sábado, janeiro 27, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - “Apontamentos de Inverno sobre Impressões de Verão” de Fiodor Dostoievski

É com incomensurável ironia que o narrador destes apontamentos, conta os sucessos da sua viagem ao fascinante lado ocidental da Europa. Fascinante até conhecer o seu âmago.
Russo de nascimento, sempre se sentira atraído por essa “civilização superior”, tão perto e tão distante. Era seu desejo conhecê-la, nela se movimentar, respirar os seus ensinamentos e dela retirar o melhor. Mas, uma vez em viagem, e fazendo o circuito dos três mais emblemáticos países europeus – Inglaterra, Alemanha e França – o narrador depara-se com situações inesperadas que o transportam para um mundo de vulgaridade que suscita as impressões mais diversas.
Em Inglaterra abala-o a vida miserável das multidões de mulheres que vagueiam em certas ruas à noite e, sobretudo, o abandono das crianças que erram entre dois mundos: aquele que difusamente ainda lhes sussurra canções de embalar e aquele outro que por elas chama com brados violentos, obrigando-as a deambular feridas pela noite londrina, nevoenta e sinistra, cega. No entanto, o nosso narrador olha e vê a degradação daquelas pequenas vidas perdidas e não compreende como pode aquela gente não reparar numa criança andrajosa repleta de nódoas negras por baixo da roupa que mal a cobre.
Sobre a estada na Alemanha faz algumas considerações sobre a vulgaridade das mulheres de Dresden e a frieza de Berlim (nem as famosas tílias a alegravam no seu cinzentismo mudo).
Mas é a França, e mais concretamente a grande metrópole que já era Paris, o principal alvo da sua ironia e críticas, centrando-as em torno da figura prevalecente da sociedade parisiense da época, o Burguês. Este tipo emergente incomoda assaz o narrador pela sua falta de sensibilidade, pelo seu constante desejo de cultivar a aparência de uma moral imaculada, de um conceito de família distante da realidade praticada e, acima de tudo, pela dureza patente na consideração do capital financeiro como um “valor” mais elevado que o capital humano. O narrador brinca com a hipocrisia do burguês e com a vida conjugal incoerente que leva, contudo, o seu sarcasmo contundente atinge o coração da Europa no seu coração e revela a verdade (segundo o autor) do papel do Burguês.
E enquanto isso, enquanto o mundo girava imperturbável, crianças percorriam as ruas em busca da sobrevivência.

domingo, janeiro 21, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - "Uma História dos Diabos" de Fiodor Dostoiévski


Em jeito de introdução, de referir apenas que, tratando-se “A Submissa e Outras Histórias” de um livro de contos, optei pela análise de cada um separadamente. Comecemos, então, pelo primeiro – “Uma História dos Diabos”.

O protagonista do conto é um General que, talvez motivado por uma noite em que bebeu demais na companhia de dois amigos ou por um súbito assomo de consciência, vê-se enredado numa teia de acontecimentos que irão comprometer a sua imagem perante os seus subordinados.
Ivan Illitch é um homem sem preocupações até uma noite em que, celebrando o aniversário de um amigo na sua nova residência, se sente estranhamente próximo ou compadecido do povo que até àquele momento desprezava. O texto gira em torno de uma frase aparentemente sem sentido dita por um dos amigos – “Não aguentaremos” –, frase que se revelaria profética, não só em relação à experiência individual de Illitch naquela fatídica noite, como em relação à própria evolução da História Russa.
O protagonista sai de casa do amigo perturbado. O seu cocheiro, perante a perspectiva de uma maior demora do amo, encontra-se num casamento e Illitch é obrigado a ir para casa a pé, ideia que lhe não desagrada de todo. Após algum tempo de caminhada, ouve música festiva, aproxima-se da casa de onde os acordes e vozes de contentamento vêm e apercebe-se que está diante da casa de um seu subordinado, Pseldonimov. Recorda-se que o mesmo iria casar e parte do princípio que os festejos a que assiste são em consequência do casamento do seu funcionário. A sua indecisão face à posição a tomar perante aquela situação, denota um claro sentido de classe: por um lado não se quer misturar com gente daquela “laia”, por outro quer fazer o bem, ou seja, julga que a sua presença nas bodas de Pseldonimov seria uma inesperada honra para o mesmo e uma bênção dos céus. A sua falsa modéstia só é suplantada pelo medo que o acomete, um medo de não agir como seria expectável, um receio de não corresponder àquilo que aquela gente dele esperaria, um desassossego que não consegue identificar mas que, pouco depois, ao tomar a decisão definitiva de entrar na casa, de participar na festa com uma breve e pacata presença (que depois se revelaria mais prolongada e menos pacata do que inicialmente previsto) e com o decorrer dos acontecimentos ao longo da noite, se torna evidente para o leitor que o grande medo do General era perder a compostura, tornar-se vulgar, palpável, humano aos olhos daquela gente “inferior”. O protagonista cai do seu pedestal na tentativa de dele descer por momentos para fazer uma acção benemérita e perante aquelas pessoas que já lhe perderam o medo que inicialmente também dele tinham (medo recíproco), Ivan Illitch é uma pessoa, tão só uma pessoa que diante do exagero também vacila e cai e volta a erguer-se. Mostrara fraquezas.
A expressão do general seu amigo – “Não aguentaremos” – emerge como um augúrio do que Illitch diria no final do conto resumindo a sua postura durante aquela noite – “Não aguentei” –.

domingo, janeiro 14, 2007

"Morte no Nilo" de Agatha Christie

A construção da intriga é conseguida através da desconstrução das personagens envolvidas antes, durante e após o crime em torno do qual toda a história gira, sendo que a podemos dividir em quatro momentos, quatro momentos de uma trama em que todos os passageiros a bordo do vapor “Karnak” são possíveis suspeitos do assassinato da milionária em viagem de lua de mel, Linet Doyle.
Assim, nas primeiras páginas da obra é-nos dado a conhecer o panorama da vida das personagens que se irão encontrar na mesma embarcação no Nilo passados alguns dias e temos acesso a algumas primeiras impressões sobre o estado das pessoas em questão.
Num segundo quadro, já temos o Egipto como cenário de convergência dos protagonistas, incluindo Hercule Poirot em férias mas sempre atento e reflectindo sobre os incidentes que observa, revelando o carácter profundamente analítico mesmo quando numa despreocupada viagem de lazer.
No terceiro momento, o acontecimento sobre o qual a obra se baseia, o crime perpetrado contra Linet, sucede e compreendemos que tudo o que havia sido narrado até ali era uma preparação, uma antecipação do que por fim se revela como uma inevitabilidade.
Na quarta parte da obra, Poirot desmascara os culpados e o desfecho acaba por se revelar tão trágico para eles como para a mulher assassinada.
O narrador enreda-nos num labirinto de suspeitas e no labirinto que revela ser a alma humana. O “Karnak” é, no fundo, um microcosmo da própria vida, um espaço fechado em que a única fuga possível é a morte.
Um primeiro momento de libertação é o plano aparentemente perfeito e bem sucedido que conduz à morte de Linet, mas o “Karnak” mais não é do que uma barca de Caronte com destino certo. A tragicidade do percurso da milionária (bela, rica e jovem) é comparável ao percurso de sofrimento de outras personagens entre as quais se encontram os próprios assassinos. Na realidade, a reunião daquelas pessoas, naquele local, durante aqueles dias, é um momento em branco nas suas vidas apenas à espera de ser preenchido de acordo com o seu livre arbítrio. Poirot concede a hipótese de uma segunda oportunidade a uma das personagens, transmite-lhe a ideia de que, aquela viagem poderia ser uma preciosa ocasião de purificação da alma, de entrega ao bem e rejeição do mal, mas não é bem sucedido na sua tentativa de demover esta personagem do seu intuito final, do objectivo bem delineado na sua mente.
A comparação entre o crime de roubo (perdoado por Poirot porque o criminoso era recuperável pelo Amor) e o crime de sangue (não perdoável porque induzido por um Amor demasiado grande, doentio) torna “Morte no Nilo” uma interessante viagem ao interior de cada uma daquelas almas (a par da viagem real), uma viagem ao carácter volúvel e funesto da alma humana, bem como à restauração da mesma.
Esta é uma história de perdição e de renascimento.

sábado, dezembro 30, 2006

"D'este viver aqui neste papel descripto: cartas da guerra" de António Lobo Antunes

A viagem literária a este conjunto de epístolas escritas em natural tom familiar, poderia facilmente desembocar na análise críptica de um Amor vivido à distância, fruto da salutar teimosia de um Homem avassalado pela dor e pela saudade que a separação forçada provocaram. O outro "arrepio" que perpassa pela obra é a circunstância que ocasiona o afastamento agonizante: a guerra colonial.
Seria, então, óbvio que o crítico literário focasse estes dois motivos que, de forma exemplar, dão vida ao fresco vivencial que é a presente obra. No entanto, um outro conteúdo menos evidente (e, contudo, tão presente e repetido ao longo de todas as cartas), porque suplantado pela história de Amor que acompanhamos, é a história da história que o autor está a escrever, o processo evolutivo da mesma, as incertezas que o assolam face à qualidade da sua escrita, a necessidade de aprovação alheia, em primeiro lugar da mulher e depois do mundo (até porque, tendo conhecimento dos supostos grandes autores do seu tempo, considera-se – e trata-se de um julgamento muito parcial e também sujeito a dúvidas e correcções da parte do próprio – melhor e inigualável).
Estamos, portanto, perante uma obra em que um triângulo temático é exteriorizado em experiências distintas e marcantes partilhadas num mesmo espaço, o aerograma: a experiência amorosa, a experiência de guerra e a experiência de escrita.
Em comum têm o facto de todas elas serem, de formas distintas, dolorosas para o autor, mas é a experiência da escrita que lhe fomenta os sentimentos mais contraditórios podendo ir desde a perfeita euforia catártica, até ao desânimo prostrante. E, para além de opinar sobre a sua própria escrita em andamento ou incapacidade para contornar um determinado obstáculo literário surgido da doença, da desilusão, do não recebimento de cartas da pessoa amada ou da solidão desnorteante, não deixa igualmente de expor algumas ideias controversas, porque não compatíveis com a opinião corrente, sobre autores portugueses e estrangeiros consagrados. “Nasce” o nosso tão apreciado polemista Lobo Antunes.
A obra em que se empenha o autor naqueles longos meses de “reclusão” naquela longínqua remota região pretende, segundo o mesmo, ser revolucionária e abalar a literatura existente, ultrapassá-la em qualidade, criar um novo estilo, induzir no leitor a ideia (a verdade) de que nunca antes tinha lido algo igual.
À distância de largos anos (as cartas a que tivemos acesso remontam a 1972), constatamos que a confiança, embora por vezes vacilante de António Lobo Antunes, na potencial dimensão qualitativa da sua obra, e a crença absoluta da mulher na certeza do marido vir a ser um autor de referência no futuro, revelaram-se felizes previsões confirmadas.