte de informação para a realizadora, sobretudo no que dizia respeito aos hábitos e ao ambiente da Casa de Riverton na época em que o famoso poeta R. S. Hunter se suicidara junto ao lago quando decorria uma festa na propriedade. E nós leitores tomamos conhecimento das confissões mais íntimas de Grace, temos acesso aos seus pensamentos nunca verbalizados, segredos que prometera nunca partilhar.

Na fatídica noite da morte de Hunter, Hannah entrega um medalhão com uma chave no seu interior, uma chave que abria um cofre.

Grace é a guardiã do (s) segredo (s) da Casa de Riverton. Incluso o segredo da sua transgressão.

Domingo, Outubro 19, 2008

"A Queda da Casa de Usher" de Edgar Allan Poe

Poe, Edgar Allan, A Queda da Casa de Usher (The Fall of the House of Usher), Edições Quasi, Tradução de Vasco Gato, 2008.

Este pequeno livro é composto por três contos de Edgar Allan Poe representativos do legado sui generis deixado pelo autor americano natural de Boston – “A Queda da Casa de Usher”, “Uma Descida ao Maelström” e “O Homem da Multidão”.
No primeiro conto – “A Queda da Casa de Usher” – o leitor é arrastado, tal como o próprio narrador, para um ambiente de reclusão bafienta e loucura inquietante personificados pela fantasmagórica Casa dos Usher e pelos seus habitantes, os derradeiros herdeiros de um nome antigo e condenado ao desaparecimento precoce a que a doença, irremediavelmente, o parece sentenciar. O isolamento dos dois irmãos Usher, Roderick e Madeline, é quebrado apenas pelo aparecimento do narrador, amigo de longa data do primeiro, chamado pelo enfermo para o serenar com a sua companhia no momento particularmente opressivo que vivia. A razão abandonara Roderick e quando Madeline sucumbe à doença que a atormentava, o estado já irreversível da sua incapacidade mental, avança rumo à loucura declarada, a um total apartamento do mundo circundante. A permanência durante vários dias do corpo da irmã Usher nas masmorras da Casa, cria na mente perturbada do irmão o que pareciam ser delírios e alucinações auditivas que, no entanto, são partilhadas, pelo menos a um nível subconsciente, pelo narrador que assiste à queda do mal enraizado e simbolizado pela Casa de Usher e pelos seus últimos descendentes.

Em “Uma Descida ao Maelström” um visitante é conduzido numa viagem às memórias de um pescador norueguês, único sobrevivente de um fenómeno sobrenatural que implicava a descida a uma espécie de submundo sem retorno. O pescador relata o dia em que se fizera ao mar com os irmãos e foi surpreendido pelo prodígio conhecido de todos os homens do mar da região, um vórtice surgido do nada que sugara o seu barco para as entranhas sem fim do inexplicável turbilhão. Vivia de contar a fantástica história a quem não o conhecia porque os seus conterrâneos, apesar de serem testemunhas do seu envelhecido regresso, não acreditavam na assombrosa narrativa.

No terceiro e último conto – “O Homem da Multidão” – acompanhamos o voyeurismo de um narrador que a partir da janela de uma casa vislumbra a buliçosa vivência exterior, adivinhando nas feições e características dos sujeitos que desfilam à sua frente, toda uma existência. Perde-se a seguir com o olhar os interessantes “tipos” que constituem a “fauna” londrina de meados do Século XIX mas apenas desperta verdadeiramente quando se depara com uma figura em particular, “o semblante de um velho decrépito” que se destacava da multidão pela expressão indecifrável que possuía, próximo de uma “encarnação pictórica do demo”. Tal é a sua curiosidade que sai de casa e decide segui-lo pelas ruas e vielas que percorre, desesperado por interpretar aquela existência.

Os três contos de Poe de que é composto este livro, guiam-nos a mundos fora deste mundo, mundos esses visíveis ao olhar dos crédulos, mundos de horror. O confronto do improvável com a realidade cria a rejeição e a vida por detrás do vidro que limita as realidades paralelas é, não raro, acossada pelo temor de que o impossível por vezes também acontece.

Domingo, Outubro 12, 2008

"Alexandre - A Corte da Morte" de Paul Doherty

Doherty, Paul, Alexandre – A Corte da Morte (Alexander The Great, The Death of a God), Saída de Emergência, Tradução de Maria do Carmo Romão, 2005.

O jovem Capitão-General da Grécia perscruta a oportunidade para invadir o Império Persa liderado por Dario III. A ocasião mais propícia para abandonar o acampamento e marchar rumo à suprema glória tão almejada por Alexandre, ser-lhe-ia ditada pelos deuses através de sacrifícios reveladores e pelo seu instinto infalível e perspicácia que o elevavam sempre à condição de Grande aos olhos dos soldados e seguidores mais próximos.

Paul Doherty situa-nos num contexto de guerra iminente mas apresentando-nos a perspectiva macedónia, o horizonte persa e o quadro dos povos esmagados por Alexandre unidos agora aos persas, a única civilização capaz de vergar a força intrépida do conquistador macedónio.

À parte a questão maior da possibilidade de um recontro entre o poderio militar persa e a perspicácia macedónia, assistimos a um conjunto de assassinatos no seio da força macedónia sendo chamado para os desvendar Telamon, o médico amigo de Alexandre dos tempos de Mieza em que Aristóteles era seu mestre. Antes de partir para o acampamento é convocado por Olímpia, a terrível mãe de Alexandre, a “Rainha Bruxa” e regente na ausência do filho, obcecado que estava em ir até à beira do mundo.
O diálogo entre ambos é de grande interesse e suficiente para apreendemos as personalidades díspares que se confrontam nos momentos em que decorre a audiência. Telamon tem medo de Olímpia, no entanto, faz-se valer da sua moral impoluta e de uma intelectualidade surpreendente (Citando com frequência os grandes autores gregos em resposta às investidas de Olímpia) para demonstrar a segurança possível face às ameaças veladas da mãe de Alexandre.
Telamon é intocável. Num baú deixado por Alexandre consta uma lista dos que, na sua ausência, não deverão ser atacados. Alexandre não se esquece dos amigos de outrora.

Os crimes cometidos no acampamento macedónio são relacionados com a presença de um espião ao serviço de Dario III que todos sabem existir mas cuja identidade é um mistério até para os próprios persas.
Alexandre confessa a Telamon que a sua confiança nele é ilimitada deixando implícito que o séquito que o rodeia e que participa activamente nas suas inúmeras festas não é de sua inteira confiança. E Telamon experimenta a desconfiança dos mais próximos do Capitão-General, pondo em causa as suas próprias capacidades como médico.

Alexandre, o Grande é um menino perdido na terra do nunca que tenta evitar ser engolido pelas forças externas que o encurralam sendo que estas forças externas partem muitas vezes de sectores próximos de si.
A sua vivência é intensa e o seu carácter apesar de firme, não é completamente equilibrado, parecendo marcado, por um lado, pela necessidade de superação de um pai ambíguo, e por outro pela necessidade de equiparação ao semi-deus Aquiles que Olímpia afirma ser seu antepassado.
Assim, quando visita Tróia e se apresenta como seu salvador, as armas de Aquiles parecem ser a sua única preocupação e experimentá-las o seu único objectivo. Alexandre busca o contágio, a transmissão de um poder divino que só um homem pleno, guerreiro absoluto e amigo fiel como Aquiles poderia comunicar. Encarna a sucessão em pleno.

Telamon vê-se inicialmente como um refém de Olímpia, contudo, com o decorrer do tempo perto de Alexandre compreende que o ímpeto do Rei e falta de aconselhamento sério, tornam a sua presença pertinente e Olímpia, à sua maneira vil e desajustada, procurava apenas um protector atento para o filho.

A forma como Paul Doherty aborda as intrigas, o modo de vida, tanto em campanha militar como nos palácios onde o poder político comanda, os rituais gregos ante as eventualidades da vida, a traição, a forma de tratamento dos escravos, demonstra conhecimentos sólidos da época em causa tornando a obra claramente recomendável.

Domingo, Outubro 05, 2008

"Um Mundo sem Fim - Volume I" de Ken Follett

Follett, Ken, Um Mundo sem Fim (World Without End), Editorial Presença, Tradução de Alice Rocha, 2008.

Depois de ter lido algumas críticas elogiosas a “Os Pilares da Terra”, senti uma natural curiosidade em conhecer a obra de Ken Follett e comecei por este recém-publicado “Um Mundo sem Fim”, o primeiro volume de uma história que começa em Inglaterra, mais propriamente na próspera cidade de Kingsbridge, na primeira metade do século XIV tendo como principais intervenientes um grupo de homens e mulheres que, quando crianças, presenciaram a perseguição de um grupo de homens a um cavaleiro e morte que este acabara por infligir aos seus atacantes. Gwenda, Caris, Merthin e Ralph são os heróis e vilão (por esta ordem) dos acontecimentos que anos mais tarde marcariam os destinos das quatro personagens e de Kingsbridge.

Seguimos as maquinações do clero local sempre em busca do poder impossível, atropelando a moralidade apregoada pelos Santos da Igreja sobretudo porque a ambição desmedida de um certo Godwin inviabiliza a redenção de todas as almas errantes porque incompreendidas e possibilita a subida aos céus dos que compõem o seu séquito de tratantes.

Deparamo-nos com a rebeldia de quem se recusa a aceitar o fim inevitável reservado a todas as mulheres na idade média europeia, contrariando essa fatalidade com intervenções de relevo na sua cidade num momento de crise comercial com um contributo de apresentação de soluções palpáveis quando a feira do velo parecia condenada ao desaparecimento e negando casar-se com o homem que amava porque urgia declinar o que toda a comunidade esperava dela.

Acompanhamos o amor incondicional de uma mulher por um homem noivo de outra e a força quase sobre-humana com que sobrevive a atrocidades perpetradas contra a sua pessoa.

Vemos um aprendiz de artesão suplantar o seu mestre, encontrar explicação para as anomalias nas estruturas da cidade e com as suas ideias pioneiras solucionar uma das piores adversidades com que Kingsbridge se deparara: A queda da ponte que permitia o acesso dos comerciantes à muito concorrida feira do velo.

Assistimos à ascensão meteórica de um escudeiro ao serviço do Conde Roland à categoria de Senhor de Wigleigh onde exerce o seu poder de forma brutal, maldosa e autoritária.

Confesso que a obra, à semelhança do que já foi escrito por Djamb em Folhas de Papel, não impele o leitor à aquisição do II Volume, não só porque os erros de impressão são imensos, mas também porque o autor parece não ter descoberto a forma ideal de contar esta história, parecendo perder-se na descrição dos costumes e práticas da época em detrimento da sólida construção de uma narrativa. Sublinho que Ken Follett não me maravilhou com esta história, restando-me aguardar pela obra que contrarie esta opinião menos positiva.

Domingo, Setembro 28, 2008

"O Hóspede" de Marie Belloc Lowndes

Lowndes, Marie Belloc, O Hóspede (The Lodger), Quidnovi, Tradução de Mário Dias Correia, 2008.

O pano de fundo deste policial intenso é a nevoenta Londres de fim de século de onde emerge um novo tipo de criminoso, uma nova forma de fazer jornalismo e novas técnicas policiais que pudessem desvendar a identidade do homem que espalhava o terror nas madrugadas londrinas e que se auto-denominava como “O Vingador”.

Um casal de serviçais de meia-idade retirados da vida activa, Mr. e Mrs. Bunting, levam uma vida tranquila mas de muitas dificuldades e, apesar de terem um anúncio a indicar que possuem um quarto para alugar, passa muito tempo até surgir alguém interessado nos aposentos propostos. Só quando já haviam atingido um estado de quase desespero é que aparece um inquilino interessado e aparentando uma generosidade que deixa os Bunting aliviados perante a perspectiva de abismo sem retorno que haviam entrevisto apenas algumas horas antes.

Mr. Sleuth, o hóspede, é um homem estranho, possuidor de hábitos fora do comum, mas para o casal ele transforma-se no seu anjo salvador e relegam as suas rotinas pouco usuais para um plano secundário, interessando-lhes unicamente o facto de Sleuth ser educado, cumprir as suas obrigações como inquilino e contribuir para a harmonia da casa com a sua postura plácida, embora excêntrica.

A avidez com que toda a cidade acolhe as notícias diárias da imprensa acerca de desenvolvimentos no caso do Vingador, torna Mrs. Bunting mais esclarecida e atenta, e sendo uma profunda conhecedora dos passos de Mr. Sleuth, apesar de o hóspede a repelir quando se verifica uma maior aproximação, Ellen Bunting começa a pressentir que na estranheza de Sleuth reside algo mais do que pura extravagância de um solitário… Talvez o homenzinho que tão determinantemente entrara nas suas vidas para os salvar da miséria certa, não fosse tão cândido quanto aparentava, talvez a sua inocência não fosse tão absoluta.

Ellen Bunting aguçou os seus sentidos. As saídas nocturnas do hóspede já não lhe pareciam tão inócuas, os seus movimentos no andar de cima, no quarto alugado, causavam-lhe preocupação e a própria indumentária do inquilino passou a ser atentamente inspeccionada com discrição por Mrs. Bunting.
Procurava não se perder em pensamentos que a aterravam e que não partilhava com o marido mas, invariavelmente, o seu sono cada vez mais intranquilo transportava-a para a relação entre o simulado pacifismo de Sleuth e os crimes hediondos que quase todos os dias eram anunciados na imprensa sensacionalista.

Vivia no terror permanente de que alguma pista conduzisse a Scotland Yard a sua casa, à sua perigosa fonte de sustento e cada batida insuspeita na sua porta era motivo de sobressalto e inquietação, cúmplice que agora se sentia de acções imputadas a um louco.

Baseado nos acontecimentos que absorveram Londres no final da década de 80 do século XIX, nomeadamente o aparecimento de um assassino que matava prostitutas e se auto-intitulava “Jack, o estripador”, este é um policial refinado, muito bem conduzido pela autora, esplendidamente escrito e recheado de personagens com uma densidade psicológica rica e não desnecessariamente complexa.
Hitchcock baseou-se nesta obra de Marie Belloc Lowndes para realizar o seu “The Lodger, a story of the London Fog” de 1927, reconhecendo o potencial extraordinário de uma obra caída no esquecimento e cujo ressurgimento agradecemos à Quidnovi.

Domingo, Setembro 21, 2008

"Pânico" de Jeff Abbott

Abbott, Jeff, Pânico (Panic), Civilização Editora, Tradução de Cristina Gomes e Susana Paulino, 2006.

Um jovem e bem sucedido realizador de documentários vê-se envolvido numa intrincada história de morte e espionagem, perseguido por um homem cuja motivação dúbia parece implicar a sua própria agora questionável identidade.

O cosmos pessoal de Evan Casher começa por ser seriamente abalado quando recebe um telefonema ansioso da mãe pedindo-lhe que vá ter com ela e acaba por desabar no momento em que a encontra morta na casa da família em Houston em circunstâncias brutais.
Este acontecimento arremessa-o para um mundo irregular, imprevisível no qual surgem personagens que o pretendem guiar na descoberta da sua verdadeira identidade e outras que boicotam a sua determinação em desvendar a identidade do assassino da mãe e em simultâneo descobrir o paradeiro do pai.

A busca de Evan resume-se a uma cruzada particular cuja principal motivação é a descoberta do responsável pela morte da mãe, no entanto, pelo caminho, depara-se com factos que o obrigam a questionar toda a realidade familiar vivenciada ao longo dos anos e que se lhe apresenta agora como difusa, uma existência paralela mantida na penumbra e que agora lhe surge como um conjunto de imagens desfocadas da vida que conhecera até então.

As origens comuns dos pais e do assassino da mãe, o sequestro consentido do pai, a relação de improvável parentesco entre eles, a conspiração e a espionagem/ contra-espionagem que pautam a vida de crianças agora homens e mulheres educadas para o fim único de seguirem cegamente as ordens de um governo assim que ultimados, tornam esta obra de Jeff Abbott apelativa a um universo de leitores particularmente interessados em questões relacionadas com teorias da conspiração e em construções narrativas de proeminência dialogal.

O ruir do mundo de certezas em que crescera, manifesta-se a Evan sob a forma do pânico que empresta o nome ao livro.
A segurança, a impressão de protecção, limitavam-se a ser uma ilusão alimentada por um governo manipulador, pouco consciente de que a mente humana não é totalmente controlável e que basta um membro perturbado num grupo para que a engrenagem vacile.

Mas é também este pânico inicialmente paralisante que acaba afinal por emprestar a Evan a força por vezes sobre-humana com que enfrenta os seus inimigos.

Domingo, Setembro 14, 2008

"Expiação" de Ian McEwan

McEwan, Ian, Expiação (Atonement), Gradiva, Tradução de Maria do Carmo Figueira, 2008.

O dia da revelação do amor entre Cecília e Robbie coincide com o dia de perda de inocência de Briony. Assistimos a essa libertação repentina do mundo de bonecas e peças de teatro infantis em que vivia, a esse “crescimento” súbito da criança dotada que Briony dava mostras de ser e, estarrecidos, compreendemos que um último resquício da imaginação fértil da criança ainda reside na jovem, domina-a como se da última travessura pueril se tratasse.

Um simples acontecimento visto aos olhos distantes de Briony e aos olhos próximos de Robbie, assume proporções diferentes e é interpretado de formas distintas por ambos.
Cecília mergulha na fonte. A imagem da irmã encharcada, semi-nua em frente a Robbie, denota uma fragilidade inexistente mas que para Briony, se torna motivo suficiente para intimamente olhar para Robbie como uma ameaça à delicadeza da irmã e ela, Briony, como adulta responsável, sente como seu dever proteger a irmã do olhar demasiado perscrutador de Robbie.
Robbie encarava Cecília desconcertado. Era uma figura familiar e estranha em simultâneo saída da água, que entrara na água com intrepidez, com a determinação corajosa de mostrar que nada a perturbava. E frente a ele, com a pouca roupa colada ao corpo, revelando-se ao homem que já amava e não sabia com a consciência dos despertos, deixando-o estático e balbuciante junto à recordação mais palpável que dela ficara, uma poça da água que jorrara do seu corpo.

Após este episódio, Robbie toma a decisão de se prostrar aos pés de Cecília: escreve duas versões de uma mesma carta, uma reveladora mas bem comportada, formal até, na qual declarava o seu amor a Cecília, e uma outra com o mesmo conteúdo de confidência mas demasiado explícita em que figurava a descrição do seu desejo e a sua vontade em consumá-lo.

Demasiado inquieto com a descoberta do amor, Robbie engana-se na versão que entrega a Briony para dar a Cecília.

A naturalidade do desejo de cariz sexual entre dois adultos que se amam, aos olhos de Briony é a exteriorização do carácter duvidoso e mesmo perigoso de Robbie. A irmã tem de ser protegida a todo o custo da influência perniciosa do tarado em que Robbie se convertera em poucas horas.
A mudança em Briony espelha-se na forma como ela vê os outros. Julga ser sua obrigação zelar pela harmonia em perigo que pensa detectar nos desequilíbrios que vislumbra.

Ao receber a carta, Cecília compreende, por um lado, a sua cegueira face ao que sentia por Robbie, por outro lado, que Briony lera a carta. E pressente o profundo efeito que o teor da mensagem comportava para si, porque nada seria como dantes ao ter acordado para a realidade do amor, como para a mente especulativa de Briony que não se deteria na mera leitura inocente de uma carta que não lhe era dirigida.

Briony acusa Robbie do crime cometido naquela noite. Afirma tê-lo visto. Vira sim, as sombras difusas dos acontecimentos a que assistira nesse dia, os vultos do que pensara ter lido correctamente e transpusera-os para a gravidade de uma acusação que perseguiria as três personagens para o resto da vida.

Briony Tallis vive uma vida inteira a tentar expiar o seu crime, o pior que se possa imaginar: Ter sido a responsável pelo afastamento irremediável de duas pessoas que se amavam.

E escreve um livro com um final feliz.

Domingo, Setembro 07, 2008

"Teresa, a Santa apaixonada" de Rosa Amanda Strausz

Strausz, Rosa Amanda, Teresa a Santa Apaixonada, Casa das Letras, 2006.

“Teresa, a Santa apaixonada” é uma cativante narrativa da autoria de Rosa Amanda Srausz sobre o percurso de vida de Teresa Ahumada Sanchez y Cepeda, mais conhecida como Santa Teresa de Ávila. Acompanhamo-la desde os primeiros anos em que a sua beleza ímpar atraía os olhares de inúmeros pretendentes, em que a leitura ocupava os seus dias e em que a sua imaginação indómita a transportava para os mais diversos lugares, literalmente.

Talvez por lhe parecer demasiado insubmissa e sem a referência moral da mãe recentemente falecida, o pai de Teresa, D. Alonso, encaminha-a para o convento das Agostinianas de Nossa Senhora das Graças onde se deu o primeiro encontro de Teresa com Deus, mas “não com o amoroso Deus cristão, tal como o concebemos no século XXI, mas com a entidade terrível que regia a vida espiritual do século XVI.”. Teresa estava, pela primeira vez na vida sozinha, na presença de um “…Pai severíssimo [que] não se podia enganar. E, para ser admitida na sua família, eram necessárias provas tão duras quanto as que formariam qualquer cavaleiro. Falhar nas demonstrações de virtude e obediência era caminho certo para o Inferno, com letra maiúscula. Qualquer desvio era atribuído à força do Demónio – também com maiúscula. E quem determinava o que levaria ao céu ou ao Inferno era a Igreja, com as suas regras implacáveis.”.
Despojada de tudo o que a caracterizava como Ser único, individual, Teresa ouvia ecoar as palavras “Para sempre” em cada recanto daquele sinistro convento, como se uma eternidade de perda e dor a aguardasse numa qualquer pedra inexplorada do espaço de clausura em que se refugiava.

As primeiras provações, experimenta-as nesse período terrível passado no convento das Agostinianas. À bela jovem por todos admirada sucede-se uma pálida réplica que luta por não se sentir culpada ante a rejeição do seu corpo ao silêncio frio que as paredes do convento lhe devolviam. Teresa adoece. Tudo é controlado, vigiado no convento e a alma inquieta, ávida de vida de Teresa, decai lentamente até lhe restar apenas um imenso cansaço, lágrimas abundantes e a ausência de apetite.

D. Alonso toma conhecimento da doença da filha e leva-a para casa julgando ser esse o remédio para uma rápida recuperação. Mas Teresa continua a “desaparecer”, aquela Teresa alegre e bela de que o pai se recordava, teima em voar para um refúgio distante e desconhecido onde já nem a família tem acesso.
Envia-a para o campo, para junto da irmã mais velha, e é lá que Teresa melhora, pressentindo a presença não do Deus vingador e terrível que lhe impunham no convento e a empurrava para o Inferno, mas do Deus criador e caridoso que a aproximava do Céu.

Restabelecida, foge para onde Deus a conduz: o mosteiro carmelita de Nossa Senhora da Encarnação onde os muros não estão fechados à vida.
A determinação de Teresa torna-se verdadeiramente feroz e é tomada de estranhos arroubos de êxtase traduzidos na mortificação do jejum levado ao limite, da exposição a temperaturas demasiado baixas ou elevadas e da auto-flagelação com urtigas. Teresa fica, mais uma vez, muito doente. É o empenho de quem quer celebrar a sua devoção a Deus com núpcias de sangue oferecendo-lhe a sua veneração perpétua e ilimitada.

Mais uma vez junto da família, desta vez em casa do tio Pedro, este oferece-lhe uma obra que mudaria a vida de Teresa, o “Tercer Abecedário” de Francisco de Osuna.
Teresa coloca-se na situação de ser sugada para “… dentro do livro. As letras desaparecem, as páginas somem-se, o mundo à volta desvanece-se e o texto passa do papel para a nossa mente como uma transfusão. Nessas horas, não parece que estamos a ler, mas a pensar. As ideias formam-se com muita nitidez, e traduzem exactamente o que sentimos – só faltavam aquelas palavras para organizar o que borbulhava informe dentro de nós.”.

E o problema da orientação religiosa inconsistente de Teresa terminou.

Através da constante prática da oração mental, prodigalizada no livro de Osuna, Teresa encontrou o equilíbrio que há tanto buscava apesar do momento em Espanha ser de censura e ódio com o recurso a perseguições e autos-de-fé em que a presença feminina cada vez mais se fazia notar.

Teresa foi uma mulher que abdicou de si, que se entregou à obra de Deus incondicionalmente mas não sem antes perscrutar qual o melhor rumo a seguir dentro das várias “tendências” existentes na Igreja de então.
A severidade nunca lhe assentou bem e era na prática do bem com alegria que Teresa de Jesus, a Santa apaixonada que conversava com Cristo e foi acusada de louca, se sentia realmente pertença de um universo de amor que ajudou a propalar.

Domingo, Agosto 31, 2008

"O Pavilhão das Peónias" de Lisa See

See, Lisa, O Pavilhão das Peónias (Peony in Love), Bizâncio, Tradução de Ana Falcão Bastos e Cláudia Brito, 2008.

Peónia, filha de um destacado funcionário da Corte do imperador Kangxi, tem dezasseis anos e prepara-se para casar com o filho do melhor amigo do pai. Nunca o vira, conforme, aliás, ditava a tradição. Os noivos só se vislumbrariam quando já fossem marido e mulher, no leito conjugal, no momento em que o denso véu carmesim que cobria a face da nubente fosse retirado pelo esposo.

O seu aniversário, nesse derradeiro ano como mulher solteira, é assinalado com a representação de uma ópera muito apreciada por Peónia, precisamente “O Pavilhão das Peónias” de Tang Xianzu, o cântico de uma mulher que morre de amor e que provocara nas jovens donzelas enclausuradas nos imensos complexos luxuosos das suas famílias, o desencadear de emoções nunca vividas, de um mal de amor por vezes abstracto, uma febre que tornara a obra, aos olhos dos pais zelosos de raparigas casadoiras, objecto proibido.
As jovens eram mantidas dentro dos altos muros distantes do mundo exterior, longe de olhares indiscretos que as pudessem cativar e, no entanto, aquela obra diabólica, quando lida por donzelas de imaginação fértil com o destino traçado pela família, provocava o pior dos desfechos.

Apesar das tragédias ocorridas, o pai de Peónia não resiste a proporcionar à filha que ele julgava imune a tais assomos, o prazer último de lhe trazer a ópera a casa, inserida nos festejos prévios do casamento que se realizaria dali a escassos meses. A despedida perfeita para a filha única.

A resignação de Peónia à deliberação da família em casá-la com um desconhecido, altera-se no decorrer da apresentação de “O Pavilhão das Peónias”. As mulheres da casa, assistem à ópera encenada pelo pai, por detrás de um biombo, no entanto, por entre as frestas, Peónia observa um jovem de cabelo muito negro e liso que a faz reflectir na sua condição de mulher que não pode amar quem quer, mas quem lhe é imposto.
Perturbada pela ideia insuportável de se ver casada com alguém que lhe causa repulsa, Peónia dirige-se ao jardim onde o jovem que vira na assistência masculina da ópera aparece. É o primeiro de alguns encontros transgressivos entre duas pessoas que compreendem a infeliz condição de ambos estarem prometidos e da impossibilidade de concretização do amor que nascera naquele jardim.

Peónia é castigada ao serem detectadas as suas fugas para o jardim. São-lhe retirados os livros que tanto amava, sobretudo “O Pavilhão das Peónias” cuja influência negativa, segundo a amarga mãe, já se abatia sobre a jovem. Por fim, sem o seu amor, sem a companhia de um livro, sem o seu nome de baptismo, retirados todos os elementos constitutivos da sua identidade, encerrada no quarto, condenada a casar com alguém que não conhecia, Peónia deixa de comer. A sua pele torna-se translúcida à medida que o momento do seu desaparecimento se aproxima.

O fim é o começo de uma peregrinação que durará longos anos durante os quais Peónia descobre insondáveis segredos de família e protege o seu bem-amado da influência perversa de uma rival obcecada com a posse do destinatário do amor de Peónia.

Ela converte-se num anjo que vela pelo seu amor até encontrar o caminho para a sua eterna morada.

Sábado, Agosto 23, 2008

"O Terceiro Passo" de Christopher Priest

Priest, Christopher, O Terceiro Passo (The Prestige), Saída de Emergência, Tradução de Isabel C. Penteado, 2006.

“O Terceiro Passo” é muito mais do que uma história de dois mágicos rivais que se perseguem e que vivem obcecados com a evolução artística de cada um.

É uma narrativa de duplicidade, de desdobramento, de tragédia, de vingança, de cumplicidade e de divergência.
É um canto de amor às artes mágicas tendo como protagonistas dois sôfregos seguidores do ilusionismo, dispostos a dedicarem todos os recursos físicos e morais ao objectivo dual de evoluírem artisticamente e de se sobreporem e esmagarem mutuamente.

A introdução no espectáculo de um dos mágicos de um truque impossível provoca a admiração do rival que procura encontrar uma explicação racional para o que acabara de assistir. É compelido a investigar a vida pessoal do inimigo e conclui que o artifício que presenciara era resultado de verdadeira magia ou ciência.
Atravessa um oceano para encomendar uma máquina que o rival de Edison, Tesla, exilado e derrotado pela fama daquele outro, poderia construir, uma máquina que o teletransportaria para um local previamente escolhido, tornando-se no novo Homem transportado.

A simplicidade do truque de Borden, converte-se em Angier numa culpa sem remorso, numa eternidade retalhada e construída com base no permanente nascimento, morte e renascimento do mágico. Ele passa a dispor da vida humana que cria todas as noites com omnipotência desafiadora e perde noção de humanidade.

A moralidade, a amoralidade, a dualidade bem/ mal, a revelação de que a verdadeira magia está na preparação do espectador e na aparição do elemento ausente, tudo se conjuga para que os dois homens sejam confrontados com decisões determinantes para a sua salvação ou perdição. Eles são responsáveis pelo seu destino. Eles são o resultado das suas escolhas.

E um deles é um anjo caído.

Obra inigualável pela inteligência do enredo, profundidade e subtis variações na psique das personagens, recriação do ambiente nas salas de espectáculo da Londres vitoriana e escrita absolutamente cativante. A combinação de todos os factores atrás enumerados traduziu-se numa leitura relâmpago que mesmo na última linha, mesmo depois do ponto final derradeiro, deixou a leitora abandonada a uma perplexidade atribuível à imensidão literária que este livro alcança.

Domingo, Julho 13, 2008

"A Vingança de Joana D'Arc" de María Elena Cruz Varela

Varela, Maria Elena Cruz, A Vingança de Joana D’Arc (Juana de Arco – El corazón del verdugo), Saída de Emergência, Tradução de António Marques Pacheco, 2007.

Alguns anos após o percurso mártir de Joana D’Arc, a donzela nascida em Domrémy-la-Pucelle em 1412 e assolada por visões que apontavam o caminho da absoluta soberania de uma França abalada pela guerra dos cem anos, convertendo-se Jeanne no instrumento divino dessa vontade sobrenatural e inabalável de apoio aos Armagnacs, descobrem-se documentos que provam a santidade da sacrificada na fogueira na cidade de Rouen em 1431.

A descoberta de documentos provenientes de um interveniente no processo, assassinado para não revelar a verdade que já não podia ocultar, acaba por envolver pessoas próximas do homem que desejou expor o erro do cumprimento da sentença perante os milagres a que havia assistido após terem queimado viva a donzela de Orleães.

Um grupo de homens reúne-se numa cruzada com o objectivo único de provar em definitivo o equívoco em que se baseou a condenação de Joana e seguimos todos os seus esforços, rodeados de perigos vários provenientes daqueles que sentem a ameaça da verdade no seu encalço.

Em paralelo, partilhamos momentos do julgamento de Joana e os instantes que antecedem a sua morte pelas chamas proferindo palavras de perdão direccionadas aos seus carrascos: Pai, eu Te suplico que acolhas a alma desta aflita criatura, e que tenhas por bem não ter em conta os seus momentos de debilidade e dúvida. Que o Teu amor generoso, oh Pai, se derrame sobre os meus irmãos, presentes e ausentes, e os abençoe, protegendo-os de todos os males. Rogo-Te, Rei do Céu, que não sejam castigados pelo pecado que, no meu corpo, podem estar a cometer contra Ti. Senhor, tem piedade dos cordeiros extraviados, que não se encontram no caminho recto para o regresso a casa.
Peço também que todo o tipo de pessoas aqui presentes, quer sejam armanhaques, borgonheses ou ingleses, tenham piedade de mim. Rezem a Nosso Senhor pela salvação da minha alma, que é a vossa, não importa o partido a que pertencem, nem a que mortal tenham jurado lealdade.

A comoção invade as hostes presentes e mesmo aqueles que, momentos antes, desejavam a morte de Joana D’Arc, não suportam a aspereza do confronto com uma alma pura que apesar de amarrada a um poste e preparada para morrer pela sua Fé, perdoa os homens que a capturaram e que se preparam para assistir ao seu último suspiro.
A multidão emudece e todos compreendem, numa unanimidade rara em tempos de guerra, que estão a sacrificar uma Santa, que é uma Santa a mulher de cabelo curto exposta no palanque de madeira.

Joana D’Arc foi canonizada em 1920, mais de cinco séculos depois da sua morte.

Ter-se-á cumprido a sua vingança?

Acredito que a santidade dispensa tal sentimento.

Domingo, Julho 06, 2008

"Tchaikovski: Vida e Obra" de Jeremy Siepmann

Siepmann, Jeremy, Tchaikovski: Vida e Obra (Tchaikovsky: His Life & Music), Bizâncio, Tradução de Francisco Agarez, 2008.

Ler a biografia de Piotr Ilich Tchaikovski escrita por Jeremy Siepmann é percorrer as páginas de uma vida atribulada, repleta de sucessos, de desilusões, de ansiedades e, acima de tudo, é mergulhar na delicada e surpreendente psique de um dos mais brilhantes compositores de sempre.

A obra tem inúmeras ilustrações que permitem ao leitor acompanhar os locais e pessoas que, de uma forma ou de outra, deixaram a sua marca na vida do músico e apresenta, igualmente, dois CD de música de Piotr Ilich que complementa as palavras escritas e ainda um número considerável de excertos de cartas escritas por Tchaikovski que clarificam quase todo o seu percurso enquanto Homem e Compositor, deixando, mesmo assim, algum espaço à especulação…

O traço mais marcante da personalidade de Tchaikovski parece-me ser a sua susceptibilidade à opinião alheia que, de certa forma, sempre o perseguiu e o impeliu a tomar a decisão porventura mais desacertada da sua vida: Casar.
Tchaikovski nunca assumiu abertamente a sua orientação sexual, contudo, as suas paixões, apesar de platónicas tanto quanto sabemos, são direccionadas a homens, nutrindo pelas mulheres que surgem na sua vida ou ódio (no caso da mulher com quem se casa, Antonina Ivanovna) ou apenas uma ternura e carinho próprios de um Homem que se considerava anti-social mas que encantava todos (ou quase todos…) que o rodeavam.

As linhas que Tchaikovski escreve ao irmão Modest, também homossexual, são elucidativas quanto à urgência que sente em se casar: Estou agora a passar por um período muito crítico da minha vida. Não vou agora entrar em detalhes, mas dir-te-ei simplesmente que decidi casar. É inevitável. Uma coisa que tenho mesmo que fazer – não apenas por mim mas também por ti, Modest, pelo Tolia, pela Sasha, enfim, por todas as pessoas que amo. Durante este período a visão que tenho de mim próprio alterou-se significativamente, com o resultado de que de agora em diante vou fazer preparativos sérios para o matrimónio – independentemente da identidade da outra parte. Acredito agora firmemente que, para nós dois (tu e eu), os nossos temperamentos são o maior e mais insolúvel impedimento à nossa felicidade e que temos de combater as nossas maneiras de ser com todas as nossas forças.
Algo o empurra para esta decisão e acaba por levar avante os seus intentos quando aparece na sua vida uma mulher que o ama em segredo e obsessivamente há muitos anos, Antonina.

No entanto, uma semana após o casamento, Tchaikovski escreve ao irmão Anatoli dizendo o seguinte: Quando acordei, na manhã seguinte, vi a minha vida diante de mim, estilhaçada. E caí no desespero. Hoje, a crise parece ter passado. Mas, Deus meu, foi horrível, horrível, horrível! Se não fosse o grande amor que sinto por ti e pelos meus outros entes queridos, que estiveram ao meu lado enquanto eu suportava o insuportável, podia ter acabado mal – na doença, ou mesmo na loucura. Mas hoje – hoje estou a começar a recompor-me.

Mas não se recompôs e teve que engendrar uma forma de se afastar em definitivo da indesejada esposa.

Durante muitos anos, Tchaikovski troca correspondência com Nadezheda Von Meck, uma abastada viúva cultíssima e profunda conhecedora e admiradora da música de Piotr Ilich.
As suas cartas revelam muito mais do que uma amizade entre duas pessoas que nunca se conheceram pessoalmente mas que conheciam cada recanto da alma uma da outra. Nadezheda quer tomar conta de Tchaikovski e torna-se seu mecenas, a única forma possível de aproximação entre ambos.

Talvez o maior desgosto da vida do compositor a seguir à morte da mãe, tenha sido a cessação, sem qualquer justificação, da renda que Nadezheda lhe pagava. E não era só o corte dessa fonte aparentemente inesgotável de rendimentos que o assombrava, era o corte da sua duradoura e inabalável amizade. É um mistério que perdura até hoje.

Tchaikovski foi indubitavelmente um génio e como muitos que o antecederam e precederam foi um génio atormentado por uma sensibilidade nem sempre compreendida.

A banalidade aterrorizava-o, daí que as suas aparições em público fossem muitas vezes confundidas com ataques de timidez, histeria ou loucura.

Ele desejava fugir da vulgaridade, afastar-se o mais possível da contaminação dessa doença que flagelava a sociedade de então e, apesar da dificuldade da travessia, transpôs o umbral da trivialidade e passou à eternidade como “Único”.

Domingo, Junho 29, 2008

"A Especiaria" de António Oliveira e Castro

Castro, António Oliveira e, A Especiaria, Guerra e Paz Editores, 2008.

Duas épocas, duas vidas. A História de uma família, a Gesta de dois países unidos pelo acaso calculado de um achamento e pela obstinada preservação de um território indomável.

A acção de “A Especiaria” decorre entre os anos 70 do Século XX em plena Guerra Colonial, tendo Angola como cenário e Benguela, um Alferes ao serviço do Exército português, como protagonista, e o ano de 1540, tendo Portugal e um mar revolto por cenários, e Mancini, um mercador Veneziano de passagem por Lisboa, como herói.

Flávio Mancini, chega a Lisboa com o intento de apresentar uma proposta de negócio à coroa portuguesa: Detentor de um indómito espírito aventureiro, apresenta ao representante do Rei uma oportunidade de aceder, com o apoio e bênção de Sua Majestade D. João III, a um inigualável tesouro, uma especiaria apenas existente em território colonial português que possuiria propriedades regenerativas únicas, uma espécie de elixir da eterna juventude que o Veneziano lograva alcançar a fim de a comercializar.
A sua estada na capital do Reino envolve um conhecimento forçado das “tradições” e noções de divertimento em voga naquele tempo, nomeadamente, o “pão e circo” à portuguesa: O auto de fé. O povo andrajoso e inculto segue o caminho traçado pelos líderes religiosos e políticos, crendo na falácia em que o aparato imenso das fogueiras dispostas à mercê dos seus olhos sedentos é baseado, uma urdidura bem tecida para que não haja a mínima dúvida sobre a culpa dos hereges queimados.
Mancini e Ângelo, o seu fiel servidor, contemplam, aterrados, o cenário de horror que os circunda e retiram-se deixando a praça apinhada de gente a viver um dia de feriado.
Entretanto, Ester, a serviçal da estalagem onde os dois italianos se encontram hospedados, e entusiasta dos castigos infligidos aos hereges, é arrastada por Mancini na busca do elixir que o Rei português decidira patrocinar e partem na missão que os impele à aventura da descoberta da especiaria que os portugueses, nas suas imensas viagens por terras exóticas e de todos desconhecidas, não haviam descoberto.

Os relatos concernentes ao século XVI e a Mancini, são entremeados com a narração referente a Benguela, nascido em Angola, de família angolana de várias gerações, a lutar do lado de uma metrópole distante no espaço e alojada algures num recanto obscuro e pouco explorado do seu coração.
Benguela não esconde a sua revolta ante o tratamento de que alguns angolanos são vítimas em fazendas geridas por portugueses e, no caso concreto de Miragaia, um português a quem haviam morto selvaticamente a mulher e a filha, o Alferes não esconde o seu desagrado face à total falta de escrúpulos daquele. A morte de um trabalhador ao serviço de Miragaia, despoleta uma revolta à qual Benguela e Marcelino, irmão do falecido, não eram alheios.
Em todos os momentos em que acompanhamos o percurso do Alferes Benguela, está presente a sua hesitação em abrir uma arca guardada na família há inúmeras gerações que encerraria um qualquer sagrado tesouro de família não profanado desde que fora encerrado nessa misteriosa arca por um remoto antepassado.
Finalmente, a derrocada do mundo que Benguela conhecera, impele-o a abrir o cofre, como se fosse urgente o contacto com um pedaço de mundo imaculado.

Nunca fora tão claro o contraste entre o desabar de um mundo construído ao longo de séculos e o seu fim em poucos anos.

Benguela abre o baú e encontra um relato manuscrito do seu antepassado, da sua travessia do deserto após o ruir do seu próprio mundo, da reconstrução, do reerguer de uma identidade julgada perdida.

O elixir da eterna juventude é a busca incessante da felicidade.

Domingo, Junho 15, 2008

"As Velas ardem até ao fim" de Sándor Márai

Márai, Sándor, As Velas ardem até ao fim (A Gyertiák Csonkig Égnek), Dom Quixote, Tradução de Maria Magdolna Demeter, 2007.

Dois amigos com sensibilidades diferentes reencontram-se na etapa final das suas vidas no castelo de um deles, local onde se concentram todas as memórias comuns, todos os quadros de união e clivagem entre ambos.

Não se viam há quarenta e um anos e, no entanto, essa ausência, esse espaço que se criara entre eles e que fora preenchido por anos de inquietude e por uma paciência rendilhada de íntimas certezas, era uma quase garantia de que se voltariam a encontrar, de que tudo o que fora dito apenas com a argúcia do olhar seria, no momento do reencontro, proferido por meio de palavras audíveis, com a objectividade que a espera de décadas tornara possível.

Konrád era proveniente de uma família que vivia com dificuldades e que se sacrificara para o enviar para a Academia militar, já ao General era-lhe proporcionada uma vida de abastança e a escolha da carreira militar tinha tanto de natural como de genuína inclinação do garboso jovem sem génio artístico, prático e racional nas suas preferências.

O amigo rico torna-se “protector” do amigo pobre complementando-se como companheiros inseparáveis. A amizade que os une é pura e inequívoca mas à medida que as suas personalidades se vincam pendendo a índole de um para a música e a de outro para as coisas da guerra, demonstrando até incompreensão e desprezo pela “utilidade” da música, a sua amizade dilui-se na perplexidade, na descoberta de que o outro é, afinal, diferente, fraco por se entregar à arte em detrimento da entrega à pátria, incapaz por não reconhecer a improficuidade do solo que escolhera pisar, a infertilidade da semente que ousara lançar.

A amizade cedia terreno à ruptura definitiva.

O General casa-se com Krisztina e também ela é diferente.

Numa caçada Kónrad aponta a arma ao amigo e este, apesar de se encontrar de costas, pressente a tentação e principia uma reflexão sobre o que motivara aquele momento e essa meditação dura quarenta e um anos porque Kónrad parte, desaparece sem deixar rasto.

Quarenta e um anos dura a espera do General para confrontar o amigo com a traição que fora cometida por ele e por Krisztina, a que também diverge da normalidade e ordem incorporadas pelo General.

A reconciliação ou pelo menos uma espécie de paz que lhe permitam terminar os seus dias com a tranquilidade dos que procuram a verdade é o que os dois homens perscrutam à luz das velas que ardem até ao fim na longa noite de confidências.

Domingo, Junho 01, 2008

"Uma Janela para o Infinito" de Denis Guedj

Guedj, Denis, Uma Janela para o Infinito (Villa des Hommes), Bizâncio, Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, 2008.

Hans Singer, eminente matemático alemão, é acolhido no Hospital psiquiátrico de uma pequena cidade alemã após mais um colapso mental. Responsável por trabalhos sobre o Infinito e mentor da Teoria dos Conjuntos, Singer é invadido pelas palavras duras e ressonantes de uma carta que o pai lhe enviara aquando do seu décimo sexto aniversário e que ecoam quase em permanência no seu frágil juízo como uma maldição, um presságio negro que o perseguisse nos momentos mais críticos: “Quantas vezes os indivíduos mais prometedores são vencidos por uma pequeníssima dificuldade ao praticarem o seu ofício. Então, desanimados, atrofiam-se completamente e, mesmo na melhor das hipóteses, não serão mais do que «génios arruinados» ”.

E é assim que Singer se vê. Como um génio em declínio, preterido, menosprezado.

Matthias Dutour, soldado francês vindo da frente de combate e antigo maquinista de caminhos-de-ferro, é internado devido a um agudo estado de stress pós-traumático motivado pelas barbaridades de guerra a que assistira e que o haviam transformado num Ser abstraído, alheado, afastado de si próprio, da sua História de vida, do mundo em ruínas que o circundava. A indiferença dominava-o.

É encaminhado para o quarto 14. Herr Hans Singer já habitava o compartimento.

E assim começa uma amizade improvável entre dois homens de proveniências sociais e culturais díspares.

Para todos os efeitos, Matthias era um desertor. Salvara um soldado alemão de morte certa e a recompensa fora o cuidado com que o “inimigo” o tratara levando-o para o mundo distante e campestre do sanatório, longe das minas e das bombas e dos mortos. Matthias não reagia a qualquer estímulo verbal, a qualquer contacto humano e Hans Singer falava com o soldado francês em francês num monólogo incessante que o matemático tentava converter em diálogo lançando inocentes provocações ao espírito angustiado de Matthias Dutour.

O maquinista começou a reagir aos incentivos de Singer, aos desafios constantes que este lhe lançava, à sua paciência em tentá-lo ao regresso ao universo dos seres pensantes e falantes, ao cosmos da expressão. Matthias inspirava-lhe uma ternura inexplicável, talvez porque irradiasse uma luz imensa com os seus cabelos amarelos como o sol, uma esperança de recuperação da sua própria sanidade mental. Revelou-se o amigo mais perene e sincero que Herr Singer jamais tivera, o aluno mais brilhante e atento às suas soluções matemáticas e filosóficas, o companheiro mais compreensivo e indulgente que percorrera aquela etapa da sua vida lado a lado, como um camarada de guerra que não se abandona.

Matthias era curioso, inteligente, detentor de um espírito vivaz e surpreendente e o mestre expunha teorias e discorria sobre a sua vida, as suas vitórias e derrotas, as crises que frustraram a sua elevação ao nível dos ilustres matemáticos do seu tempo. E o aluno abria o livro da sua vida em Paris, desde a vivência sã e feliz com os pais adoptivos, até à paixão pelos caminhos-de-ferro nascida graças à oferta do livro “A Besta Humana” de Zola por parte da mãe, analfabeta mas ciente da importância do saber, e à sede de conhecimento (mais do que sede de revolução) que o levara a frequentar a Universidade Popular.

A temática da amizade inabalável entre dois homens mesmo que celebrada num espaço-limite em que a fronteira entre sanidade e loucura desfoca um possível enquadramento linear, torna esta obra uma janela para as infinitas probabilidades da vida mesmo quando tecida de improváveis.

O improvável é sempre provável.

Quinta-feira, Maio 22, 2008

"O Caroço da Manga" de Augusto Carlos

Carlos, Augusto, O Caroço da Manga, Nova Vaga Editora, 2007.

A busca da felicidade é, porventura, de todas as peregrinações que o Ser Humano enceta no seu tempo de vida, a que mais tempo, consciente e inconsciente, ocupa no espaço último e recôndito de cada um. A alma é incitada a analisar-se, a percorrer cada caminho interior a que cada caminho exterior a conduziu.

A vida repleta de encruzilhadas, assusta e empurra o protagonista de “O Caroço da Manga” a encontrar-se.
Vivera sempre intimidado por um sentimento difícil de caracterizar mas que o impedia de fruir naturalmente das coisas simples da vida, como se nada nem ninguém o pudesse demover da rigidez espartana que o invadia. Uma tensão permanente, uma desconfiança ilimitada nos outros, um medo de se libertar das correntes inibidoras que lhe sugavam a vida paulatinamente… Toda esta inquietação o conduz a um velho homem que vê em Zé Manuel a luz que ele próprio nunca pressentira em si.

A contemplação da natureza inicia-o na arte da observação desinteressada partilhada com Ana Maria. E a descoberta da felicidade através da abnegação, da rendição a uma espiritualidade incorruptível, acolhida com singeleza despretensiosa, desencadeia a grande revolução almejada pela personagem ante o vazio que sempre o habitara.

O Homem que se rebela contra o destino, que o inverte atestando que no teatro do nosso mundo, o poder é detido por nós próprios e que bem no fundo de cada um reside o segredo para um desfecho feliz, eis o que Augusto Carlos nos mostra nesta viagem a mais um admirável mundo novo. O nosso.

Domingo, Maio 11, 2008

"Procurai a minha face" de John Updike

Updike, John, Procurai a minha face (Seek my face), Civilização Editora, Tradução de Carmo Romão, 2007.

Hope Chafetz, pintora já idosa e mito vivo no mundo das artes por ter sido casada com dois dos mais brilhantes e revolucionários artistas da sua geração, é entrevistada por Kathryn, uma jornalista profundamente conhecedora das circunstâncias artísticas que rodearam a vida de Hope, passada em revista num dia inteiro de perguntas e respostas e silêncios.

O autor concede-nos livre acesso aos momentos em que Hope guarda algo para si, momentos em que não verbaliza toda a torrente de pensamentos que lhe ocorrem, toda a energia vibrante que escutamos como se de algo interdito se tratasse. Hope revela inúmeros aspectos da personalidade de Zack, o seu atormentado primeiro marido, pressentido a entrevistada a cumplicidade de Kathryn face àquele homem desequilibrado que quisera viver depressa e morrera jovem, um James Dean da pintura americana, uma lenda à qual Hope estava eternamente presa.

Assim como o leitor tem conhecimento das impressões que Hope vai coligindo ao longo da entrevista sobre a sua vida que agora desfiava a uma estranha, também acedemos aos monólogos interiores da mulher idosa em relação à mulher jovem que tem diante de si.
Apesar de decidida, Kathryn aparenta resignação. Apesar de surgir como uma independente nova-iorquina, parece tactear no escuro, no reflexo da sua roupa negra, nos seus gestos tensos, pouco hábeis, parece hesitar na sua existência.

Hope aponta mentalmente todas as sensações que a jovem entrevistadora lhe transmite e toma nota das ausências patenteadas pela jovem à medida que verbaliza as suas próprias.

A vida cheia de Hope Chafetz, apesar do presente declínio, contrasta claramente com a deriva, a incerteza do mundo em que Kathryn vive. Escondida no negro, como para que a sua passagem não seja notada, mostra a sua insegurança velada revelada na necessidade de verificar permanentemente se o gravador está ligado nos momentos certos, ou seja, quando Hope faz declarações inéditas. Como se daquela entrevista dependesse a sua vida.

Hope, já trôpega e consciente do pouco tempo que para si virá, analisa, depura toda a circunstância em que se encontra naquele dia de primavera. Disseca a sua vida repleta com a ajuda de Kathryn e examina a mulher que tem diante de si. Sente irritação e comoção, distância e proximidade e, já noite, com a chuva a cair impiedosa, Hope e Kathryn despedem-se para sempre, unidas pelo laço que um dia de revelações mútuas lhes proporcionou.

Domingo, Abril 20, 2008

"O Maçon de Viena" de José Braga Gonçalves

Gonçalves, José Braga, O Maçon de Viena, Prime Books, 2005.

José Braga Gonçalves socorre-se de documentos julgados para sempre perdidos após a repressão nazi e reencontrados por acaso nos Arquivos Centrais da antiga República Democrática Alemã para escrever este romance que revela uma faceta menos pública do Marquês de Pombal: A sua ligação à maçonaria.
Dois amigos vivem épocas conturbadas nos países onde vivem, Otto numa Aústria acossada pela crescente vontade imperialista alemã que, através da figura emergente de Adolf Hitler, se pressente em perigo, e Cid num Portugal atormentado pela ditadura, vê-se preso no Limoeiro trocando correspondência tanto com Otto como com a Maçonaria Brasileira que teria em sua posse um maior número de documentos reveladores do papel assumido por Sebastião José de Carvalho Mello no seio da Maçonaria Portuguesa e Austríaca do que a Lisboa que albergara inúmeros documentos preciosos destruídos para sempre pelo terramoto de 1755.
A investigação em três frentes diferentes com o objectivo de desvelar os segredos do Ministro de D. José I, acompanha as dificuldades e aventuras pessoais dos protagonistas tão próximos do abismo da descoberta como do abismo da perdição a que as circunstâncias políticas dos seus países os parecem conduzir indelevelmente.
Tudo converge para a importância assumida pelo Marquês de Pombal na engrenagem maçónica a que a sua permanência como enviado português em Viena não terá sido estranha e a vertigem do conhecimento a que acedem os investigadores é apenas comparável à vertigem de aniquilação que a Europa experimenta.
Algumas revelações interessantes sobre a expulsão dos Jesuítas e a execução dos Távoras, em correlação com o simbolismo e génese maçónicas, tornam a obra duplamente aliciante e, de certa forma, obrigatória para quem pretenda alargar os seus horizontes históricos face a uma das figuras de maior destaque da História Portuguesa do Século XVIII. Uma face de um poliedro.

Domingo, Abril 13, 2008

"A Sabedoria dos Mortos" de Rodolfo Martinez

Martinez, Rodolfo, A Sabedoria dos Mortos (Sherlock Holmes y la Sabiduria de los muertos), Saída de Emergência, Tradução de José Manuel Lopes, 2006.

Na introdução à primeira edição, Rodolfo Martinez revela ao leitor como um amigo professor em Londres lhe oferecera um conjunto de manuscritos inéditos escritos pelo Dr. Watson adquiridos numa loja de antiguidades perto do Soho e de como, movido por um incontido entusiasmo holmesiano se dedicara à tarefa de os traduzir para castelhano.
A concepção original da obra é-nos imediatamente dada a conhecer através do revestimento de autenticidade da história apresentada a dois níveis diversos: Rodolfo Martinez surge como “mero” tradutor dos três manuscritos a que temos acesso quando, na realidade, é autor das várias ficções sobrepostas com que nos deparamos; e Artur Conan Doyle é-nos descrito como o Agente de Watson, verdadeiro autor de todas as Aventuras de Sherlock Holmes impressas e em grande medida responsáveis pela notoriedade do grande detective.
Dispõem-se, então, perante o leitor, várias ficções encetadas por Rodolfo Martinez com o intuito de soarem a realidade, tanto a ficção de que ele é o tradutor de textos inéditos (quando é o autor), como a de que os casos em que Holmes se envolveu são reais e contados pelo seu velho amigo Watson, o autêntico autor confundido com Conan Doyle.
Enquanto leitores somos igualmente confrontados, por exemplo, com a curiosa revelação de alguns pormenores desconhecidos dos anos em que Holmes fora dado como morto após a queda nas cataratas de Reichenbach.
A obra é composta, conforme já referi, por três histórias distintas, três casos em que Holmes, Watson e o Inspector Lestrade entram em cena.

Na primeira, denominada “A Sabedoria dos Mortos”, Holmes e Watson descobrem que a personagem criada pelo detective aquando da sua “morte”, Sigurd Sigerson, está a ser usada por um impostor afim de colocar em prática o intento de roubar Necronomicon ou Livro dos Mortos à Irmandade “Aurora Dourada”, legítima guardiã do perigoso volume que, segundo rezava a lenda, provocava a abdicação de príncipes e consequente usurpação do respectivo trono.
Deste texto sobressai a extrema capacidade de Sherlock em incomodar os menos aptos intelectualmente (neste caso, Arthur Conan Doyle, o afectado agente de Watson cujo incómodo ante a presença de Holmes denotava o seu sentimento de inferioridade face ao mestre), a amizade e lealdade comoventes entre Watson e Holmes, a equivalência intelectual do oponente de Sherlock que demonstra ser tão hábil na técnica do disfarce como o nosso detective, a figura já subversiva e influente de Aleister Crowley nos círculos esotéricos londrinos e a tibieza intelectual de Lestrade em relação a um jovem colega da Scotland Yard, merecedor da admiração do próprio Sherlock.

O segundo texto “traduzido” por Rodolfo Martinez é “Desde a Terra mais além do Bosque”, um duelo entre duas das personagens mais fascinantes da literatura de língua inglesa do século XIX: Sherlock Holmes e Drácula.
O inesperado regresso do Conde Vlad Dracul a Londres, previsto pelo Dr. John Seward que, de visita à Transilvânia, reconhecera dois olhos que o encararam como sendo os do Conde num corpo diferente, desencadeia uma série de acontecimentos que colocam no encalço do Conde Seward e Van Helsing, surpreendido em Amsterdão com este novo despertar.
Já em Londres, Sherlock Holmes, o Inspector Lestrade, o Dr. Watson, Van Helsing e o Dr. John Seward encontram-se no Mausoléu da família Saville onde Lord Robert Saville ainda não repousava em paz, escravo da vontade dominadora de Drácula sequioso de vingança.
Considerei interessante este encontro de personagens brilhantes como é o caso de Van Helsing e de Holmes que num primeiro relance se reconhecem sem se conhecerem.

“A Aventura do Assassino Fingido” é o mais curto dos três contos e explora o sentimento de posse de um irmão face a uma irmã, noiva de um jovem que procura Watson na ausência, julgava-se definitiva de Holmes.
A aptidão de Holmes para a utilização do disfarce perfeito é bem evidente nesta narrativa, provocando a desconfiança de Watson e Lestrade que encaram o homem gorducho em que Holmes se convertera como o principal suspeito da morte de Rose Constable. Watson escrevera ao amigo relatando os contornos do caso que Copper lhe expusera e Sherlock Holmes, embora retirado do ofício que o celebrizara, surge disfarçado para melhor apurar os factos nebulosos descritos por Watson.
Este último escrito com que a obra de Rodolfo Martinez finda, transmite-nos a agradável sensação de Holmes nunca deixará de investigar os casos mais difíceis e que Watson e Lestrade continuarão a acompanhá-lo no deslindar dos mais complexos enigmas, tão imortais como Sherlock Holmes.

Domingo, Abril 06, 2008

"Os Milagres do Anticristo" de Selma Lagerlöf

Lagerlöf, Selma, Os Milagres do Anticristo (Antikrists Mirakler), Cavalo de Ferro, Tradução de Liliete Martins, 2008.

“Os Milagres do Anticristo” de Selma Lagerlöf principia com a menção a uma lenda siciliana que profetiza o seguinte: Quando aparecer o anticristo, ele terá exactamente a mesma aparência que Cristo. Nessa época, haverá muita fome e o anticristo irá de terra em terra, dando pão aos pobres e ganhará, assim, muitos simpatizantes.
Baseando-se neste antigo auspício siciliano, Lagerlöf erige uma história em que a troca de uma imagem religiosa sagrada por uma cópia desde então adorada como se da original se tratasse, e o advento do socialismo na pobre e cinzenta Sicília, se confundem num único propósito: A salvação da pequena cidade de Diamante.

Os milagres sucedem-se quando Donna Micaela verbaliza a sua intenção de construir um caminho-de-ferro que abra a minúscula e escondida Diamante ao mundo. Acontecimentos estranhos e extraordinários, sem explicação racional decorrem na acanhada Diamante e o povo atribui a sobrenaturalidade dos eventos perturbadores a que assistem ao Menino Jesus representado na Igreja de San Pasquale, pronto a receber as contribuições dos crentes para o caminho-de-ferro de Donna Micaela.

E o povo pede o fim dos seus males. Pede pela prosperidade da Diamante abandonada pelos poderosos de Roma. Cada um pede pelo seu sucesso pessoal. Pela sua sobrevivência. Pede a terra ao céu.

Entretanto, uma inovadora corrente política, o socialismo, cujos ideais se aproximam dos defendidos pelo cristianismo puro, espalha uma boa nova por toda a desventurada Sicília colhendo alguns apoios mas sendo esmagado pelo poder instituído ao qual estava ligado um cristianismo distante da imaculabilidade inicial.
O socialismo promete a salvação do sofrimento através da luta, da revolução. Só por meio do esmagamento das classes superiores, de um novo começo pela raiz seria possível a construção de uma sociedade igualitária.

E o ambíguo Etna observa, quieto na sua mudez cónica, sempre vigilante ante a imensidão daquela terra árida que se espraiava em todo o seu redor. Entre a terra e o céu.

A convicção na genuinidade da imagem do Menino Jesus e do seu poder milagreiro incrementa a fé da população de Diamante no seu ideal de comunhão com o divino. O Menino Jesus demonstrava o seu domínio todos os dias e o povo sentia as suas necessidades supridas pelo seu redentor. A alternativa não era acolhida com agrado pois agradados já os habitantes de Diamante se encontravam.

Quando acidentalmente se descobre que a imagem adorada possuía uma inscrição que dizia: O meu Reino pertence apenas a este mundo, o povo desperta para a fraude que alimentara. É o momento da revelação. Tudo se justificava com a coincidência, o poder de sugestão, a vontade humana.

Diamante pedira sempre pela concretização material de algum sucesso colectivo ou pessoal, nunca suplicara pela conservação da pureza das almas, pela sua incorruptibilidade. E o verdadeiro cristianismo pressupõe o pensamento direccionado para o diáfano, o etéreo, o invisível, para as coisas do céu. A adoração daquela falsa imagem significou apenas a manutenção de bens e sonhos deste mundo.

A confiança num ícone no qual se deposita toda a fé e que nos pede paciência, perseverança na espera de um milagre ou o seguimento de uma doutrina política, guiado por líderes dominadores de palavra acesa (como uma padre no púlpito), incendiando multidões e instando-as a tomarem o futuro nas suas mãos, eis a possibilidade de escolha que Lagerlöf nos apresenta.

O anticristo não é o anjo caído subversor da crença original, mas sobretudo a alternativa à ordem instituída, o incentivador do livre-pensamento, o libertador das amarras que prendiam o povo ao pré-determinado. O anticristo é a novidade seja ela qual for.
O lirismo dos primeiros tempos do socialismo está presente nesta obra mas com uma subtileza ímpar de quem não pretende impor, mas expor a ideia de que era possível ao ser-humano escolher um caminho próprio. Um caminho terreno. O céu podia esperar.

Domingo, Março 30, 2008

"O Mistério da Estrada de Sintra" de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

Queiroz, Eça de, Ortigão, Ramalho, O Mistério da Estrada de Sintra, Livros do Brasil, 2007.

É através de um conjunto de cartas enviadas a um Redactor do Diário de Notícias escritas pelos intervenientes nos acontecimentos ocorridos em vários palcos (sendo que um deles, e o primeiro a ser-nos apresentado é, justamente, a estrada de Sintra) que o leitor se vê enredado numa história policial densa que culmina com a morte de um homem.
Dois amigos regressavam a Lisboa pela estrada de Sintra quando são abordados por um grupo de homens mascarados que os retêm, vendam-nos e conduzem-nos a uma casa onde jaz numa poltrona um homem morto. Um dos raptados é médico e os homens pretendiam apenas a confirmação do óbito, no entanto, a primeira reacção dos homens interceptados é de estarem perante um bando de malfeitores. Contudo, à medida que a noite decorre, os dois amigos conversam com os homens que os mantêm presos, sobretudo com o mascarado alto, e concluem que se trata de pessoas sem qualquer envolvimento naquela morte.

O início da obra é o desfecho da história (ou quase…), mas a carta do mascarado alto, leva-nos a uma viagem a Malta na companhia do Conde e Condessa de W. sua prima. Sabemos pelo seu relato que a Condessa, apesar da sua delicada beleza e espírito, sofrer de uma imensa solidão, alheia às aventuras extraconjugais do Conde mas sentindo essa distância imposta pelo marido.
Em Malta, o mascarado alto e primo da Condessa trava conhecimento com o Capitão Rytmel, inglês de passagem em Malta e que é apresentado à Condessa com o intuito de colmatar a sua solidão e tédio, por ser alguém passível de suscitar o interesse da infeliz Condessa.
E o interesse suscitado excede as expectativas, encontrando o amor crescente da portuguesa e do inglês, vários obstáculos à sua concretização. O facto de ela ser casada mas também o aparecimento de uma personagem verdadeiramente trágica: Cármen Puebla. Uma espanhola que havia sido amante de Rytmel e que se faz acompanhar de seu marido D. Nicazio. Cármen é o oposto da Condessa, tipicamente mediterrânica na aparência, uma mulher extrovertida com suficiente à vontade para estar só na companhia de um punhado de soldados ingleses. Ao perceber o interesse de Rytmel na Condessa de W., Cármen demonstra que não havia esquecido o inglês, pondo em prática um plano movido pelo ciúme para impedir a concretização do intento de ambos: A fuga.

Cármen é destruída pelo amor a Rytmel e a Condessa de W., arrebatada pelo ciúme, pela desconfiança que a distância origina, termina o que Cármen começara e acaba retirada num Convento Carmelita, morta para o mundo.

Esta é a história de dois homens que encenaram um crime e os seus contornos, apaixonando Lisboa com os desenvolvimentos publicados pelo Diário de Notícias e fazendo crer os leitores que acompanharam avidamente o desenrolar da mesma, de que se tratava de um crime real.
O tom confessional com que as cartas são escritas, facilitou, com toda a certeza, a crença na veracidade dos eventos descritos.


Domingo, Março 23, 2008

"O Livro do Deslumbramento" de Lord Dunsany

Dunsany, Lord, O Livro do Deslumbramento (The Book of Wonder), Saída de Emergência, Tradução de Marta Oliveira, Ana Margarida Canelas, Susana Clara, José Manuel Lopes, 2007.

A editora Saída de Emergência reuniu num só volume “O Livro do Deslumbramento” e “O Novo Livro do Deslumbramento” materializando, assim, a própria vontade de interligação e continuidade do autor expressa no epílogo de “O Livro do Deslumbramento”: Aqui acaba o décimo quarto episódio do Livro do Deslumbramento e o relato das Crónicas das Pequenas Aventuras na Orla do Mundo. Despeço-me dos meus leitores. Mas talvez nos encontremos outra vez, pois ainda ficou por contar como os duendes roubaram as fadas, a vingança das mesmas, e até como tudo isso perturbou o sono dos deuses. Ficou também por contar como o Rei de Ool insultou os trovadores, julgando que estaria a salvo, no meio dos seus muitos arqueiros e centenas de alabardeiros; como os trovadores se instalaram, pela calada da noite, nas torres do rei e, por debaixo das suas ameias, à luz da Lua, e o ridicularizaram para todo o sempre com os seus cantares. Mas para isso, terei primeiro de regressar à Orla do Mundo. Atenção, as caravanas partem.

Lord Dunsany criou um mundo paralelo que situa numa região designada de Orla do Mundo e as histórias narradas, ocorridas nesse espaço distante e desconhecido, são quase sempre transmitidas por via oral através do relato sonhador ou ébrio de viajantes e marinheiros em alguma taberna à beira mar, contadas como se de uma realidade com roupagem de lenda se tratasse. E o nosso narrador, sempre pronto para ouvir as façanha fantásticas de homens comuns transmutados em figuras temíveis e respeitadas ou os feitos assombrosos de piratas terríveis e ameaçadores convertidos em homens passíveis de suscitar a admiração do leitor, conta-nos as aventuras dos que ousaram quebrar com a normalidade de uma vida banal, que partiram em busca de transformar o irreal em algo concreto.

Destaco a inabalável vontade do Capitão Shard, personagem que nos é apresentada no “Livro do Deslumbramento” e que é retomada no “Novo Livro do Deslumbramento” a bordo do seu navio pirata, o Desperate Lark, perseguido, acossado, navegando por mar e terra, resistindo à instabilidade que a sua posição de comando lhe conferia mediante o sucesso ou insucesso da fuga que empreendera.

O deslumbramento aqui significa não só o espanto perante as inúmeras possibilidades da vontade humana ou sobre-humana, mas também o propósito último de todos estes seres. Conquistar esse estado de esplendor, de ofuscação ante a beleza do fim domado, eis o objectivo da grande viagem delineada pelas personagens de Lord Dunsany.

Domingo, Março 16, 2008

"A Infanta e o Pintor" de Jean-Daniel Baltassat

Baltassat, Jean-Daniel, A Infanta e o Pintor (Le Valet de Peinture), Quetzal Editores, Tradução de Inês Castro, 2005.

A distância desagua no mistério.
E no século XV europeu, as alianças políticas consolidadas através do casamento, socorriam-se da habilidade dos mestres da pintura como Jan Van Eyck para traçarem as formas e feições das mulheres a desposar por um qualquer herdeiro de casa real. E à bruma sucedia-se o palpável e dava-se início à douta avaliação dos homens. E as futuras esposas, moeda de troca dos desígnios maiores dos omnipotentes homens, reduziam-se à sua pequenez, submetiam-se à interpretação variável do pintor, por sua vez dependente do seu mecenas. O seu gesto, a sua disposição, a dureza ou leveza que os traços da sua face declarassem, o olhar frio ou terno que da tela emanasse, tudo dependia do exame do intérprete fiel à sua missão de relato da verdade.

O Duque Filipe de Borgonha, viúvo e afamado pelo seu espírito libertino, incumbe Mestre Johannes de viajar até Lisboa com dois legados por si nomeados afim de se impor o interesse do Duque em desposar a Infanta D. Isabel, filha de D. João I, Mestre de Avis. É evidente que do sucesso de tal empresa, dependia o retrato que Van Eyck pintasse da Princesa.
A Infanta é um enigma para Filipe. Tem trinta e dois anos e permanece solteira. Interessa ao Duque saber porque nunca se casou D. Isabel e o estado em que se encontra decorridos trinta e dois anos de existência. Quer que da obra de Van Eyck transpareçam todas as respostas às suas muitas interrogações. Será bela ou destituída de beleza? Será de carácter submisso ou rebelde? Será ainda donzela? O retrato terá de possuir a transparência que permita, de um relance, desvendar a verdade acerca da Infanta de Portugal, mas o Duque quer apoderar-se igualmente das impressões que o pintor lhe irá transmitir e que possam não estar expressas no quadro.

Acompanhamos a viagem de Mestre Johannes ladeado pelos dois enviados diplomáticos do Duque Filipe, Messire André e Messire Baudoin, bem como do pajem Makhiel que Van Eyck julga tratar-se de um espião instruído por Monsenhor Filipe para controlar a conduta do pintor.
A atribulada jornada prolongou-se por mais de dois meses e quando, finalmente, entraram em Lisboa, após privações de toda a ordem, a Infanta encontrava-se longe da capital.
Os emissários de Filipe entreviram nesta ausência alguma indiferença de D. Isabel à pretensão de Monsenhor, uma espécie de desafio que se sabe breve, mas saboroso pelas ondas de cólera que provocaria.

Van Eyck instala-se no Palácio Real de Sintra, exortado por D. Duarte, o herdeiro do trono português, enquanto a filha do Rei não regressasse do Palácio de Faro, sua residência de Inverno, o que só sucederia por altura da Festa de S. Lázaro.

E eis que a Infanta retorna coberta por um denso véu que lhe esconde a face, entrevendo-se apenas as mãos alvas e jovens que fascinam, desde logo, o pintor.
D. Isabel oculta-se quase em absoluto e deseja fazê-lo durante tanto tempo quanto for possível. Inicia-se o duelo entre o dever e a rejeição momentânea em ceder à obrigação. Ela recusa ser tratada como uma peça de comércio entre nações. Opina, mostra-se arguta e profundamente consciente do seu destino incontornável enquanto mulher. Envia uma aia trajando o seu mais belo vestido para que Van Eyck pinte primeiro o corpo e só depois o rosto que desnudará quando assim o deliberar perante si própria.
Desaparece durante semanas, deixando o pintor entregue a um corpo sem rosto, adivinhando, no entanto, no mesmo, a inscrição de uma personalidade indomável. A Infanta de Portugal é alma e coração muito antes se materializar na tão ansiada fronte que Borgonha espera desvendar os labirintos obscuros da vida de uma mulher diferente.

Quando finalmente descobre o rosto e Van Eyck o pinta, aprovado por toda a baronia portuguesa publicamente, D. Isabel, em privado, pede-lhe um retrato mais sincero, sem omissões da passagem do tempo e roga-lhe que possa olhar Monsenhor Filipe nos olhos mesmo antes de ser sua esposa. O desafio último. Poder encarar o pretendente de igual para igual, aquele que dizia que existia Deus e depois existia ele, subjugado perante o olhar honesto e íntegro daquela que parecia querer dizer que também ela existia.
E Johannes Van Eyck ilumina ainda mais a beleza da Infanta por meio da verdade absoluta. A luz de coragem que sobre ela recai, arreda as sombras do dever a cumprir.

Domingo, Março 09, 2008

"O Remorso de Baltazar Serapião" de Valter Hugo Mãe

Mãe, Valter Hugo, O Remorso de Baltazar Serapião, Círculo de Leitores, 2007.

A história do Amor ferino entre Ermesinda e Baltazar decorre na Idade Média portuguesa, no reinado de D. Dinis, numa obscura terra sem nome dominada por um senhor feudal todo-poderoso, D. Afonso, reclamante da presença das mais jovens e belas mulheres do feudo na casa grande.
A família Serapião, à qual Baltazar pertence, tinha como única posse uma vaca, a Sarga, elemento indissociável do núcleo familiar dos Serapião. Tendo o pai de Baltazar o nome cristão de Afonso, à semelhança do seu senhor, equivalência esta insustentável, havia sido rebaptizado de O Sarga naquela que se tornara uma durável ligação estabelecida entre os Serapião e o animal, quase como se a diferença entre uns e outra fosse remota ou mesmo inexistente. Apesar de já depreciados desta forma, juntava-se ainda a convicção popular de que Baltazar e aldegundes eram produto da relação bestial entre o pai e a Sarga, naquilo que era uma forma pouco subtil de colocar repetidamente os Serapião ao nível de um animal de curral.
Perante a animosidade crescente das gentes em relação aos Sarga, a proximidade com o animal assume contornos reais tendo como base a rejeição, o preconceito, a superstição populares que votam aquela família à condição de proscritos do povoado.
Banidos pelos do seu próprio meio, desterrados da terra que também era a sua, intentam, em vão, um recomeço algures onde não tenha chegado notícia da sua existência e do que a condicionava mas, a crendice das pessoas com que se cruzam e deles em relação a eles próprios, força-os a renderem-se à sua condição de bestas e, sobretudo, à condição de amaldiçoados por atraírem tudo o que era nefasto para onde quer que se dirigissem.

Ermesinda é repetidamente chamada à casa grande e o marido interroga-a do que D. Afonso lhe queria. A comovente submissão de Ermesinda (comovente porque a protecção de Baltazar é tudo o que a move) revela-se no seu silêncio que trespassa o coração de Baltazar não de dúvidas, mas de certezas. E cada momento mudo da mulher corresponde a uma agressão física do marido. Ermesinda é progressivamente privada da sua honra extra-muros e da sua integridade física intra-muros. E o seu silêncio não é mais do que a conservação da honra de Baltazar. Ela sabe que a sua já não pode ser resgatada. A não verbalização do interdito, torna-o dúbio e mesmo irreal para uma mulher encurralada que ama o marido até ao fim.

O sofrimento das personagens femininas nesta obra de Valter Hugo Mãe é inclassificável pela violência psicológica e física de que são vítimas. A ausência física ou mental (como no caso da Teresa Diaba) é a única salvação possível para estas mulheres à mercê do paternalismo doentio destes homens, do seu saber tudo, da sua convicção nos benefícios de uma “educação” pela força.

À força de a querer só para si, Baltazar deforma a mulher faseadamente, transformando-a num corpo irregular marcado pela sua ira, incapaz de aplicar a sua raiva na origem do mal que o assola. O seu egotismo é aviltante, preocupado que está na ofensa à sua pessoa, olvida o eclipse gradual da mulher com quem casara. A outrora bela Ermesinda.
Baltazar abdica da sua humanidade por não a vislumbrar em si nem nos outros. Parece não se reconhecer como Homem, despojado de alma, ferido de ciúme. Ermesinda cai, vítima da sua inércia e Baltazar, aos olhos de quem o vê/lê, é bem o retrato do Homem-besta. E tudo o que lhe resta no fim do seu percurso é a vaca com que desde sempre a família fora associada. Lado a lado. O paralelo que o povo ignorante criara entre o animal e a família Serapião, materializara-se numa realidade de violência em que a redenção não tem lugar e em que o remorso desponta com a morte, com o sacrifício dos inocentes e a queda impiedosa dos culpados. O acto mais irreflectido de Baltazar é o momento da justiça possível. O castigo divino recai sobre ele na forma do vazio absoluto. A solidão.

Domingo, Março 02, 2008

"Porque Adoecemos?" de Darian Leader e David Corfield

Leader, Darian, Corfield, David, Porque Adoecemos? (Why do People Get Ill?), Bizâncio, Tradução de Maria Carvalho, 2007.

A doença. Eis o tema central da obra “Porque Adoecemos?” de Darian Leader e David Corfield. Contudo, apesar da seriedade que o assunto analisado abarca, este é um livro escrito de forma acessível, sem recorrer a linguagem apenas compreensível por profissionais da área da saúde, tornando-se, como tal, numa leitura suficientemente inteligível para todos.
Trata-se de um estudo ou, melhor dizendo, uma amálgama de reflexões cientificamente fundamentadas que apontam, não tanto para conclusões peremptórias unilaterais, mas para considerações de elevado interesse sobre as várias causas que se escondem por trás das mais diversas doenças, sempre apresentando exemplos de casos reais. Os autores insistem sobretudo nas motivações psicológicas que originam inúmeros tipos de doenças, ou seja, para além das questões genéticas e ambientais e da predisposição natural, existem factores psicológicos, muitas vezes inconscientes, enterrados no lugar mais escuro e profundo do nosso Ser que, mediante algumas técnicas da psicanálise, são passíveis de ser descobertos, contribuindo para uma leitura mais abrangente e sólida do problema físico que aflige um determinado sujeito.
A impessoalidade que muitos doentes pressentem por parte da medicina convencional, tem arrastado grandes massas a experimentar medicinas alternativas. O distanciamento crescente da relação médico/doente, a par dos frios excessos burocráticos, conduzem os pacientes a buscar opções mais humanizadas, sobretudo, buscam não só a cura como procuram ser ouvidos.
A desumanização da classe médica é focada nesta obra que salienta, acima de tudo, os traumas, pressões e estilos de vida presentes no subconsciente de todos, revelando-se apenas em alguns e despoletando a doença, ocasionalmente, em outros.
Um livro de interesse para todos os que procuram perceber as complexas e misteriosas relações entre corpo e mente.

Domingo, Fevereiro 24, 2008

"O Segredo de Shakespeare" de Jennifer Lee Carrell

Carrell, Jennifer Lee, O Segredo de Shakespeare (Interred with their Bones), Círculo de Leitores, Tradução de Ana Duarte, 2007.

Para além das sempre controversas questões relacionadas com a identidade de William Shakespeare discutidas nesta obra, “O Segredo de Shakespeare” de Jennifer Lee Carrell trata também a possibilidade de existência de uma obra perdida do dramaturgo inglês, “Cardennio”, implicando a sua busca no que é uma autêntica caça a um tesouro literário cobiçado por uma rede de personagens cujas motivações variam entre a recriação das mortes das personagens de Shakespeare com o intuito de tornar a ficção realidade para elevação máxima do génio do dramaturgo (e meio de derrubar os que se opõem a esse propósito), e a simples investigação que almeja a descoberta de uma peça há muito desaparecida de forma a incluí-la como relíquia no espólio existente do autor.
Kate é Directora de Produção do Globe em Londres e investigadora do lado obscuro das obras de Shakespeare. Quando é procurada por Roz, uma amiga que não via há muito e com quem tivera uma amizade turbulenta, tudo se altera na sua vida até então tranquila. Roz tem em sua posse uma série de pistas que indiciam a descoberta de um segredo enterrado há séculos e que colocam em causa a identidade de Shakespeare assim como podem trazer à luz do dia uma obra oculta do autor.
A morte de Roz e o incêndio inesperado do Globe são os acontecimentos que despoletam a caça ao tesouro desencadeada por Kate coadjuvada por Sir Henry primeiro, um actor britânico em fim de carreira consagrado e expedito, e por Ben mais tarde, suposto sobrinho de Roz munido dos meios necessários para concretizar os intentos de Kate.
De Londres a Washington e a Valladolid, este é um livro com cenas em vários palcos auscultados de perto pelo Inspector Sinclair, figura omnipresente sempre no encalço de Kate, a principal suspeita dos assassinatos que vão ocorrendo. Simultaneamente frenético e erudito, revela-nos todas as dúvidas que pairam sobre a comunidade académica no que respeita à verdadeira identidade de um dos génios maiores da literatura mundial (seria Shakespeare um reputado membro da nobreza com acesso fácil a uma educação completa ou o Shakespeare de Strattford de origens humildes?) e guia-nos numa aventura em que ninguém é o que verdadeiramente parece e em que fidelidades e traições emergem nos momentos mais inesperados culminando no fantástico achado numa mina de Tombstone.

Domingo, Fevereiro 10, 2008

"O Amor Infinito de Pedro e Inês" de Luís Rosa

Rosa, Luís, O Amor Infinito de Pedro e Inês, Editorial Presença, 2005.

O reinado de D. Pedro I foi inegavelmente marcado pelos acontecimentos que precederam a sua subida ao trono e o autor de “O Amor Infinito de Pedro e Inês”, Luís Rosa, demonstra-o ao contar a história do amor impossível que D. Pedro vivera enquanto Infante de Portugal e que ultrapassara as fronteiras do tempo e da morte, cimentado, fortalecido com a justiça que Pedro, já Rei de Portugal, levava a todos os cantos do reino, eternamente sedento do sangue já derramado dos sequazes de Inês de Castro.
Pedro sempre se submetera sem contestação às razões de estado que o obrigavam a contrair matrimónio com donas da mais alta nobreza castelhana, era o instinto de preservação de um país encolhido ante o poderio de Castela que o ditava e Pedro acolhia as decisões do distante pai, D. Afonso IV, com a resignação necessária e o sentido do dever.
D. Constança Manuel, a enjeitada de Castela, chega a Portugal trazendo na sua comitiva uma jovem aia de dezasseis anos e sua grande amiga, D. Inês de Castro. Pedro trá-la no coração desde o primeiro momento e Inês confessa a sua preocupação ante as investidas do olhar do Infante à confidente Constança que morreria pouco depois de dar à luz o herdeiro tão aguardado, o débil D. Fernando. Inês havia sido afastada da corte entretanto como forma de conter o ímpeto do Infante, no entanto, após a morte da mulher, Pedro cavalga para Castela em busca do seu amor nunca esquecido e estabelece-se com Inês no Paço da Atouguia. O Rei Afonso IV não controla já as decisões do filho e influenciado pelos conselheiros mais próximos, assina a sentença de morte de D. Inês de Castro, suposta ameaça à paz que Portugal cultivava com o vizinho sempre ameaçador, Castela.
A morte de Inês desencadeia uma revolta armada de um Infante contra o Rei, acontecimento sem precedentes na História de Portugal. Alguns meses após o seu início, assina-se um acordo de paz, mas no seu leito de morte, D. Afonso IV, conhecedor da índole do filho, aconselha os responsáveis pela morte de Inês a fugirem para Castela porque Pedro vingar-se-ia assim que surgisse a oportunidade. Fogem mas, Pedro de Portugal chega a acordo com Pedro de Castela, seu primo, e fazem uma troca de procurados em ambos os países sendo que é desta forma que dois dos três carrascos de Inês são trazidos para Portugal e lhes é aplicada a mais dura das penas que valeu a D. Pedro fama de justiceiro, mas também de louco e cruel.
Acompanhamos na parte final da obra o principal objectivo do Rei após a morte de Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves: a construção do túmulo de Inês, coroada Rainha de Portugal. E esse é o grande mistério que perdura até hoje, ter-se-á consumado o casamento de Pedro e Inês como ele tão resolutamente afirmava? A verdade é que os túmulos magnificamente esculpidos por Bartolomeu de Molianos em Alcobaça são os de Pedro e Inês, juntos para a eternidade.

Uma personagem fabulosa que Luís Rosa introduz no livro é a do Bobo Clarimundo. Ele é o Sábio que aconselha o Príncipe, que lhe indica o caminho, que lhe transmite com o olhar que Inês não mais existe. Nenhum “notável” ou nobre da corte é o braço direito de Pedro, apenas o simples Bobo Clarimundo sempre o acompanha e é o único capaz de conter o incontido D. Pedro, de iluminar o seu pensamento. O próprio nome do Bobo é indiciador da sua sabedoria, da sua abertura de espírito, da sua alma grande.

Fazem falta Bobos Clarimundos neste desfalecido Reino de Portugal.

Domingo, Fevereiro 03, 2008

“Akhenaton, o Rei Herege” de Naguib Mahfouz

Mahfouz, Naguib, Akhenaton, o Rei Herege (Al-A’ish Fi-L-Haqiqa), O Quinto Selo Edições, Tradução de Adel A. Jabbar Mohammed Daroga, 2007.

Miriamon visita, na companhia de seu pai, a decrépita cidade de Akhetaton, fundada pelo Faraó que se atrevera a desafiar a tradição milenar politeísta implementada no Egipto, Akhenaton. A visão de abandono que a ainda recentemente esplendorosa urbe agora transmite, impressiona vivamente o jovem Miriamon, sobretudo porque algures nos escombros da antiga glória ao deus único, edificada pelo que ficou conhecido como O Herege, vive uma mulher atormentada pela solidão num palácio dourado de recordações dolorosas, prisioneira da nova ordem egípcia protagonizada pelos tutores de Tutankhamon e cativa do seu próprio desespero privado. Ela é Nefertiri e Miriamon busca a verdade da sua História conjunta com Akhenaton através de 14 audiências a que temos pleno acesso com as figuras que mais próximas foram do Rei sendo que, a última das conversas é tida com Nefertiri.
Akhenaton é descrito por todos os entrevistados como uma figura fisicamente débil, disforme até, e este é um ponto em relação ao qual todas as opiniões convergem. No entanto, os seus detractores vão mais longe e “transformam-no” num monstro indigno de segurar o ceptro dos faraós, ora porque não acorre ao harém herdado de seu pai, Amenhotep III, gerando rumores de uma estranha relação além maternal com sua mãe, a rainha Tiy, ora porque adoptara uma prática religiosa diversa da dos seus antepassados, fazendo emergir a figura enigmática do deus único, defensor da paz, do amor, da não punição, da tolerância.
Dir-se-ia que o ponto de viragem na vida de Akhenaton foi a morte do seu irmão Tutmés. A partir do momento em que se apercebeu da inevitabilidade da morte, Akhenaton começa a crer na possibilidade de, praticando o bem, amando o próximo, perdoando o incauto, torná-la uma miragem distante, porque um individuo ou um povo que seguissem os ensinamentos que o Herege ouvira do seu deus numa noite de revelação, tornar-se-ia imortal. Muito depois da partida dos nossos corpos, converter-nos-íamos numa brisa de sussurros, quiçá reveladora para um outro ser com sede de verdade como Akhenaton na noite em que viu a luz.
Nefertiri é retratada por alguns dos intervenientes do périplo realizado por Miriamon como uma oportunista que fingira crer no deus único do Rei para criar um falso laço de ligação profunda entre ambos. A verdade que nos conta na primeira pessoa, contudo, é indicadora de uma inexplicável mas real crença na crença de Akhenaton, de um desejo de conhecimento e aproximação do ainda herdeiro do trono na altura, de um casamento inicialmente de atracção espiritual e com o decorrer do tempo, metamorfoseado em Amor absoluto. As palavras finais são de Nefertiri, Miriamon termina o seu percurso de descoberta no local em que o iniciara, em Akhetaton, o túmulo em que permanecia emparedada viva a rainha pela qual o Rei Herege abdicara do harém porque, segundo o próprio, era monogâmico nas relações como na religião.
Fica-me a imagem de um Rei desafiador porque perturbado pela ideia da morte de um irmão muito querido, mas também corajoso porque manteve o seu ideal quando todos o abandonaram. E morreu só, só o seu deus velou por si.

Domingo, Janeiro 27, 2008

"Uma Paixão Humana: O seu Cérebro e a Música" de Daniel J. Levitin

Levitin, Daniel J., Uma Paixão Humana: O seu Cérebro e a Música (This is your brain on music), Bizâncio, Tradução de Bárbara Pinto Coelho, 2007.

Daniel J. Levitin explora, neste seu roteiro solidamente construído, questões relacionadas com o efeito que a música produz no cérebro humano.
Para além de uma base científica bem sustentada e perceptível ao leitor leigo, Levitin introduz ao longo do livro exemplos de música e músicos universalmente conhecidos, ilustrativos das teses do autor e proporcionando, assim, uma compreensão harmoniosa da capacidade extraordinária do Ser-Humano em assimilar conteúdos musicais.
Mesmo antes de nascermos, se devidamente estimulados por um ambiente exterior profundamente musical e posteriormente acompanhados, por exemplo, por uma família de tendências e tradições musicais, as probabilidades de nos tornarmos músicos aptos ou simplesmente excelentes ouvintes de música, são superiores a alguém que não foi sujeito a essa influência. Na verdade, parece algo óbvio, no entanto, Daniel J. Levitin decifra os mecanismos que conduzem à aquisição destas “predisposições” e fá-lo de forma pormenorizada, escalpelizando as estruturas neuro-científicas e psicológicas que nos tornam Seres naturalmente musicais.

Domingo, Janeiro 20, 2008

"Antologia Indispensável" de Flannery O'Connor

O'Connor, Flannery, Antologia Indispensável, Dom Quixote, Tradução de Clara Pinto Correia, 1996.

Trata-se de uma obra de compilação de alguns dos melhores contos da autora americana sendo que, destaco e aqui vos deixo as minhas impressões sobre "A Gente Sã do Campo".
Quem é esta Gente Sã do Campo? Mrs. Hopewell, a personagem do conto de Flannery O'Connor que repetidamente utiliza esta expressão num nítido esforço de exaltação das pessoas aparentemente não conspurcadas pelo "lixo" urbano que distorce a humanidade pura e a que implicitamente alude, dá o exemplo da família Freeman, a família de caseiros que havia quatro anos trabalhava na sua propriedade. De Mr. Freeman apenas sabemos tratar-se de um "bom agricultor", a única personagem ignorada e a única que verdadeiramente se aproxima dos padrões comportamentais próprios das gentes do campo. Contudo, as duas filhas e, sobretudo, Mrs. Freeman são ironicamente retratadas pelo narrador por meio de um premeditado jogo de equívocos em que, naturalmente, o que parece não é. Enquanto Mrs. Hopewell vê em Mrs. Freeman (e também em Manley Pointer) o protótipo da fórmula em torno da qual o conto gira, o leitor atento não poderá deixar de sorrir ante a ingeniosa construção empreendida por Flannery O'Connor: Cada palavra da mulher do caseiro atraiçoa a noção de simplicidade que Mrs. Hopewell pretende conferir a essa espécie de epitáfio inscrito em numerosas páginas do texto. O "monumeno final" é erguido a partir do erro da premissa, uma premissa a que não podemos deixar de atribuir laivos de lugar-comum, atendendo ao contexto de banalidade no qual, outros "clichés" utilizados por Mrs. Hopewell pululam assumindo a funcionalidade específica de frisar a vulgaridade desta mulher: nada é perfeito, é a vida! ou as outras pessoas também têm as suas opiniões. Atentemos agora na reacção da filha de Mrs. Hopewell, doutorada em filosofia, à filosofia barata a que a mãe abusivamente recorria: e a espessa Joy, cuja constante indignação acabara por obliterar todas as expressões da sua face, olhava ligeiramente para o lado, um olhar azul gelado, com a atitude de alguém que atingira a cegueira através da força de vontade e que tinha suficiente determinação para se manter permanentemente nesse estado. Joy, que ao completar 21 anos modificara o seu nome para Hulga numa provocação por meio do "feio" semelhante ao barulho evitável que produzia ao arrastar a perna artificial, insistindo neste "ritual" apenas pela consciência que tem da terrível fealdade do som e consequente incómodo que cria nos "outros". Joy assumidamente se demarca do círculo de gente sã do campo de que Mrs. Hopewell fazia questão de se ver rodeada. No entanto, não será a "pureza vivencial" de Hulga, indo ao extremo de a mãe ainda a considerar uma criança (apesar dos 32 anos e dos vários graus académicos) - Continuava a considerá-la uma criança porque lhe apertava o coração ter que pensar numa rapariga desengonçada que nunca dançara ou tivera qualquer outro divertimento normal. - um dado suficiente para a elevarmos a real representante desta gente sã do campo? Talvez fosse possível assentir nesta hipótese no que diz respeito ao lado criança de Joy mas, na verdade, esta é uma "criança" mutilada com uma perna amputada, um nome amputado, sendo pertinente notar que tanto a prótese da perna como o nome substituto são encarados da mesma forma pela jovem: quando Mrs. Freeman principia a chamá-la Hulga, ela pensa no facto como uma enorme intromissão na sua privacidade; e, mais tarde, quando Manley Pointer, o vendedor de Bíblias, lhe pede para mostrar o local onde a perna artificial se junta ao corpo, Hulga hesita porque tinha a mesma sensibilidade em relação à perna artificial que os pavões têm em relação à cauda. Nunca ninguém lhe tocava a não ser ela. Cuidava da perna como outros cuidariam da alma, em privado e quase que desviando o seu próprio olhar. A perna e o nome... camuflados, escondidos porque reveladores de algo íntimo e inviolável, a privacidade (talvez a única posse de que Joy se podia gabar). A perna e o nome decifrados pela gente sã do campo por excelência (permitam-me acompanhar a ironia da autora...): Mrs. Freeman e Manley Pointer (o duplo engano de Mrs. Hopewell). Ambos nos surgem obcecados pela perna de Hulga: Havia qualquer coisa nela que parecia fascinar Mrs. Freeman e depois um dia Hulga percebeu que era a perna artificial. Mrs. Freeman tinha uma predilecção especial pelos detalhes de infecções secretas, deformidades escondidas, assaltos a crianças. Das doenças, preferia as intermináveis e incuráveis; Manley Pointer, por sua vez, olha para Joy como se estivesse a observar um novo animal fantástico no jardim zoológico. A perna e o nome destacam-se como as únicas características distintivas de Joy porque invulgares, e Mrs. Freeman e o vendedor de Bíblias não passam de dois caçadores de raridades. A mulher do caseiro colecciona através da mera retenção na memória, Manley Pointer apenas se contenta com a posse real, material, e segue um estratagema comum pelo país fora, seduzindo mulheres com deformidades físicas para a prova de amor, a dádiva, se revelar, por fim, uma irremediável perda. A certa altura o narrador afirma que Joy passara por tudo sem dar por nada e, de facto, a relativa independência e absoluta altivez que cultiva, desfazem-se em nada perante a compreensão de que aquele rapaz que se diria pertencer à estirpe dos "eleitos" - a gente sã do campo, o sal da terra - era somente uma encantação demoníaca em código. Hulga julgara cheirar a estupidez dele na maleta onde transportava as Bíblias, como no passado julgara cheirar a estupidez de todos os jovens simpáticos que olhara. Mas dentro das Bíblias estava "Whisky" e o rapazola devoto é um charlatão que se despede de Hulga afirmando o seu total cepticismo face ao humano e ao divino, manifestando crer apenas no despojamento das suas vítimas por amor, o amor ao bizarro. A bizarria de Joy é física, a bizarria dos "outros" dir-se-ia psíquica. Nenhum elemento da galeria de personagens poderá incorporar o quadro da gente sã do campo.O título do conto e o conceito nele presente, servem apenas de simulacro a um universo onde a existência da gente sã do campo é simplesmente impossível.

Terá alguma vez existido uma idade da inocência?

Domingo, Janeiro 13, 2008

“Dembos, A Floresta do Medo, Angola – 1969 a 1971” de Carlos Ganhão

Ganhão, Carlos, Dembos, A Floresta do Medo, Angola – 1969 a 1971, Terramar, 2007.

O medo, catalizador de bravura e de cobardia, encarregava-se de separar os animicamente preparados para combater, ainda que numa guerra ambígua e os que, possuidores de uma estrutura psicológica auto-impeditiva, arriscavam a sua aniquilação às mãos do inimigo, bem como a de todo um grupo de homens dependentes entre si.
A Floresta dos Dembos, personifica de forma palpável a invisibilidade do medo que, de uma forma ou outra, arrebatou cada um daqueles homens, ora em abismos profundos de vegetação tão densa que era impossível caminhar, ora em esparsas clareiras onde o inimigo os emboscava numa infindável perseguição em que aquele que hoje perseguia, amanhã era perseguido.
Mas não é só o medo a criar divisões no seio do exército português. Estávamos perante uma tropa mista no sentido em que, de um lado possuíamos combatentes vindos e formados em Portugal, profundamente marcados pela coacção ao livre-pensamento, norma no Portugal daquele tempo, do outro perfilavam-se jovens nascidos ou criados em Angola (os Euro-Africanos como o autor os apelida e em cujo grupo se enquadra) com uma mentalidade diversa, porque não sujeitos às numerosas restrições experimentadas na metrópole. Já dominados pelo medo na terra natal, o seu posicionamento num palco de guerra distante, não raras vezes, não divergia muito desse primitivo instinto de sobrevivência que os impelia a manter a cabeça baixa e a não ter opinião. Os Angolanos, por sua vez, insurgiam-se contra os tiques ditatoriais das patentes superiores, habituadas que estavam a dominar sem contestação. Tentou-se a contaminação, o mergulho no estado de medo em que Portugal vivia submerso, mas em zona operacional, a probabilidade de desmandos ilógicos descambarem em motim, não era absurda pelo que, estancou-se, em certa medida, o absolutismo militar de homens de carácter e moral duvidosos que pretendiam subir na vida com a circunstância trágica da guerra.
Carlos Ganhão denuncia a ausência de humanidade e respeito pela vida humana evidenciados por muitos protagonistas da Guerra em Angola, sobretudo pelos que conduziam a guerra a partir de gabinetes e observando mapas, enquanto toda uma juventude se perdia ou perdia a inocência face aos horrores vividos.
No labirinto de significados ou inexistência deles (até porque uma guerra apresenta sempre como principal motivação a irracionalidade de alguns pela qual uma maioria se sacrifica), o autor conduz o leitor ao longo dos dois anos de duração da sua comissão, nas memórias mais genuinamente escritas que já tive oportunidade de ler. Trata-se de uma referência histórica sobre um período com tanto ainda por desvendar.
Retirem-se as máscaras, chegou o momento da Verdade. Sem medos.

Domingo, Janeiro 06, 2008

"Império à Deriva - A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821" de Patrick Wilcken

Wilcken, Patrick, Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821 (Empire adrift – The Portuguese Court in Rio de Janeiro 1808-1821), Civilização Editora, Tradução de António Costa, 2005.

Só após a leitura de “Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821” de Patrick Wilcken, é que tive a noção da quantidade de informação da maior importância sobre este período da História de Portugal que me era desconhecida.
Foi uma época de muitos perigos, de muitas ameaças externas e internas, de inúmeras intrigas em torno de um regente indeciso, facilmente impressionável que, na sequência de uma intensa urdidura inglesa, cede à ideia da necessidade de partida da família real para a colónia Brasil.
A fuga da família real implicou a fuga conjunta de toda a máquina nobiliárquica, política, servil e administrativa, e um consequente vazio transversal a todos os sectores que compunham a Metrópole.
Vários meses no mar e incontáveis privações passados, a andrajosa comitiva real, aporta ao Rio de Janeiro, mostrando-se, enfim, aos seus súbditos da longínqua Colónia na sua forma mais humana.
Estes europeus recém-chegados deparam-se com um Brasil cujo “tropicalismo” se patenteava em todas as camadas da população e em todos os costumes existentes, tornando o choque civilizacional recíproco. A chegada da Corte produziu alterações imediatas na vida oficial e quotidiana do Rio com a introdução de costumes até então desconhecidos da colónia, mas também na vida que a família real e toda a corte portuguesa conhecera em Lisboa e que, com a mudança de cenário, cessara de existir. A simplicidade, apanágio, do estilo de vida da colónia, converteu-se numa adaptação forçada ao luxo a que a família real se habituara em Portugal.
Acompanhamos o processo de integração mútua entre uma corte demasiadamente dependente de rituais já ultrapassados em outras cortes europeias e uma população diversificada de uma colónia até então distante e naquele momento convertida em Centro do Império.
A par dos acontecimentos caracterizadores da sociedade brasileira de então, o autor retrata o estado de um Portugal à mercê de ingleses e franceses através dos contornos de uma disputa que atingiria o seu auge com a entrada das tropas napoleónicas por três vezes em território português. Os prejuízos sociais, económicos e políticos resultantes deste período único e terrível a um tempo na História de Portugal, são minuciosa e habilmente analisados por Patrik Wilcken.
Para além da figura D. João, Regente e depois Rei com a morte de D. Maria, a Rainha louca, sobressai a amarga e pérfida figura de D. Carlota Joaquina, princesa e depois Rainha. O seu carácter inatamente conspirativo busca sempre, por todos os meios, encontrar a independência vedada às mulheres. D. Carlota comprazia-se em desafiar o instituído por exemplo quando montava a cavalo como os homens ou quando mantinha um séquito de amantes suficiente para se crer que alguns dos seus nove filhos não possuíam proveniência régia. No entanto, era suficientemente ortodoxa no que respeitava ao cumprimento de formalidades ultrapassadas que não deixavam de impressionar a população estrangeira com que se cruzava. A mulher de Junot descreve-a como um exemplo de fealdade feminina, mas é sobretudo o seu carácter desconcertante de alguém que trai o Rei e marido tanto a nível pessoal como político que sobressai e marca esta mulher que aprendera a odiar quando chegara à corte portuguesa com 10 anos vinda de Espanha.
Um relato imprescindível, claro e magnificamente escrito de Patrick Wilken, daquele que é um dos mais significativos pontos de viragem da nossa História.

Sábado, Dezembro 22, 2007

"Breviário das Más Inclinações" de José Riço Direitinho

Direitinho, José Riço, Breviário das Más Inclinações, Edições Asa, 1994.

José de Risso nascera fruto da mentira de um caixeiro-viajante com quem a mãe tivera um único encontro de Amor. O encontro seguinte seria no dia em que alguém o vira afastar-se em passada apressada por entre os castanheiros e os carvalhos que circundavam Vilarinho dos Loivos.
Logo após o seu nascimento, todos os rituais e visitas tradicionais de aldeia decorreram com a mãe já agonizante e logo aí as velhas anciãs da aldeia apontaram a pequena marca vermelha em forma de folha de carvalho que o marcava para a vida. A superstição ditava que tal marca era um sinal de desgraça e que o seu portador atrairia desditas e outros males a si e aos que de alguma forma consigo se relacionassem.
A partir daqui, assistimos ao desenrolar dos pequenos acontecimentos que distinguem a vida de José de Risso da dos restantes habitantes da aldeia de Vilarinho dos Loivos. Os gestos mais simples o demarcam dos outros e porque herdeiro de um conjunto de “mezinhas” ensinadas pela avó que aplica quando solicitado por um vizinho com um problema de saúde que nem médico, nem bruxo consegue curar, José de Risso adquire fama de curandeiro, apesar de pedir aos que o procuram que não seja revelada a sua identidade. Esta capacidade de curar através da combinação de ervas e produtos provenientes da natureza, juntamente com a marca em forma de carvalho que lhe granjeia fama de desgraçado e de abençoado em simultâneo, conduz a sua vida por meandros nem sempre rectos e benfazejos.
De facto, observamos José de Risso envolvido em esquemas menos lícitos com a viúva galega fugida da guerra civil em Espanha, Purisima de la Concepción, e protagonista de uma suposta aparição do noivo morto à louca do Cortinhal, convencida que ficara de que o Crispim a visitava todas as noites no Curral em que a família se vira obrigada a encerrá-la.
O que me parece verdadeiramente fascinante nesta criação de José Riço Direitinho, é o facto de ter compactado numa única personagem um misto de herói e anti-herói. Momentos há em que o leitor se sente do lado de José de Risso, outros em que sente uma repulsa justificada pelos actos pouco meritórios do protagonista. Ele vive como um Cristo e como um Lucífer, tão depressa presta auxilio ao seu próximo, como o despedaça e destrói sem piedade. Parece-me ser, com um toque natural de exagero, uma personificação do Homem, no sentido em que não há homens santos, nem há homens absolutamente maus, aliás, o cerne da questão é que o absoluto não existe. A prática constante do Bem ou a prática interminável do mal não são plausíveis. Cada Homem, cada Ser-Humano vive o seu tempo, o tempo que lhe é concedido agindo com frequência de forma correcta e também errando amiúde. A ponderação é, talvez, a nossa melhor arma para nos julgarmos a nós próprios nesta que é a nossa eterna luta inglória: aproximarmo-nos o mais possível da divindade.

Domingo, Dezembro 09, 2007

"Indomável - Uma Luta pela Liberdade" de Wangari Maathai

Maathai, Wangari, Indomável – Uma luta pela Liberdade (Unbowed), Bizâncio, Tradução de Fernando Dias Antunes, 2007.


Galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2004, Wangari Maathai oferece-nos um auto-retrato despretensioso e, acima de tudo, revelador do que começou por ser uma luta solitária pelo despertar da consciência ambiental no Quénia, seu país de origem, e que rapidamente se converteu num combate pela democracia partilhado por muitos.
Acompanhamos o percurso de vida da autora desde os primeiros anos passados na fazenda do Senhor Neylan, onde o pai trabalhava e por quem o Inglês tinha estima e confiança, até à sua passagem pelo Colégio de Santa Cecília onde a educação católica ministrada pelas freiras italianas exerceu profunda influência na jovem Wangari tendo-se mesmo convertido ao catolicismo, isto apesar de nunca abdicar das suas raízes Kikuyo.
Wangari Maathai torna-se conhecida no Quénia quando o seu processo de divórcio assume contornos de humilhação pública, a partir desse momento basilar, inicia um trajecto como activista a favor da igualdade das mulheres numa sociedade queniana que gravitava somente em torno da figura do homem; como activista ambiental através da fundação do Movimento Green Belt, responsável pela plantação de cinturas verdes em toda a África; e activista a favor da implementação de uma democracia efectiva no Quénia.
Uma das iniciativas mais impressionantes por Wangari despoletadas e por si relatadas no seu livro, está relacionada com a tentativa, por parte do governo queniano, de construção de um edifício de grandes dimensões no Parque Uhuru, considerado o pulmão da cidade de Nairobi. É um exemplo de conjugação de luta ambiental e política e na qual Wangari Maathai se envolveu e envolveu o mundo para salvar aquele espaço verde.
Perpassa pela obra uma ideia da dificuldade em se ser mulher no Quénia e, sobretudo, em se ser uma mulher incómoda, uma mulher doutorada, uma mulher que não se rendeu à vontade dos homens do seu país. Wangari Maathai permaneceu fiel aos seus princípios, tomou a iniciativa em inúmeras questões de importância para o Quénia e permanece insubmissa como sempre, igual a si própria. Indomável.

Domingo, Dezembro 02, 2007

"Uma História do Diabo - Séculos XII a XX" de Robert Muchembled

Muchembled, Robert, Uma História do Diabo - Séculos XII a XX (Une Histoire du Diable), Terramar, Tradução de Augusto Joaquim, 2003.

O levantamento histórico e cultural efectuado por Robert Muchembled na criação do seu “Uma História do Diabo – Séculos XII a XX”, não abrange todas as perspectivas possíveis a respeito do tema, não o esgota num despejar fácil de informação; e, supomos, qualquer autor que se proponha tratar questões tão vastas como aquela que Muchembled trata, deverá, de uma forma ou de outra, acabar por cair na tentação de empobrecer o estudo com informação excessiva. O autor em análise não o faz. Pelo contrário, seleccionou as influências “diabólicas” que lhe pareceram mais prementes, o alcance dos tentáculos do “Anjo Caído”, sendo o resultado final de um rigor organizativo, interesse e exactidão histórica, social e cultural vivaz.
Os pormenores irrelevantes ou de importância menor não têm lugar neste “Uma História do Diabo”. O autor fixa o seu percurso de escrita em harmonia com o percurso evolutivo da figura estudada, o Diabo, com seus avanços e recuos, em concordância com os próprios avanços e recuos da sociedade de cada tempo e lugar que o acolhia, ora como mero símbolo, ora como executor real de uma vontade sobrenatural para além daquela protagonizada por Deus. Um fio condutor, no entanto, percorre toda a obra, uniformizando-a em torno de uma ideia: a de que, curiosamente, a crença em poderes demoníacos provenientes tanto do próprio Diabo como dos seus sequazes, sempre terá estado mais arreigadamente instalada no seio das chamadas classes superiores e em menor escala ao nível das classes mais baixas.
O Diabo como instrumento de controlo e poder da Igreja, como forma de manter fiéis e eliminar de modo legítimo os que se rebelavam contra os senhores terrenos, supostos representantes do poder celestial na terra, tornou-se, enfim, uma arma poderosa ao serviço dos interesses de uma Igreja fragilizada ante a emergência dos “monstros” que ela própria criara, os evadidos da gaiola dourada do catolicismo da época, os denominados hereges. O medo era inteligentemente instigado através da simples noção de “Diferença”, sendo que o incentivo à prática do mal, tal como o entendemos hoje (por exemplo através da denúncia, um acto profundamente pio à época) era uma promessa velada (ou não…) de salvação de penas eternas. Livrar-se do mal pelo mal – era a prática comum daqueles tenebrosos tempos.
Satanás resiste na sociedade europeia por meio de uma série de arquétipos literários com grande peso cultural, contudo, a crença num Ser ou Seres sobrenaturais vocacionados para a prática do mal, não encontra raízes profundas nesta Europa progressista e mais crente na prática do bem do que propriamente no contrário. O contraponto europeu, segundo o autor, é o exemplo americano com as suas práticas e crenças conservadoras em que parece sobressair o conceito de povo escolhido por Deus, destinado que estará em derrotar o mal… Acontecimentos recentes revelam a ressurgência de práticas satânicas ou com pretensões à reaparição de um qualquer mal, colocando à boca de cena a figura suprema do mal mesmo que de modo indirecto. Na Europa o fenómeno sucede de forma diametralmente oposta com o recuo, o esbatimento da influência (seja em que sentido for) do Príncipe das Trevas.
Robert Muchembled guia-nos, como Virgílio guia Dante aos vários círculos do inferno, pela História da Humanidade na qual situa a figura do Diabo como motor de regressões e progressões nas sociedades europeia e americana ao longo dos séculos.

Domingo, Novembro 25, 2007

"Palavras e Sangue" de Giovanni Papini

Papini, Giovanni, Palavras e Sangue (Parole e Sangue), Livros do Brasil, Tradução de Mário Quintana, 2007.

Um ténue fio separa a realidade do mundo de sombras que as personagens de Papini enfrentam neste conjunto de contos que ora nos arrastam para quadros de vulgaridade existencial, ora nos surpreendem com alguma súbita ruptura proveniente de fontes várias e que, invariavelmente, alteram as vidas até então incólumes das figuras emergentes.
A interrupção brusca de uma linha vivencial monocromática é tanto provocada pelo próprio individuo protagonista do conto como por um outro Ser que surge, por diversas vezes, de forma inesperada, assumindo uma dimensão quase espectral, sendo que esta aparição tem sempre o intuito de induzir no núcleo residual do indivíduo retratado um abalo fantástico traduzido em atitudes marginais em alguns casos e auto-punitivas noutros.
O indivíduo é moldado de acordo com os actos por si cometidos ou pelos praticados pelo outro que consigo interage. E este outro pode ser a projecção de si próprio, uma sombra esquiva dificilmente identificável, mas na qual reconhecemos traços da personagem estudada.
Os sujeitos apresentados por Papini são sempre homens vulgares que experimentam a destruição de um mundo que julgavam certo e seguro e que, mediante a acção negativa de si próprio ou de forças exteriores é submetido a uma vontade superior, a uma ordem cósmica que o ultrapassa e que lhe barra o caminho do livre-arbítrio. O seu plano de acção comum é interrompido por acontecimentos adversos que pressentimos serem de natureza transversal, pautados por uma mão invisível que guia os passos inseguros do indivíduo vacilante ante o mundo que o rodeia. O plano superior sobrepõe-se claramente ao pessoal e o Ser desamparado ou é aniquilado ou aniquila. O cataclismo individual é uma fatalidade, a evasão plausível é o castigo auto-infligido ou por entidade superior deliberado.
Para além desta limitação da vontade própria que sentimos nas personagens de “Palavras e Sangue”, tudo o resto é uma humanidade improvável, um tanto ou quanto fantasmagórica porque ausente como humanidade, demasiado automatizada, excessivamente racional. O sangue que se espraia nos textos de Papini é um sangue poluído pelo efeito da palavra deturpada, conduzida a um extremo de racionalidade que não reserva espaço ao pulsar do sangue sensível.

Domingo, Novembro 11, 2007

"A Casa Amarela, Van Gogh, Gauguin e Nove Turbulentas Semanas em Arles" de Martin Gayford

Gayford, Martin, A Casa Amarela, Van Gogh, Gauguin e Nove Turbulentas Semanas em Arles (The Yellow House – Van Gogh, Gauguin and Nine Turbulent Weeks in Arles), Bizâncio, Tradução de Francisco Agarez, 2007.


Tudo começa com um sonho. O sonho de um homem em criar uma comunidade de artistas numa pequena cidade solarenga de província no Sul de França, Arles.
Van Gogh foge do cinzentismo das cidades do Norte, privadas que estavam da luminosidade que queria colorisse os seus dias e a sua pintura. A sua personalidade instável exige a evasão, a renúncia aos locais lúgubres que já calcorreara. Agora, a sua natural propensão para a melancolia impele-o a rumar a Sul onde o aguardam os dourados da paisagem, a genuinidade dos camponeses e dos tipos citadinos nas suas tarefas quotidianas. Este ambiente que o revitaliza e atrai, empurra-o para a criação de um círculo de pintores dispostos a partilhar ideias, cores, temas, experiências, livros, a semear um modelo de esforço profissional conjunto entre iguais com formas diversas de representar artisticamente o real. Vincent almeja o trabalho em equipa que a apreensão dos sabores desconhecidos de outras mentes criativas lhe poderiam proporcionar.
Partindo sempre da premissa segundo a qual ele será o aprendiz do núcleo a nascer, surge uma oportunidade entusiasmante chamada Paul Gauguin. Pintor mais experiente, tinha como agente o irmão de Vincent, Theo. Aliciado pelo ideal de um grupo de “contaminação” de conhecimentos artísticos, assim como pela garantia de instalação numa casa com as despesas pagas (facto que, neste ponto particular da vida de Gauguin, terá tido um peso considerável), Gauguin adia a prometida viagem por várias vezes (mal imaginando o estado de ansiedade que a sua iminente chegada provocava em Van Gogh que entretanto criara as condições para receber o seu companheiro com a compra de mobiliário e roupa de cama), acabando por desembarcar em Arles no dia 23 de Outubro de 1888. Gauguin buscava inspiração e trabalho efectivo que lhe garantisse notoriedade e o aplauso da crítica e dos seus pares.
Havia que produzir e vender. E embora Vincent pintasse em maior quantidade que Gauguin, a sua auto-confiança não era comparável à do pintor nascido no Peru.
Dividiam modelos e paisagens e o contágio ocorria sobretudo neste âmbito. A casa amarela tornara-se um pólo de comunicação artística entre os dois homens, no entanto, a já debilitada saúde mental de Vincent, conheceu um momento chave quando pintava “La Berceuse”. Perturbado pelo pendor congénito para a doença mental que o perseguia e pela vida pessoal que não pudera viver graças às convenções sociais vigentes e também à amadurecida escolha em se dedicar exclusivamente à arte, Van Gogh tem um grave colapso que o leva a cortar uma orelha, afastando em definitivo um já assustado Gauguin que após o internamento de Vincent, nunca mais o voltaria a ver.
A convivência de nove semanas entre estas duas figuras singulares, é relatada com tal mestria que o leitor se esquece que está a ler uma obra biográfica relativa a um período da vida de dois pintores que viveram debaixo do mesmo tecto e percorreram os mesmos locais durante pouco mais de dois meses, e é transportado para um universo quase ficcional na medida em que Martin Gayford faz um relato em simultâneo historicamente rigoroso, mas com uma vivacidade muito próxima do que é mais facilmente atribuível a um romance. Esta última obra do escritor inglês é um belíssimo exemplo de obra de arte literária.

Sábado, Novembro 03, 2007

"Tive de o Matar" de Romana Petri

Petri, Romana, Tive de o Matar (Esecuzzione), Cavalo de Ferro, Tradução de Sandra Escobar, 2007.

Lulu, professora numa prisão de mulheres, lutara para resgatar o marido do mundo de inadaptações em que se achava mergulhado desde ainfância e às quais dava forma através da escultura. O estúdio era um santuário ao qual nem a mulher tinha acesso e quando a curiosidade suplantou a submissão obediente, Lulu depara-se com uma amálgama de desusadas perversões esculpidas pelo homem que tentara salvar. Os fantasmas que o atormentavam, eram exorcizados através daquele conjunto de peças sem vida e Lulu compreende a dimensão do seu fracasso, o fim de um honesto intento de o devolver à vida. A predilecção pelo monstruoso, confirma a sua inaptidão para a “vulgaridade” de uma vida em família.
O presente descreve-nos uma mulher perturbada, atormentada por um passado recente angustiante, esquiva face à realidade palpável de uma vida quotidiana normal e que, num dado momento, começa a ver, a ouvir e a dialogar com Alexandre Magno, Lawrence da Arábia e Ricardo Coração de Leão. A fuga em direcção a uma irrealidade, a uma ficção instigadora dos mais primitivos instintos, afigura-se como a única saída para uma alma em busca de libertação.
Os recuos no tempo, aludem a toda a história pessoal de um casamento cujos pilares Lulu susteve até claudicar ante o peso do perdão impossível. As recordações de uma infância feliz povoada pela presença de uma governanta que tinha tanto de anjo como de bruxa, remetem-na para o feitiço da vontade. Aos dezassete anos Lulu invoca a governanta já morta (como ela fazia em vida, soltando os cabelos e atraindo os anjos vingadores) e pede-lhe que a mulher que tentava, sem sucesso, seduzir o pai, morra, e o seu desejo é cumprido. O impossível não existe. Só o perdão é inalcançável porque a justiça não o permite.
A sua vontade é representada pelas três figuras históricas que lhe aparecem, espectros que incitam a tomar a decisão certa, a praticar o acto de libertação, a resolver-se pela tão ansiada paz.
Os crimes passionais são os mais comuns numa prisão de mulheres e Lulu descobre que as motivações das assassinas têm, quase sempre, um pendor justiceiro. O que as impele a matar quem amam é o seu profundo sentido de justiça.
O medo desaparece. As ruas desertificam-se subitamente como que a dar-lhe passagem para cometer o crime imperfeito. Entra no estúdio do ex-marido adormecido e mata-o com uma sarissa. Agora é o momento da fuga definitiva. As coisas terrenas distanciam-se, Lulu evade-se para o infinito.
E lá, em Babilónia, espera-a o dentista, amigo de infância e verdadeiro Amor.

Domingo, Outubro 21, 2007

"É só um filme - Vida e Obra de Alfred Hitchcock

Chandler, Charlotte, É só um filme - Vida e Obra de Alfred Hitchcock (It's Only a Movie), Bizâncio, Tradução de Fernanda Barão, 2006.

É curioso pensar que a carreira de Alfred Hitchcock no mundo do cinema começou em 1920 como desenhador de legendas para filmes mudos e que o seu primeiro trabalho como realizador em “The Pleasure Garden” (1926) decorreu ainda na era do cinema não-falado.
Antes de partir para os Estados Unidos, país onde viria a realizar os seus mais famosos filmes, Hitchcock realiza cerca de 29 filmes em 13 anos de carreira, ou seja, a sua ida para Hollywood é precedida de uma consolidada reputação sobretudo em Inglaterra. A transição de uma indústria madura e estável no seu país de origem, para uma outra porventura mais aliciante naquele momento em particular (1940), era uma opção natural para um realizador com o prestígio firmado de que Hitch gozava naqueles férteis anos criativos. O primeiro filme americano de Hitchcock é o genial “Rebecca” baseado no romance de Daphne du Maurier tendo como protagonistas a “frágil” Joan Fontaine e o “duro” Lawrence Olivier. Trata-se de uma história que vai ao encontro daquilo a que o grande mestre biografado neste livro designa como a sua “obsessão romântica”, obsessão essa que viria a retomar e retratar vezes sem conta (e que já havia reproduzido tantas outras vezes no seu período britânico).
O percurso ascendente de Hitchcock parece não ter conhecido significativas interrupções e, realmente, até 1976, ano em que dirigiu o seu último filme “Intriga em Família” (“Family Plot”), pode-se afirmar que foi dos raros casos no ramo a que se dedicou, em que foi alcançado um equilíbrio harmonioso entre as obras geniais e as meramente interessantes a ponto de não ser possível apontar uma obra deplorável por si levada ao ecrã.
Um dos aspectos mais interessantes deste livro de Charlotte Chandler é o facto de a autora ter conversado sobre a figura de Hitchcock como homem e como realizador com inúmeras personagens reais (especialmente técnicos e actores) que num momento ou noutro se cruzaram com o realizador e deram o seu testemunho fundamentado nas acções de Hitch. Percebemos que a personalidade e acima de tudo o humor muito particular de Hitchcock nem sempre eram compreendidos da melhor forma o que lhe valeu alguns ódios de estimação sendo que o mais badalado terá sido aquele que Tippi Hedren, a protagonista de “Os Pássaros” e “Marnie”, e sua “nova Diva” depois da partida das suas bem-amadas Grace Kelly e Ingrid Bergman, alimentou numa das mais conhecidas aversões de uma actriz face a um realizador.
Revi um destes dias “O desconhecido do Norte Expresso” (versão americana) e ver aquele homem a colocar uma caixa de violoncelo dentro do comboio, naquela que é uma das suas muitas aparições nos seus filmes, fez-me pensar que a fugacidade dessas suas manifestações (nunca mais de 10 segundos) está em claro contraponto com a perenidade da sua obra sempre revisitável.

Domingo, Outubro 14, 2007

"Basta, Acabar com o genocídio no Darfur e noutros locais" de Don Cheadle e John Prendergast

Cheadle, Don, Prendergast, John, Basta! Acabar com o genocídio no Darfur e noutros locais (Not on Our Watch - The Mission to End Genocide in Darfur and Beyond), Bizâncio, Tradução de Elsa T. S. Vieira, 2007.

Quando o mundo acordou para a realidade do que havia sido o Holocausto – A indignidade dos que foram mantidos vivos e a dos que morreram enquanto viveram, o sofrimento provocado pelas mais variadas formas de tortura e o calculismo com que a solução final foi planeada – a expressão “Nunca mais!” ganhou uma consistência humanitária direccionada ao poder político, bem como ao cidadão comum. Tratava-se de um apelo à eterna vigilância, um apelo à intervenção dos governos e dos cidadãos comuns, à permanente atenção a sinais que indicassem a existência de violação dos direitos humanos em qualquer parte do mundo, contra qualquer povo.
A leitura que hoje vos apresento “Basta! Acabar com o genocídio no Darfur e noutros locais” pretende, precisamente na linha do atrás referido, agitar consciências, chamar as pessoas a agir perante as evidências trágicas transmitidas pelos meios de comunicação social, pelas organizações humanitárias envolvidas na ajuda às populações perseguidas e pelos próprios governos que reconhecem a consistência da informação veiculada pelos seus emissários. Os autores guiam o leitor nas inúmeras possibilidades disponíveis para que uma postura activa nasça ou se consolide na luta pelos direitos humanos no Darfur e noutros locais, na luta pelo fim do lento genocídio organizado pelo governo sudanês e posto em prática pelos janjaweed, as mílicias ao serviço dos propósitos pró-arábes de Cartum.
Segundo Don Cheadle e John Prendergast (Don Cheadle é um conceituado actor que viu despoletar-se em si a necessidade de acção através da participação no filme “Hotel Ruanda” e, de certa forma, simboliza o cidadão comum que até agora assistiu passivamente à tragédia no Darfur; Por seu turno, John Prendergast foi conselheiro da administração Clinton e activista de causas humanitárias sendo, como tal, um profundo conhecedor dos dois lados da barricada), a melhor forma de se conseguir uma acção diplomática concreta e com efeitos palpáveis no terreno, ou seja, consequências na vida constantemente ameaçada dos cidadãos não-árabes no Darfur, é impelir o cidadão comum a um activismo humanitário mais ou menos intenso, mas sempre tendo em consideração que é através da pressão de organizações, associações, congregações e movimentos, que os governos despertam para a urgência de aspectos da agenda política que dificilmente poderão ficar em lista de espera. Acreditam os autores que, instando os governantes por nós eleitos a assumir uma posição interventiva em questões que, pela sua gravidade em termos humanos, ultrapassam as fronteiras de um determinado país, algo pode mudar.
A obra incita-nos a fazer algo pelos darfurianos em particular, mas também nos alerta para outras causas prementes como sejam as graves situações verificadas no norte do Uganda, no Congo ou na Somália. As propostas de acção apresentadas são muito americanas, mas a verdade é que são facilmente adaptáveis a um contexto social europeu, português e até, diria eu, aplicáveis a problemas intramuros.

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

"Pura Anarquia" de Woody Allen

Allen, Woody, Pura Anarquia (Mere Anarchy), Gradiva, Tradução de Jorge Lima, 2007.

A “Pura Anarquia” de Woody Allen é-nos revelada através de um punhado de contos desenvolvidos em torno do conceito de anarquia literária, ou seja, um mundo de palavras escritas onde todas as realidades e personagens que as povoam são plausíveis. O autor diverte-se com as palavras, contamina-nos com a sua pura diversão, criando existências alternativas e, sobretudo, personagens que, num exagero risível, nos conduzem, porventura, a galerias de tipos reais por nós já observados no quotidiano. Este livro é uma revisitação ao subliminar de todos os dias.
Cada conto é um universo imenso de possibilidades infinitas apimentado por um “nonsense” que teletransporta o leitor para os locais e situações mais improváveis. E é esta massa de improbabilidades perfeitamente calculadas ou anarquicamente organizadas na sua pureza literária que gera no leitor uma insaciável vontade de habitar, ainda que apenas nos momentos dedicados à leitura, esses mundos que se inserem neste nosso mundo mesmo que de forma pouco visível.
O ridículo, a combinação de tudo com tudo, a confluência de situações e personagens díspares, eis o que Woody Allen consegue realizar com mestria nesta sua obra.

Eis a minha pequena Pura Anarquia:

Woody Allen aterrou uma avioneta por si pilotada no pequeno aeródromo de Trancoso às 14:53 deste Domingo, tendo sido recebido por um grupo de jovens membros da Associação Bibliófila da Paróquia de Marialva em cujas reduzidas instalações o autor efectuará uma muito aguardada palestra sobre a sua mais recente obra “Pura Anarquia”.
Profundo admirador desta obscura região de Portugal e, em particular, da aldeia da Moura Encantada donde, confessou-nos Woody Allen, é proveniente um seu antepassado de nome Martim, sapateiro de sua ocupação, sepultado em campa rasa no antigo cemitério local, aceitou o convite que lhe foi endereçado pela ABPM de imediato. A inédita visita não foi acolhida por nenhum político já que, deliberadamente, nenhum convite lhes chegou às mãos.
Woody Allen passará a noite de hoje no complexo turístico rural da aldeia que se engalanou para o receber apesar dos já poucos habitantes permanentes de Marialva. Allen manifestou o seu profundo agradecimento às gentes simples da aldeia que tão calorosamente o receberam e revelou a sua estranheza pelo facto de Marialva não ser alvo de estímulos de variada espécie ou atenção por parte do poder político. Encontrou uma aldeia em vias de extinção, sem crianças, e prometeu não deixar cair no esquecimento a cultura e tradição milenares daquela que é uma aldeia histórica de Portugal.

Domingo, Setembro 23, 2007

"Ratos e Homens" de John Steinbeck

Steinbeck, John, Ratos e Homens (Of Mice and Men), Editora Livros do Brasil, Tradução de Erico Veríssimo, 2007.

Na América rural dos anos 30, movimentam-se personagens que ocupam os degraus mais baixos de uma sociedade profundamente desigual. É nesta América escondida que os trabalhadores sazonais vagueiam de terra em terra em busca de sonhos distantes, dificilmente realizáveis. É numa América díspar, de oportunidades infinitas para alguns e trabalho quase escravo para outros, uma América composta por ratos e por homens, pela massa trabalhadora que aspira a algo mais e pelos que a subjugam, desejando apenas mantê-la longe do patamar seguinte, é neste país, nesta época que nos surgem George e Lennie, dois ratos-homens que percorrem o país juntos à procura do trabalho que lhes permita juntar o dinheiro necessário para comprarem um pedaço de terra para cultivar e animais para criar. Esse o seu sonho.
Encontramos os dois companheiros em plena fuga devido a um equívoco provocado por Lennie: possuidor de uma força física invejável, Lennie tem um atraso intelectual que lhe não permite discernir entre o que está certo e o que está errado. George é o guardião da integridade do grupo, salvando a sua coesão graças a uma capacidade de reacção rápida, perfeito avaliador do não-entendimento dos outros face à diferença de Lennie. Não é possível explicar um mal-entendido quando tudo aponta para a culpabilidade de um simples de espírito forte como um touro. Ele é, pré-determinadamente, considerado culpado, um proscrito mental sem direito a defesa ou argumentação plausível. Só lhes resta a fuga. E é dela que se socorre George na sua frieza calorosa de protector daquela cândida criança grande, sem compreensão que alcance que simples actos perdoáveis a uma criança, não lhe são aceites a ele.
Obcecado pela posse da terra e de animais de que pudesse tratar (sobretudo coelhos …), Lennie acaba por contaminar George com o seu entusiasmo pueril, apesar deste verbalizar amiúde a sua irritação pelo facto de Lennie lhes arranjar sempre problemas com a sua excessiva inocência. Chegados a um novo trabalho, logo George percebe que têm de se manter afastados da mulher do filho do patrão. E o seu presságio quanto ao papel que aquela mulher iria exercer nas suas vidas, confirma-se da pior forma possível. Em pânico, assustado, Lennie sufoca a jovem e foge (como era hábito nos momentos maus) para um local previamente combinado com o companheiro de viagem. Assim que George compreende os factos apresentados, dirige-se ao local e mantendo no amigo a ilusão de que tudo está bem, de que nada há a perdoar, fala-lhe suavemente sobre o seu sonho comum e dá-lhe um tiro mantendo essa ideia de felicidade nunca concretizada mas suficiente para Lennie no momento da sua morte. Perante o iminente linchamento de Lennie, o gesto de George é um acto de misericórdia, a piedade que só um amigo podia demonstrar.
E nunca mais fugiram.

Domingo, Setembro 16, 2007

"1791 - O Último Ano de Mozart" de H. C. Robbins Landon

A versão mais divulgada ao leigo interessado da vida e obra de Mozart é aquela com que nos deparamos no excepcional filme de Milos Forman “Amadeus”. Assim sendo, iniciei a minha leitura de “1791 – O Último Ano de Mozart” com algumas ideias pré-concebidas apesar de adivinhar o toque de exacerbação romanceada que aquela representação da vida do compositor encerrava.
H. C. Robbins Landon é um reputado estudioso de Wolfgang Amadeus Mozart guiando-nos nesta sua obra, ao último ano de vida de um dos génios maiores da música de sempre elaborando persistentes referências aos aspectos mais debatidos e relevantes da sua vida como sejam as circunstâncias da sua morte, a composição do Requiem ou o verdadeiro papel da mulher Constanze na sua vida. Tudo confluindo no fatídico ano que assiste à sua prematura morte.
António Salieri, Kapellmeister e compositor de ópera da corte imperial, nutria, parece inegável, uma imensa inveja face ao talento de Mozart; também sabemos que o sentimento prevalecente do nosso retratado em relação a Salieri era de frieza e indiferença e é do nosso conhecimento que o compositor italiano, no leito de morte, confessara a seu filho que envenenara Mozart. Por muito que se tratasse de um delírio de moribundo corroído por alguma espécie de culpa “menor”, a verdade é que esta versão foi a mais difundida e ainda hoje permanece como provável. Uma outra teoria aflorada é a da conspiração maçónica relacionada com a composição de “A Flauta Mágica”, ópera repleta de menções e símbolos maçónicos a que os seus companheiros de loja, bem como toda a estrutura da maçonaria, não terão considerado como particularmente apropriado. Robbins Landon rejeita estas teses de morte não natural de Mozart e apresenta ao leitor um estudo espantoso da autoria de Peter J. Davies sobre o historial clínico de Mozart ao longo de toda a sua vida (e pode-se dizer que foi acidentada no que à saúde diz respeito) e a conclusão final é a de que Mozart morreu do seguinte: “Infecção por estreptococos, síndroma de Shonlein-Henoch, insuficiência renal, flebetomias, hemorragia cerebral e broncopneumonia terminal.”. Temos, então, uma abordagem racional e perfeitamente fundamentada, comprovando a morte natural do compositor austríaco.
H. C. Robbins Landon dedica igualmente muitas páginas à árdua composição de obras como “A Flauta Mágica”, “A Clemência de Tito” e, sobretudo, o “Requiem” cuja história envolta em mistério até há pouco tempo, originou as mais fantasiosas suposições para as quais o próprio Mozart terá contribuído. Sabia-se que num certo dia um desconhecido batera à porta da casa dos Mozart e encomendara o Requiem a mando de alguém que preferia permanecer na sombra pelo valor que Mozart pedisse. Trabalhou dia e noite até à exaustão e, a dado momento, convenceu-se, de que estava a compor o Requiem para si próprio, a morte materializara-se naquele mensageiro para o conduzir a ela através da sua derradeira obra inacabada. Hoje sabemos que a encomenda fora feita por um nobre que perdera a jovem esposa e desejava eternizar a dolorosa perda a que fora sujeito em todos os aniversários da sua morte através dessa composição exclusiva.
Robbins Landon analisa também a figura e personalidade de Constanze Mozart. Denegrida ao longo de séculos, o autor tenta reabilitá-la publicando cartas e auscultando acções protagonizadas por Constanze indiciadoras de sagacidade, inteligência e um profundo instinto de sobrevivência.

Domingo, Setembro 09, 2007

"O Senhor Ventura" de Miguel Torga

A Senhora Professora Marília, minha muito querida, única e insubstituível Professora primária, é transmontana. Recordo-me dela como uma mulher de quarenta e tal anos com um cabelo castanho claro muito bem arranjado, sempre vestida com aquela bata branca que a tornava mais angelical a nossos olhos.
Estaríamos talvez na 2ª.Classe quando a Senhora Professora Marília nos começou a falar de Miguel Torga. Dizia-nos que também ele provinha de Trás-os-Montes como ela e certo dia, pegou num livrinho que tinha entre mãos e leu-nos um conto de nome “Natal”. Ouvir aquela história tão bem escrita por Torga e tão bem contada pela minha Professora, deixou uma marca que nunca se apagou em mim. Terá sido o meu primeiro despertar consciente para o mundo da literatura. Passaram-se anos e já no Liceu, através de uma Professora de Português também única e insubstituível, chegaram-me ecos desse autor que tão boas recordações me trazia. E ler por mim o conto “Natal” foi uma experiência comovente, no fundo, a menina curiosa que, sentada na sua carteira de madeira ouvia atenta e reverentemente a sua Professora, estava dentro de mim mas a assumir posição activa na leitura.
Hoje trago-vos Miguel Torga mas através de “O Senhor Ventura”, um belíssimo conto realista que, forçosamente, aguça a nossa noção de Portugalidade. Embora a personagem Senhor Ventura seja quase um cidadão do mundo pela constante necessidade de mudança que experimenta (é um viajante inveterado que calcorreia e se fixa em terras tão remotas como a China), não deixa de retornar ao ponto de origem, o seu Alentejo dourado ao qual volta munido de mais um sonho (mais um entre os muitos que o acompanharam) e no qual acaba por morrer.
Ele é Português e sê-lo e assumi-lo em qualquer parte do mundo, apesar da adversidade, dos amores falhados, da irreparável perda de um amigo, é algo que jorra da obra e nos contamina com a mensagem de que a fuga às origens é sempre temporária, nunca definitiva.

Domingo, Agosto 19, 2007

“Brando – Canções que a minha Mãe me ensinou” de Marlon Brando & Robert Lindsey

Um mito que se auto-desmistifica. Esta talvez a melhor síntese das 510 páginas de História(s) da vida de um dos mais proeminentes ícones do século XX: Marlon Brando.

Numa fase já adiantada da sua vida, Brando decide-se pela escrita destas despretensiosas “memórias” coadjuvado por Robert Lindsey. A estratégia, o plano organizacional da narrativa resume-se a um desnudamento da pessoa Marlon Brando perante o leitor, resultando desta aparente falta de estrutura um conto intimista, uma quase conversa entre amigos, uma confissão de algo que nunca se ocultou, mas que de igual forma não se propagandeou.
Brando assume-se como um actor acidental. Depois de expulso da academia militar, ruma a Nova Iorque e inicia uma carreira que, segundo o mesmo, teve para si um significado meramente prático, ou seja, representava para ganhar dinheiro e, com o passar dos anos e com o incremento da sua reputação como actor, era uma forma de, trabalhando pouco e em curtos espaços de tempo, ganhar muito dinheiro. Projectos houve que o interessaram e reconhecia talento em alguns dos realizadores e actores com quem trabalhou, no entanto, o mundo do cinema em si e a futilidade que essa Hollywood de então transluzia, depressa o fizeram despertar para o que realmente interessava. Não se deixou cegar pelos reflexos dourados da vida esplendorosa que lhe era oferecida e, em contrapartida, voltou-se para o combate de causas que o afectavam particularmente.
Assim, pouco depois de chegar a Nova Iorque, despertou para a condição dos judeus. A II Guerra Mundial terminara com a chacina dos judeus europeus e Brando reconhece no exemplo desse povo sem terra, a coragem e a inteligência cultural que detecta nos judeus Nova Iorquinos, seus mestres na compreensão de todo um universo cultural que lhe era totalmente desconhecido.
A tomada de consciência que se seguiu foi direccionada para a situação vivenciada pelos negros americanos. O antigo rapazinho proveniente do Nebraska agora feito homem, desempenhou um papel activo na defesa dos direitos cívicos dos negros mas compreendeu que, apesar de solidário com a sua causa, “Havia limites para a empatia; era-me impossível vestir a pele de um negro. Estava determinado a juntar-me à sua batalha, mas era um estranho e sê-lo-ia sempre.” simplesmente porque “a minha vida fora protegida enquanto pessoa de raça branca”.
Por último, dedicou-se à defesa dos direitos dos índios nativos americanos que, na sua óptica, fora um dos povos mais espoliados e negligenciados na História da Humanidade e cuja condição actual (à semelhança dos negros) não estava resolvida. É pungente a apologia que Brando faz dos nativos americanos, vítimas de um genocídio, de um ardil que tinha como único fim a sua extinção, sobreviveram cerca de 240 mil dos 7 a 18 milhões que existiam quando Colombo chegou ao novo mundo.
Um homem de causas, de gostos simples, mas que apesar da aparente normalidade, nunca se conseguiu libertar em absoluto de uma infância traumática resultante do alcoolismo dos pais. Apenas nos últimos anos da sua vida conseguiu viver sem consultas psiquiátricas, repousando na tranquilidade meditativa da sua paradisíaca ilha do Pacífico.

Domingo, Agosto 05, 2007

"Os Crimes do Lago das Tristezas" de Erin Hart

Devo confessar que o que me induziu a ler “Os Crimes do Lago das Tristezas” foi a poeticidade do título e da capa, na verdade, procurava um policial e aproveitei a deixa poética.
Uma patologista americana, Nora Gavin, desloca-se a uma pequena cidade irlandesa para analisar um corpo encontrado numa turfeira por um grupo de arqueólogos e acaba descobrindo um outro corpo de origem mais recente, apontando todos os indícios para um crime violento com possíveis implicações ritualistas.
Entretanto outros assassínios são cometidos e é, inevitavelmente, estabelecida uma ponte entre os crimes que sucedem em torno daquele local havendo algo em comum a unir aquelas existências que se vêm a revelar atormentadas.
Existe igualmente um paralelo entre aquele primeiro corpo encontrado na turfeira, proveniente de uma época remota em que os povos que habitavam a região faziam oferendas às divindades que regiam as suas vidas, divindades essas que segundo as crenças da época determinavam os castigos a aplicar ao povo, uma ira que poderia ser aplacada com sacrifícios humanos adequados, e os corpos que são descobertos milhares de anos depois com sinais de violência ritual induzindo a uma primeira conclusão de retoma de tradições há muito abandonadas.
O que sobretudo me interessou nesta obra foi a visão de um local aparentemente incorrupto revelar-se, à medida que a investigação dos crimes avança, um covil de segredos e invejas profundos, enraizados numa comunidade fechada em que a diferença, a descrição são tidos como produto de qualquer espécie de perturbação mental. Na realidade, reforça-se a ideia de que não há lugares puros, nem lugares livres de espíritos inquietos. Os espaços confundem-se com as pessoas e se é verdade que os contaminamos, não é menos verdade que os espaços deixam a sua marca em nós, é uma contaminação recíproca que pode deixar um sinal de luz, como um trilho de tristezas.
Nesta obra os rejeitados são iluminados e inocentados, no fundo, revelam-se os únicos capazes de ser felizes; os outros, os considerados normais, afogam-se numa incontornável tristeza interior.

Domingo, Julho 08, 2007

"Jaime Bunda, Agente Secreto" de Pepetela

Um agente secreto estagiário que não levantava a bunda volumosa de uma cadeira a um canto das instalações dos serviços secretos angolanos há dois anos, encostado a esse nada fazer por imposição de Chiquinho Vieira que o aceitara por não ter alternativa (perante a insistência do Director Operacional, primo de Jaime Bunda), eis o herói, ou melhor, o anti-herói desta tragicomédia que desvela o que de mais contundentemente negativo se encontra naquela Luanda ficcional que se confunde, obviamente, com a Luanda real.
Jaime é-nos descrito como um desajeitado jovem cuja proeminente bunda se apresenta como a sua mais saliente característica. Menosprezado pelos colegas do “Bunker” [nome atribuído a esta temida agência secreta angolana na qual Jaime Bunda se (des)integrava], dedicava-se exclusivamente a observar os passantes do seu campo de visão e a tirar ilações (sempre baseadas nos seus “profundos” conhecimentos da ficção policial, sobretudo de origem americana) sobre o muito que decorria em seu redor. Perante esta malograda rotina, ninguém esperaria que Jaime fosse chamado pelo chefe Chiquinho para que o intrigante caso da violação e assassinato de Catarina Kiela fosse por ele resolvido.
O agora agente secreto no terreno segue as pistas possíveis provenientes de testemunhos vagos e usufrui de um novo estatuto nunca antes experimentado mediante o qual se nos torna claro que a ingenuidade (mas não pureza) da personagem só o poderia conduzir a deslindar um crime por mero acaso… e é o que sucede, embora não resolva o mistério para o qual havia sido incumbido, mas um outro que, entretanto esbarra no seu caminho. Jaime Bunda inicia a investigação de um dado crime e acaba resolvendo um outro de que ninguém sequer suspeitava. Este herói acidental vê-se confrontado com uma rede de falsificação de kwanzas que tende a prosperar graças à colaboração de um alto funcionário do próprio “Bunker”, um intocável que é o alvo inicial das investigações de Jaime a propósito do assassinato da menina de catorze anos e que se revela ser um protegido do Director absoluto do “Bunker”, Ser nunca avistado por quem quer que fosse, habitante de desconhecidas catacumbas que, garantiam, lhe haviam aclarado a cor da pele pela ausência de luz natural.
A revelação de que a sociedade angolana se reveste de contornos obscuros mas por demais claros, surge-nos com um sentido de humor que torna a obra não tanto de cariz denunciatório, repousando mais a sua natureza na informação sempre com um toque de ironia. E tanto assim é que o final do livro coincide com a resolução de Gégé, irmão mais novo de Bunda, em ser jornalista, prometendo nada esconder do povo e tudo denunciar em favor do povo. Jaime, por seu lado, lastimosamente reconhece que nunca poderá progredir na carreira tendo um irmão contestatário público e profissional.
Termina o livro com esta esperança e promessa de que a verdade acabará algum dia por prevalecer, após o triunfo total da dissimulação a que assistimos ao longo da obra, senão vejamos: O assassino de Catarina, filho de um poderoso, acabaria ilibado, e a quadrilha dos kwanzas, oficialmente constituída apenas por estrangeiros e angolanos de menor importância fora desmantelada com o alto funcionário dos serviços secretos e principal responsável do crime a congratular os agentes que resolveram o caso de que ele fora mentor.

Segunda-feira, Junho 25, 2007

"A Catedral do Mar" de Ildefonso Falcones

Barcelona. Século XIV. Uma cidade que prometia a liberdade aos servos da gleba foragidos dos despóticos senhores feudais que impunham e punham em prática leis tão inumanas como o direito de se deitarem na primeira noite com a noiva do servo recém-casado. E, ao reclamar esse seu “direito” perante Bernat Estanyol, o Senhor de Bellera despoleta a revolta do súbdito e sua subsequente fuga com o filho rumo à cidade prometida.
Uma vez na capital da Catalunha, Bernat Estanyol tem como única preocupação passar despercebido já que, Llorenç de Bellera, não permitiria o delito sem castigo de um seu servo. A conquista da liberdade para si e para o filho torna-se o seu único objectivo e, no entanto, os maiores obstáculos provêem do seio da sua própria família que conquistara honrarias e cargos de relevo na comunidade barcelonesa e para quem os dois hóspedes/ escravos eram um embaraço. Havia que os manter escondidos, havia que lhes retirar a dignidade por meio de todos os meios.
A conquista da liberdade, após um ano e um dia de permanência em Barcelona, não trouxe a tão desejada paz e, na verdade, Bernat e Arnau continuavam a ser prisioneiros de uma sociedade desigual, tal como no campo, simplesmente com a diferença de serem cativos da vontade dos poderosos citadinos. E quando a fome grassou, Bernat junta-se a uma rebelião, torna-se o líder inesperado da mesma e acaba enforcado em praça pública e exposto como exemplo. Este sacrifício que, bem sabia, havia sido feito em seu nome, endurece Arnau, fá-lo crescer vinte anos num só dia e também ele sacrifica e honra a renúncia do pai à vida através das chamas purificadoras… para que ninguém contemplasse o cadáver de um Homem bom como se de um biltre se tratasse.
A Igreja em construção de Santa Maria de La Mar, acompanha todo o romance, e é nos quase sessenta anos que dura a sua edificação que decorre a história de “A Catedral do Mar” sobrepondo-se as idades da Igreja às idades de Arnau Estanyol. Ele é bastaix, carrega pedras mais pesadas que ele próprio desde Montjuic até Santa Maria de la Mar, trata a Virgem de La Mar por Mãe, combate pelo exército catalão tendo por arma apenas o seu instrumento de trabalho, como cambista e homem rico faz importantes doações em benefício da sua bem amada Catedral do Mar que lhe abre as portas para o mundo além subserviência… Arnau encontra a liberdade que o pai tanto buscara naquele espaço aberto que o acolhera sem o questionar, sem apontar o seu aspecto andrajoso. Na verdade, aquela igreja iluminada pelo mar, pelo céu imenso, é o símbolo da luta pela sobrevivência, quer física, quer moral, ela é palco de luzes e de sombra, feita pelo povo, para o povo.
Nunca sentira uma personagem confundir-se tanto com um espaço. A Igreja de Santa Maria de la Mar é Arnau Estanyol. Arnau Estanyol é a Igreja de Santa Maria de la Mar.
Vencidas as trevas inquisitoriais, eis que a Igreja é finalmente concluída e, tal como no primeiro dia do seu encontro, a Virgem de la Mar e Arnau reconhecem-se.

Sábado, Junho 09, 2007

"Uma Vida de Jesus" de Shusaku Endo

Esta vida de Jesus, apresentada pelo autor católico Japonês Shusaku Endo, não é um roteiro dos lugares sagrados por onde Cristo deambulou e pregou a palavra de Seu Pai, nem tão pouco uma viagem escrita que nos revele informações secretas nunca antes afloradas. Endo segue os passos das Sagradas Escrituras usando-as como fio condutor da história mais misteriosa de todos os tempos, história essa que lhe estimula o desassossego a partir do qual o autor relata os eventos que teceram a vida de Jesus, tal qual eles são contados pelos quatro evangelistas, mas com a particularidade de tecer comentários pessoais à forma e ao conteúdo das quatro crónicas distintas (e até certo ponto desiguais) referentes ao Carpinteiro de Nazaré.
Menciono Jesus como um carpinteiro de Nazaré na medida em que Shusaku Endo defende a tese de que em vida, e apesar de reunir discípulos e seguidores da sua pessoa, Jesus ter enfrentado uma onda de animosidade, tanto da parte daqueles que o acompanhavam ocasionalmente, como da parte dos que caminhavam sempre a seu lado e se integravam no chamado grupo dos discípulos, aversão esta que terá desencadeado uma total descrença de que se trataria do tão aguardado Messias. Nem seria esse o seu objectivo.
Segundo Endo, apenas na morte poderia emergir a crença de que aquele não era um Homem vulgar e muito menos um louco. A sua missão não era agir politicamente contra o poder romano ou contra a tirania dos governantes locais entronizados. A Sua revolução era de outra natureza e nem o povo, nem os próprios discípulos estavam preparados para alcançar o que Jesus de facto buscava nos Homens. Só com o seu suplício, ao qual não resistiu por um momento que fosse e que aliás acolheu como se de um sopro de vida se tratasse, seria possível encontrar a salvação da humanidade. Alguns homens iluminados pela brutalidade e pelo Amor que aquele acto sacrificial implicava, puderam transformar uma morte aparentemente inglória e sem significado, no momento de viragem da Humanidade. Esses embaixadores do Cristo iniciaram um périplo que dura até aos dias de hoje e que assenta em pressupostos questionáveis e louváveis em simultâneo. O testamento moral de Jesus terá sido profanado (as versões são demasiadas), algumas vezes mal interpretado ou interpretado da forma que mais convinha a um punhado de gente, no entanto, a maior verdade resiste, perdura e não deixa de ser a mais árdua de colocar em prática pelo Homem: A capacidade de amar. Uma verdade que não é efectiva, não é absoluta, por ela há que saber lutar.
Seja porque se acredita piamente no que aconteceu há dois mil anos naquele local, seja porque não acreditando, sentimo-nos impelidos a questionar o que moveu na realidade aquele Homem, esta é uma História actual e que deve ser revisitada sempre com renovado interesse.

Sábado, Maio 26, 2007

"O Coração das Trevas" de Joseph Conrad

Marlow é um marinheiro experiente e loquaz que, ao embarcar em mais uma viagem, relembra acontecimentos passados decorridos quando havia sido capitão de um barco pertença de uma companhia que “explorava” uma indeterminada região do interior de África.
Toda a narrativa (contada por um dos ouvintes de Marlow) é dominada pela figura fisicamente ausente de Kurtz, chefe de um posto longínquo da companhia, homem elogiado e admirado por todos, referido sempre como um génio com grande futuro no seio da empresa. Progressivamente subjugado pelo consenso face à imagem de Kurtz, Marlow vê-se absorvido e contagiado pelo fascínio que aquele “ídolo” lhe suscita.
Quanto mais se aproxima do coração do continente negro, em busca da lenda viva em que se convertera essa espécie de Messias, mais se agita o seu iluminado coração ante a iminente presença de Kurtz, personagem submersa nas trevas da floresta, afundada no seu próprio coração enegrecido pelas circunstâncias vivenciadas na selva, derrotado pelo crepitar feiticeiro da sua própria vaidade.
Marlow encontra-o prostrado, doente, e o corpo daquele homem, aquele corpo inerte e macilento, materializa-se na voz, a tal voz hipnótica que proferia os espantosos monólogos de que o arlequim russo se recordava com tanta precisão e reverência.
Kurtz exerce um poder primitivo sobre todos quantos o rodeiam e digo primitivo porque o deslumbramento, a crença absoluta no dom de liderar apenas com o olhar, apenas com a presença, apenas com a voz mesmerizante, o não questionar sequer a sua existência ali naquele momento, toca tanto os europeus que com ele privam ou que dele simplesmente ouvem falar (como é o caso de Marlow que o admira mesmo antes de o conhecer), como os indígenas que a ele se submetem como a um deus dos antípodas, incorpóreo, intocável, eterno.
Não temos acesso a um único dos brilhantes monólogos de Kurtz, tudo o que sabemos a respeito da figura quase mitológica que lidera o posto mais inóspito da companhia, é-nos transmitido por aqueles que o conheceram, pela sua noiva no final da narrativa e sobretudo, por Marlow, aquele com quem se cruzou apenas nos momentos finais da sua vida, mas que, nessa breve troca de olhares e reduzidas palavras, difunde o essencial para se converter na pessoa que melhor o conheceu e compreendeu, convertido à sua imensa superioridade.
A contaminação pelo horror, consuma-se na passagem da herança escrita do desterro suportado, da loucura experienciada, para as mãos do marinheiro fechado no compartimento mais obscuro do coração daquelas trevas preparadas ou não para a luz da revelação.

Domingo, Maio 20, 2007

"O Sentido da Noite - Uma Confissão" de Michael Cox

História narrada na primeira pessoa, “O Sentido da Noite – Uma Confissão”, relata a cruzada de Edward Glyver para repor uma verdade cuidadosamente escondida e que lhe é revelada ao remexer papéis deixados pela mãe escritora falecida. Glyver reúne as peças de um intrincado puzzle e conclui que a identidade que julgava ser a sua, intocável e autêntica, era na realidade uma identidade criada, produzida artificialmente para que a sua origem nunca fosse descoberta.
Tudo começa com um acto de vingança por parte da verdadeira mãe de Edward, Laura, Lady Tansor. Casada com um dos nobres mais ricos de Inglaterra, pediu a Lord Tansor que uma dívida contraída pelo pai fosse perdoada; perante a recusa do marido e subsequente morte do pai, Laura decide ocultar a gravidez do filho primogénito por que o Barão tanto aguardava viajando para França na companhia da sua grande amiga e coadjuvante na intriga perpretada, Simona Glyver. Concebe o filho em França, entrega-o aos cuidados extremosos de Simona e parte para Evenwood sem a criança.
Edward cresce como Edward Glyver e apenas reconhece como mãe Simona Glyver que escreve romances para os sustentar após a morte de um marido ausente. É um estudante brilhante mas, impossibilitado de ingressar na universidade devido a uma calúnia montada pelo suposto melhor amigo, Phoebus Rainsford Daunt, Edward encontra uma alternativa à vida académica de que se vira bruscamente privado e que o leva a frequentar círculos bibliófilos sobretudo na Alemanha e a compilar informação e conhecimento suficientes para manter longas discussões e troca de opiniões com os mais eruditos bibliófilos.
Ao morrer, Simona deixa alguns papéis aos quais Edward se agarra numa tentativa de prender a memória da mãe, mas rapidamente compreende que algo de errado e sobretudo de dúbio relativamente às suas origens se apresentava nesses escritos e mesmo em algumas recordações débeis que ele próprio retinha e que dificilmente conseguia explicar.
Ao descobrir a verdade acerca das suas origens nobres, Edward lança-se numa cruzada de busca de provas que permitam a Lord Tansor reconhecê-lo como seu legítimo herdeiro. Sobretudo porque é-lhe comunicado que Lord Tansor, após ter perdido toda a esperança no nascimento de um herdeiro através de um segundo casamento consumado após a morte de Laura, nomeara como seu sucessor nem mais nem menos que Phoebus Rainsford Daunt, entretanto “adoptado” por Sua Senhoria como o herdeiro que nunca tivera.
O objectivo de Edward torna-se duplo: herdar o que é seu por direito de nascimento e retirar ao seu rival aquilo que mais uma vez lhe queria roubar.
Depois de peripécias várias que incluem a traição amorosa para recuperação de papéis na posse de Edward e que lhe dariam Evenwood, a mansão das suas recordações de menino e centro do mundo Tansor, Edward percebe que nunca mais recuperaria o que era seu (e chega a confrontar o Barão, seu pai, com os factos mas já sem provas, sendo naturalmente escorraçado como farsante e vigarista) e inicia um ciclo de vingança seu que culminaria com a morte de Phoebus, o homem que lhe tirara tudo. Mas antes de matar Daunt, Edward desfere um golpe mortal num homem inocente, apenas para saber se era capaz.
Assistimos à transformação de um homem bondoso num assassino, é certo que acicatado pelas circunstâncias em que se desenrolara a sua vida, mas assistimos igualmente a um homem que se vinga do seu inimigo mas que vive eternamente atormentado pela morte que infligira a um inocente transeunte num beco da Londres vitoriana.

Domingo, Maio 06, 2007

"Ética para um Jovem" de Fernando Savater

Em “Ética para um Jovem”, Fernando Savater adopta um estilo ou forma de escrita quase epistolar na medida em que existe um destinatário sempre presente e vincado pelo autor ao longo da obra, o seu filho adolescente. Contudo, o leitor não é conduzido numa viagem de monólogo, mas de quase diálogo já que vezes há em que a “voz” do filho ausente/presente parece chegar-nos com impressionante nitidez. E é, de facto, de uma viagem que se trata quando nos debruçamos sobre este livro (e não será a leitura de qualquer livro uma viagem?), mas qual o destino deste périplo ao mundo da ética? Qual o objectivo ético de um livro sobre ética? Apoiando-se na ideia de Wittgenstein segundo a qual não era possível escrever um verdadeiro livro de ética, Savater acaba questionando o propósito do livro e alarga com esta indefinição o campo de trabalho desta área de saber que não é, de forma alguma, pertença exclusiva das ciências humanas, mas antes pertença exclusiva do género humano, a característica essencial de distinção entre Homem e outras espécies animais.
O autor confronta-nos e confronta o seu jovem discípulo /filho logo no capítulo primeiro com o objecto da ética que é, simultaneamente, a sua finalidade, a sua meta última, a liberdade. E como a liberdade com tudo o que abarca (e este tudo é mesmo tudo, ou seja, a totalidade das acções e operações humanas, aquilo que nos permite viver e fazer os outros viver) engloba não só o sujeito e a sua individualidade, mas também a interacção dele com os outros, a influência que o homem pode ter na sua e na qualidade de vida dos que o rodeiam, podemos com alguma segurança afirmar que, e seguindo a perspectiva fornecida por Fernando Savater, a ética trata da liberdade e, por isso, será o mais completo dos saberes, uma espécie de ciência das ciências.
“A ética é apenas o propósito racional de averiguar como viveremos melhor.”, afirma o autor depois de partir de um exemplo retirado da Bíblia, a história de Esaú e Jacob. Aliás, uma “técnica” utilizada por Savater por forma a tornar a mensagem a transmitir mais facilmente perceptível, é precisamente começar por ilustrar e só depois resumir a ideia a retirar da “imagem”. Desloca o seu discurso no sentido de tornar a leitura límpida, sem enigma nem mistério possível face ao que se pretende dar a conhecer e sobretudo tendo em consideração o destinatário principal da obra, um jovem de quinze anos. Quanto à citação com que iniciei este parágrafo, ela surge no sentido de especificar, esclarecer a noção de liberdade apresentada e que se atém a três outros conceitos muito vincados sem dúvida porque fundamentais para demarcar o terreno “real” da liberdade e são eles: ordens, costumes e caprichos. Também aqui desencadeia a reflexão a partir de um exemplo, desta feita da autoria de Aristóteles para realçar o dilema que por vezes constitui tomar decisões e qual o posicionamento adequado de quem as toma de acordo com as circunstâncias específicas em que se encontra. E é neste contexto que “liberdade é decidir” mas também darmo-nos conta do que fazemos, o que por vezes nos convém a nós pode não convir aos outros. Ordens podem inibir a liberdade, mas se se disser “Faz o que quiseres”, será este imperativo uma ordem inibidora? Os costumes, por sua vez, situam-se num universo relativamente rígido em que impera a tradição, o testemunho das gerações passadas que transmitem um conjunto de valores passíveis de serem assimilados ou não pelos jovens, é uma questão de escolha. Os caprichos por sua vez parecem implicar uma maior dose de liberdade, no entanto, geralmente associa-se o capricho a um estado egoísta provisório e beneficiador de uma liberdade própria exacerbada, levada a um extremo, mas porventura inibidora das liberdades alheias.

Domingo, Abril 22, 2007

"A Lentidão" de Milan Kundera

A degustação do tempo. A sua recusa como passagem transversal de vacuidade. A sua aceitação enquanto usufruto de uma totalidade hedonística. Aqui a vida é composta por generosas movimentações xadrezísticas, cerebrais e emocionais, abstractas e concretas, e é nesse tabuleiro pleno de ressaltos espaciais e temporais que as personagens díspares, incoerentes e profundamente humanas de Kundera se deslocam sem nunca na verdade se deslocarem. Existências longínquas entrecruzam-se sem nunca se cruzarem numa real conjugação de experiências menores ou maiores. E é nesta estaticidade que também é uma circularidade que reside a génese da obra... os tempos e os espaços apenas se tocam, apenas se reconhecem e saúdam graças à lentidão, esse conceito abstracto que parece um rotundo nada, mas que se prolonga em reticências múltiplas até desembocar no concretismo absoluto e talvez por isso mesmo, absurdo. As “peças” humanas estão dispostas numa ordem imperceptível, aleatória, mas lógica e apenas os sentidos desbaratados pelos desafios emotivos proporcionados pelo jogo constante, calculado ou instintivo, que as personagens entre si ou dentro de si e contra si próprias disputam, as fará compreender e assimilar, ainda que casual e inconscientemente, a “matemática existencial”, feita de rectas e curvas e equações e adições e subtrações e muita, muita incerteza. Vejamos o que o narrador nos diz a este respeito: «..., esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau da lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento.». E é a memória de um acontecimento com dois séculos que reúne dois homens marcados por um rendez-vous único, irrepetível, logo seguido de desencontro amoroso, da amargura do dia seguinte. O inverosímil encontro dos dois homens pertencentes a épocas distintas, levanta o véu do significado da enigmática lentidão que mais não é, afinal, do que a permanência dos afectos no seu imortal cultivo. A lentidão é plural e solidifica-se em raízes inquebrantáveis de velhas árvores seculares.

Sábado, Abril 14, 2007

"As Afinidades Electivas" de Goethe

Obra redigida na fase madura do escritor alemão, As Afinidades Electivas é, a seu modo, uma tragédia sobre a impraticabilidade do amor que condena os amantes ao desencontro por razões morais, sociais e... cósmicas. O sucessivo adiamento da vivência amorosa é imposto pela conjuntura tirânica que no início do século XIX preside à mentalidade eminentemente aristocrática defensora do casamento entre classes, mas acima de tudo apologista da instituição do matrimónio como sagrada (embora esta posição seja trabalhada pelo autor por forma a colocar em evidência a hipocrisia característica do apregoado mas não praticado). Por isso a manifestação de um desejo de união só (!!!) porque se ama, é acidamente rejeitado como uma espécie de sacrilégio. Não mencionei o vocábulo “tragédia” em vão... com efeito, o elemento trágico interfere de forma definitiva e paira na atmosfera, por vezes aparentemente idílica do romance, desde o seu início com claros sinais premonitórios de acontecimentos dúbios a vir. Goethe escreve, então, uma tragédia sob a forma de romance o que não deixa de ser curioso tendo em consideração a admiração do autor pela tragédia grega, sendo que ele próprio elaborou por exemplo uma Ifigénia em Táurida tida como uma das incontornáveis tragédias da literatura alemã. Uma convivência a quatro converte-se rapidamente não na destruição de um lar como seria de esperar, mas na transição (nunca atingida na sua totalidade) do que se julgava querer para o que indubitavelmente se quer. A tragédia reside na circunstância de que o encontro destas almas gémeas não é durável porque lhes é vedado o acesso à concretização do amor. Um silêncio cúmplice está subjacente à estranha aceitação do adultério debaixo do tecto outrora partilhado por um casal que pensava ser feliz. A “troca” é quase natural até que o mundo exterior se dá conta do perigo que ronda aquela casa e os amantes se afastam, momento a partir do qual se inicia o caminho descendente a percorrer pelas personagens e exposto na segunda parte do livro. Uma estranha força que me ocorre apenas designar de “cósmica” apaga a esperança no triunfo do amor, daí talvez o final místico da obra que mais não é do que, provavelmente, a vitória de uma outra forma de amor... e afinal, o amor não morre com as pessoas. E que mais não é este “regresso” de Ottilie do que uma espécie de deus ex machina típico da tragédia grega?

Domingo, Abril 08, 2007

"A Cidadela Branca" de Ohran Pamuk

Ao escrever “A Cidadela Branca”, Ohran Pamuk “guia-nos” numa viagem metafísica de busca do “Eu” de duas personagens que se confundem numa osmose de semelhanças físicas e psíquicas.
O narrador, um jovem italiano feito prisioneiro pelo inimigo turco, consegue sobreviver graças a uma invulgar capacidade de adaptação e improvisação que o conduzem às mais altas esferas do poder turco da época retratada.
A busca da personalidade de dois Homens possuidores de feições aparentemente idênticas, converte-se numa constante troca de informações sobre as especificidades da vida de cada um (no fundo, aquilo que os distingue verdadeiramente), não os libertando, contudo, da crença de que, a sua semelhança e improvável encontro, se prendem com um desígnio superior não decifrável que os convoca para uma existência a dois de dependência mútua, submetendo-se ao gotejar do tempo e à presença, por vezes insuportável um do outro. O tempo decorre e a cidadela branca, palco de uma batalha fracassada por ambos, é também palco da revelação que os alerta para a necessidade de uma troca definitiva de identidades, aquilo que os salvará da morte certa.
A troca consuma-se e não existe esforço na corporização de uma vida submersa na bruma de um intervalo a partir do qual tudo se alterou, a partir do qual os acontecimentos de duas vidas unificaram-se sem se fundirem. O passado estacou e a fatalidade da revelação manifestou-se com a visão de uma branca cidadela inexpugnável.

Domingo, Abril 01, 2007

"O Pianista" de Wladyslaw Szpilman

Varsóvia é libertada em 1945. Nesse mesmo ano, nessa mesma cidade palco da sua história, Wladyslaw Szpilman escreve a primeira versão de «O Pianista». É dos escombros de um mundo perdido que a sua voz se eleva. Qual o som da solidão?

Wladyslaw Szpilman é pianista na Rádio Polaca em Varsóvia quando, em finais de Agosto de 1939, as tropas nazis sitiam e, por último, ocupam a cidade, ocupação essa que se prolongará até ao final da guerra. Afixada a progressiva supressão de liberdades cívicas e humanas, numa fase inicial, em proclamações com parágrafos especialmente dedicados a judeus (nos quais era garantida a segurança de pessoas e bens) e, mais tarde, assumindo a forma de decretos crescentemente repressivos dirigidos à comunidade judaica em exclusivo, assim estava a ser preparado o terreno para a criação do ghetto de Varsóvia que chegaria a albergar cerca de meio milhão de judeus e que os alemães, num comentário oficial, designaram por «bairro judaico» já que, segundo um jornal do regime, «os alemães eram uma raça demasiado culta e magnânima (…) para confinar até mesmo parasitas como os judeus em ghettos, um remanescente medieval indigno da nova ordem da Europa. Em vez disso, haveria na cidade um bairro judaico onde só viveriam judeus, no qual desfrutariam de total liberdade e poderiam continuar a praticar os seus costumes e a sua cultura raciais. Por razões puramente higiénicas, esse bairro seria cercado por um muro, para que o tifo e outras doenças dos judeus não se propagassem a outras partes da cidade.». Szpilman e a família encontram-se entre os «escolhidos» que são encarcerados no ghetto – o absurdo dessa realidade com aparência de liberdade é sublinhada pelo narrador ao declarar: «Eu saía muitas vezes, para caminhar ao acaso, e encontrava inesperadamente um desses muros. Barravam-me o caminho quando queria continuar a andar e não havia nenhuma razão lógica para me deter» – e é o relato dessa vivência gradativamente precária em conformidade com o plano alemão de eliminação (que macabramente apelidaram de «educação social apropriada») dos «parasitas do organismo saudável dos povos arianos» que o protagonista nos revela, recorrendo à descrição crua de factos sem, no entanto, manifestar ódio face aos usurpadores da sua e de tantas outras vidas. Prefere ironizar como quando lhe é sugerido tocar no casino do comando de extermínio alemão «…, onde oficiais da Gestapo e das SS se distraíam, à noite, depois de um dia cansativo a assassinar judeus.».
O pianista nunca cessa de o ser. Instado por um amigo ou protector a sentar-se frente a um qualquer piano miraculosamente poupado aos efeitos do abandono ou à simples pilhagem, sente os dedos rígidos a «moverem-se com relutância sobre as teclas» e o som parece-lhe «irritantemente estranho» como se também a música, à semelhança daquele mundo em ruínas, se aproximasse do fim. A vinda de cada Inverno, anunciado pela mudança de cor das folhas das árvores da Aleje Ujazdowskie e pelo «vento que soprava mais frio de dia para dia», aliado ao duro trabalho braçal (é um dos escravos que trabalha na demolição dos muros do ghetto), provoca-lhe a ansiedade de quem depende dos dedos para poder pensar numa futura carreira como pianista. Sim, mesmo vivendo na permanente dúvida de quando chegaria a sua vez de entrar nos vagões de gado desinfectados da Umschlagplatz onde partilhara a última refeição com a família, mesmo assim Szpilman pensa num futuro baseado no único bem que lhe resta do período anterior à guerra.
Esta é também uma história de fantasmas, ausências e solidão, e de como dessa absoluta solidão dependia a sobrevivência de Szpilman, dolorosamente consciente da subserviência que deve ao silêncio. E do inverosímil encontro entre a presa e o caçador que, afinal, nada mais era do que um homem deslocado, um homem que corou quando teve que admitir, perante a pergunta do polaco, que era alemão.
Como afirma Andrzej Szpilman no prefácio, o seu pai não é escritor. Mas é a este não-escritor que devemos um retrato desapaixonado, mas não desgarrado, poético a espaços (eis um exemplo: «As penas das almofadas rasgadas entupiam as valetas e encontravam-se por todo o lado: cada sopro de vento levantava grandes nuvens delas, que turbilhonavam no ar como uma densa queda de neve em sentido inverso, da terra para o céu»), da criação e destruição do ghetto de Varsóvia e de como as almas que nele habitavam se tornaram parte da solução final nazi desde o início.
O som da solidão é um comboio que se afasta.