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sábado, fevereiro 10, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - "Sonho de um Homem Ridículo" de Fiodor Dostoievski

Um homem decidido a morrer. Um homem decidido a não amparar a menina que lhe roga ajuda.
Compra uma arma e adormece no cadeirão onde, esperava, o encontrassem morto por sua própria mão no dia seguinte.
Um sonho. O sonho da perfeição humana, do paraíso perdido, corrompido pelo protagonista desta história de redenção. Ele fantasia ser o autor de toda a indignidade humana e essa perspectiva invectiva-o a amar a vida mais que nunca. A querer viver para pregar, para ensinar, a querer passar a mensagem que a ele em sonhos havia sido transmitida. Nunca é tarde para o arrependimento, o caminho da salvação é um percurso interior, um percurso de livre-arbítrio fruto da nossa insatisfação.

"A Submissa e Outras Histórias" - "A Submissa, História Fantástica" de Fiodor Dostoievski

Uma história simples de contornos complexos é o ponto de partida para o relato entrecortado por convulsões de dor incrédula de um marido viúvo há poucas horas.
Desonrado aos olhos dos seus pares (enquanto militar, recusara-se a travar um duelo) e para sempre marcado por esta nódoa na sua existência, refizera a sua vida depois de receber uma inesperada herança. Estabelecera-se como penhorista e apaixonara-se pela jovem de 15 anos que semana após semana se desfazia de tudo o que a recordava da família mais próxima já desaparecida. Propõe-lhe casamento ao saber que as tias a empurravam para um outro homem para benefício próprio.
Apesar de a amar, este é um homem traumatizado pela rejeição e, como tal, oculta a mancha que assombra o seu passado (e o presente, claro) para que, uma vez tendo conhecimento do porquê da recusa de bater-se em duelo, pudesse a mulher ser a primeira a considerar a sua atitude honrosa e não cobarde. No entanto, uma rigidez permanente, um autoritarismo injustificado, provocam o inverso da inicial submissão daquela mulher tão jovem e, contudo, tão madura na percepção da rejeição de que ela própria se sentia vítima. Ela rebela-se, envolve-se com outro homem, descobre a verdade pela boca do inimigo visceral do marido e no fim, perante a complacência de um marido vencido, ajoelhado a seus pés como perante um altar sagrado, a menina tornada mulher, adoece perante a sua incapacidade de submissão. E o que restava a uma mulher não submissa no tempo em que decorre a história? A heroína precipita-se de uma janela e deixa um vazio, apenas um vazio de silêncios no coração insubmisso de um homem que também foi contra as convenções do seu tempo. O abismo esteve próximo para ele numa primeira fase. Foi salvo. Mas a fuga foi momentânea. O destino encontrou-o e enlaçou-o com a aparição e desaparecimento do anjo que jazia morto na mesa da casa comum.

sábado, fevereiro 03, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" – "A Centenária" de Fiodor Dostoievski

O encontro casual com uma mulher de 104 anos que fazia o percurso para casa de familiares parando de soleira em soleira de porta para repousar, despoleta num homem o interesse em saber se a velha senhora chegara de facto ao seu destino e qual o seu destino depois disso.
Realidade e ficção confundem-se, enleiam-se e o leitor aborda o fruto da imaginação daquele homem como se da realidade se tratasse. E porquê? Porque é uma realidade provável e porque há encontros com os quais nos queremos voltar a encontrar, nem que seja no desencontro ou ponto de encontro do mundo sensível com o ininteligível. A fronteira entre ficção e realidade é tão ténue que o fim da pobre centenária, foi aquele que o autor de improviso lhe deu.

"A Submissa e Outras Histórias" – "O Mujique Marei" de Fiodor Dostoievski

Num dado momento da sua queda, um homem nobre de nascimento e agora prisioneiro na Sibéria, recorda-se do momento em que mais amado e protegido se sentira na vida, um momento irrepetível em que um dos servos da gleba da sua família o tratara como a um filho.
Observava-o a lavrar os campos quando ouviu alguém gritar que vinha ali um lobo; o narrador, agarrara-se ao Mujique e este demonstrara aquilo que é designado nas páginas lidas como “instinto maternal” pois, embora soube-se que ali não havia lobos, compadecera-se de tal forma do seu pequeno amo que, nos confins do mundo palpável e nos confins da sua alma, aquele Homem preso a grilhetas, escapara dos muros frios do presídio e encontrara o caminho de casa. Estava em casa.

"A Submissa e Outras Histórias" – "Menino numa Festa de Natal" de Fiodor Dostoievski

O conto mais curto desta colectânea é também o mais impressionante pela dureza e realismo empregues na descrição da existência miserável de uma criança que acompanha a mãe da aldeia natal até à cidade grande em busca de uma vida melhor. A mãe adoece e a criança vê-se à mercê do ambiente que a rodeia, o Inverno russo e aqueles que a rodeiam.
É mal agasalhado e mal nutrido que o menino sai à rua depois de compreender que a mãe sucumbira à doença (embora subsista uma certa ambiguidade nesta situação: quando a criança se aproxima do catre em que está prostrada a mãe e a sente fria pensa, antes de mais, nas condições em que viviam, ou seja, está fria porque está frio).
É Natal e toda a gente é bem vinda em todo o lado menos o menino que, sozinho no mundo, não encontra paz em vida. Recolhido num cantinho de lenha, finalmente quente, adormece para sempre e sonha a sua própria eternidade, uma festa de Natal só de crianças órfãs, acolhidas com tudo aquilo a que uma criança devia ter direito.
A vertente social e sobretudo humana é colocada em primeiro plano nesta história de dimensões mínimas e, contudo, tão grandiosa de conteúdo.

"A Submissa e Outras Histórias" – "Bobok, Cadernos de uma Certa Pessoa" de Fiodor Dostoievski

Queria distrair-se, foi parar a um funeral. Este é um começo intrigante, após uma introdução em que ficamos a saber que o protagonista dos acontecimentos que se seguem (protagonista no que concerne ao que nos é por ele transmitido, o narrador é mero espectador e ouvinte de factos sucedidos durante o seu limbo psicológico e fruto da sua condição instável?) não está numa fase favorável da sua vida.
A tertúlia de que é testemunha (sugestionada com certeza pela presença naquele “lugarzinho”) assenta numa animada troca de palavras entre os defuntos enterrados em algumas das sepulturas daquele cemitério. Provenientes de vários quadrantes da sociedade russa, revelam todas as suas fraquezas, frustrações, ilusões e imoralidade tal como quando eram vivos. Mais uma vez, o autor concentra a sua energia literária na crítica aos costumes da sociedade na qual se integra, transformando o conto na não-história de um ausente que nunca chegamos a saber de quem se trata, Bobok. É um nome que surge da boca de um fantasma, nome não corporizado por alguém, símbolo do delírio da personagem que assiste à parada grotesca de espectros que se divertem no e com o cenário da morte. Bobok é quase como se fosse o despertar do sonho, a palavra que separa o narrador do mundo real do mundo dos mortos a que a sua mente imaginosa o conduzira.

sábado, janeiro 27, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - “O Crocodilo” de Fiodor Dostoievski

Um crocodilo exposto no “passage” de São Petersburgo e um visitante engolido pelo animal, é circunstância suficiente para cativar o leitor apesar do aparente despropósito e ridículo da situação. Mas em Dostoievski, o grotesco tem uma motivação oculta operando nos bastidores da sua alma.
De facto, antes de partir para férias, Ivan Matveitch, a sua mulher e um amigo, decidem ir ver um crocodilo, pertença, há várias gerações de uma família alemã, e pela primeira vez na cidade russa. A primeira impressão dos visitantes, foi de que o animal não parecia vivo pois não se manifestava na presença de pessoas. Todavia, não demora a manifestar-se ao abocanhar e ingerir o acima referido Ivan Matveitch. Ingere mas não digere o homem pelo que, permanece vivo no interior da besta. Acomoda-se numa posição confortável dentro das entranhas do réptil (revelando, no entanto, que o crocodilo era oco por dentro, não mostrando sinais de possuir órgãos, daí Ivan se sentir como em casa, não manifestando sequer o desejo de dali sair) e é a partir desta premissa que o autor desenvolve uma história ridícula sim mas com o intuito vincado de mostrar a sociedade russa à luz da mentalidade pequeno-burguesa que a invadira. E como se manifesta este pequeno-burguesismo dominante e que o autor tão severamente analisa? Matveitch afirma querer passar a vida dentro do crocodilo, podendo inclusivamente assumir funções, em comissão de serviço, de naturalista a trabalhar no terreno. E tendo em consideração a circunstância invulgar em que se encontrava, seria ouvido e a sua opinião respeitada e até poderia trabalhar deitado… A mulher, Elena Ivanovna, receberia os convidados em casa ou até se poderia ponderar a possibilidade de se mudar para junto dele já que, naquele espaço cabiam duas senão três pessoas.
Ninguém considera muito estranha esta pretensão a não ser o amigo, narrador do invulgar acontecimento, que se interroga sobre como as necessidades mais básicas de Ivan poderiam ser satisfeitas.
A estrutura social russa é dominada pela classe burguesa. Mas alicerces em terreno pantanoso, provocam a cedência da estrutura. E ruiu. No fim ruiu.

"A Submissa e Outras Histórias" - “Apontamentos de Inverno sobre Impressões de Verão” de Fiodor Dostoievski

É com incomensurável ironia que o narrador destes apontamentos, conta os sucessos da sua viagem ao fascinante lado ocidental da Europa. Fascinante até conhecer o seu âmago.
Russo de nascimento, sempre se sentira atraído por essa “civilização superior”, tão perto e tão distante. Era seu desejo conhecê-la, nela se movimentar, respirar os seus ensinamentos e dela retirar o melhor. Mas, uma vez em viagem, e fazendo o circuito dos três mais emblemáticos países europeus – Inglaterra, Alemanha e França – o narrador depara-se com situações inesperadas que o transportam para um mundo de vulgaridade que suscita as impressões mais diversas.
Em Inglaterra abala-o a vida miserável das multidões de mulheres que vagueiam em certas ruas à noite e, sobretudo, o abandono das crianças que erram entre dois mundos: aquele que difusamente ainda lhes sussurra canções de embalar e aquele outro que por elas chama com brados violentos, obrigando-as a deambular feridas pela noite londrina, nevoenta e sinistra, cega. No entanto, o nosso narrador olha e vê a degradação daquelas pequenas vidas perdidas e não compreende como pode aquela gente não reparar numa criança andrajosa repleta de nódoas negras por baixo da roupa que mal a cobre.
Sobre a estada na Alemanha faz algumas considerações sobre a vulgaridade das mulheres de Dresden e a frieza de Berlim (nem as famosas tílias a alegravam no seu cinzentismo mudo).
Mas é a França, e mais concretamente a grande metrópole que já era Paris, o principal alvo da sua ironia e críticas, centrando-as em torno da figura prevalecente da sociedade parisiense da época, o Burguês. Este tipo emergente incomoda assaz o narrador pela sua falta de sensibilidade, pelo seu constante desejo de cultivar a aparência de uma moral imaculada, de um conceito de família distante da realidade praticada e, acima de tudo, pela dureza patente na consideração do capital financeiro como um “valor” mais elevado que o capital humano. O narrador brinca com a hipocrisia do burguês e com a vida conjugal incoerente que leva, contudo, o seu sarcasmo contundente atinge o coração da Europa no seu coração e revela a verdade (segundo o autor) do papel do Burguês.
E enquanto isso, enquanto o mundo girava imperturbável, crianças percorriam as ruas em busca da sobrevivência.

domingo, janeiro 21, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - "Uma História dos Diabos" de Fiodor Dostoiévski


Em jeito de introdução, de referir apenas que, tratando-se “A Submissa e Outras Histórias” de um livro de contos, optei pela análise de cada um separadamente. Comecemos, então, pelo primeiro – “Uma História dos Diabos”.

O protagonista do conto é um General que, talvez motivado por uma noite em que bebeu demais na companhia de dois amigos ou por um súbito assomo de consciência, vê-se enredado numa teia de acontecimentos que irão comprometer a sua imagem perante os seus subordinados.
Ivan Illitch é um homem sem preocupações até uma noite em que, celebrando o aniversário de um amigo na sua nova residência, se sente estranhamente próximo ou compadecido do povo que até àquele momento desprezava. O texto gira em torno de uma frase aparentemente sem sentido dita por um dos amigos – “Não aguentaremos” –, frase que se revelaria profética, não só em relação à experiência individual de Illitch naquela fatídica noite, como em relação à própria evolução da História Russa.
O protagonista sai de casa do amigo perturbado. O seu cocheiro, perante a perspectiva de uma maior demora do amo, encontra-se num casamento e Illitch é obrigado a ir para casa a pé, ideia que lhe não desagrada de todo. Após algum tempo de caminhada, ouve música festiva, aproxima-se da casa de onde os acordes e vozes de contentamento vêm e apercebe-se que está diante da casa de um seu subordinado, Pseldonimov. Recorda-se que o mesmo iria casar e parte do princípio que os festejos a que assiste são em consequência do casamento do seu funcionário. A sua indecisão face à posição a tomar perante aquela situação, denota um claro sentido de classe: por um lado não se quer misturar com gente daquela “laia”, por outro quer fazer o bem, ou seja, julga que a sua presença nas bodas de Pseldonimov seria uma inesperada honra para o mesmo e uma bênção dos céus. A sua falsa modéstia só é suplantada pelo medo que o acomete, um medo de não agir como seria expectável, um receio de não corresponder àquilo que aquela gente dele esperaria, um desassossego que não consegue identificar mas que, pouco depois, ao tomar a decisão definitiva de entrar na casa, de participar na festa com uma breve e pacata presença (que depois se revelaria mais prolongada e menos pacata do que inicialmente previsto) e com o decorrer dos acontecimentos ao longo da noite, se torna evidente para o leitor que o grande medo do General era perder a compostura, tornar-se vulgar, palpável, humano aos olhos daquela gente “inferior”. O protagonista cai do seu pedestal na tentativa de dele descer por momentos para fazer uma acção benemérita e perante aquelas pessoas que já lhe perderam o medo que inicialmente também dele tinham (medo recíproco), Ivan Illitch é uma pessoa, tão só uma pessoa que diante do exagero também vacila e cai e volta a erguer-se. Mostrara fraquezas.
A expressão do general seu amigo – “Não aguentaremos” – emerge como um augúrio do que Illitch diria no final do conto resumindo a sua postura durante aquela noite – “Não aguentei” –.