domingo, setembro 09, 2007

"O Senhor Ventura" de Miguel Torga

A Senhora Professora Marília, minha muito querida, única e insubstituível Professora primária, é transmontana. Recordo-me dela como uma mulher de quarenta e tal anos com um cabelo castanho claro muito bem arranjado, sempre vestida com aquela bata branca que a tornava mais angelical a nossos olhos.
Estaríamos talvez na 2ª.Classe quando a Senhora Professora Marília nos começou a falar de Miguel Torga. Dizia-nos que também ele provinha de Trás-os-Montes como ela e certo dia, pegou num livrinho que tinha entre mãos e leu-nos um conto de nome “Natal”. Ouvir aquela história tão bem escrita por Torga e tão bem contada pela minha Professora, deixou uma marca que nunca se apagou em mim. Terá sido o meu primeiro despertar consciente para o mundo da literatura. Passaram-se anos e já no Liceu, através de uma Professora de Português também única e insubstituível, chegaram-me ecos desse autor que tão boas recordações me trazia. E ler por mim o conto “Natal” foi uma experiência comovente, no fundo, a menina curiosa que, sentada na sua carteira de madeira ouvia atenta e reverentemente a sua Professora, estava dentro de mim mas a assumir posição activa na leitura.
Hoje trago-vos Miguel Torga mas através de “O Senhor Ventura”, um belíssimo conto realista que, forçosamente, aguça a nossa noção de Portugalidade. Embora a personagem Senhor Ventura seja quase um cidadão do mundo pela constante necessidade de mudança que experimenta (é um viajante inveterado que calcorreia e se fixa em terras tão remotas como a China), não deixa de retornar ao ponto de origem, o seu Alentejo dourado ao qual volta munido de mais um sonho (mais um entre os muitos que o acompanharam) e no qual acaba por morrer.
Ele é Português e sê-lo e assumi-lo em qualquer parte do mundo, apesar da adversidade, dos amores falhados, da irreparável perda de um amigo, é algo que jorra da obra e nos contamina com a mensagem de que a fuga às origens é sempre temporária, nunca definitiva.

domingo, agosto 19, 2007

“Brando – Canções que a minha Mãe me ensinou” de Marlon Brando & Robert Lindsey

Um mito que se auto-desmistifica. Esta talvez a melhor síntese das 510 páginas de História(s) da vida de um dos mais proeminentes ícones do século XX: Marlon Brando.

Numa fase já adiantada da sua vida, Brando decide-se pela escrita destas despretensiosas “memórias” coadjuvado por Robert Lindsey. A estratégia, o plano organizacional da narrativa resume-se a um desnudamento da pessoa Marlon Brando perante o leitor, resultando desta aparente falta de estrutura um conto intimista, uma quase conversa entre amigos, uma confissão de algo que nunca se ocultou, mas que de igual forma não se propagandeou.
Brando assume-se como um actor acidental. Depois de expulso da academia militar, ruma a Nova Iorque e inicia uma carreira que, segundo o mesmo, teve para si um significado meramente prático, ou seja, representava para ganhar dinheiro e, com o passar dos anos e com o incremento da sua reputação como actor, era uma forma de, trabalhando pouco e em curtos espaços de tempo, ganhar muito dinheiro. Projectos houve que o interessaram e reconhecia talento em alguns dos realizadores e actores com quem trabalhou, no entanto, o mundo do cinema em si e a futilidade que essa Hollywood de então transluzia, depressa o fizeram despertar para o que realmente interessava. Não se deixou cegar pelos reflexos dourados da vida esplendorosa que lhe era oferecida e, em contrapartida, voltou-se para o combate de causas que o afectavam particularmente.
Assim, pouco depois de chegar a Nova Iorque, despertou para a condição dos judeus. A II Guerra Mundial terminara com a chacina dos judeus europeus e Brando reconhece no exemplo desse povo sem terra, a coragem e a inteligência cultural que detecta nos judeus Nova Iorquinos, seus mestres na compreensão de todo um universo cultural que lhe era totalmente desconhecido.
A tomada de consciência que se seguiu foi direccionada para a situação vivenciada pelos negros americanos. O antigo rapazinho proveniente do Nebraska agora feito homem, desempenhou um papel activo na defesa dos direitos cívicos dos negros mas compreendeu que, apesar de solidário com a sua causa, “Havia limites para a empatia; era-me impossível vestir a pele de um negro. Estava determinado a juntar-me à sua batalha, mas era um estranho e sê-lo-ia sempre.” simplesmente porque “a minha vida fora protegida enquanto pessoa de raça branca”.
Por último, dedicou-se à defesa dos direitos dos índios nativos americanos que, na sua óptica, fora um dos povos mais espoliados e negligenciados na História da Humanidade e cuja condição actual (à semelhança dos negros) não estava resolvida. É pungente a apologia que Brando faz dos nativos americanos, vítimas de um genocídio, de um ardil que tinha como único fim a sua extinção, sobreviveram cerca de 240 mil dos 7 a 18 milhões que existiam quando Colombo chegou ao novo mundo.
Um homem de causas, de gostos simples, mas que apesar da aparente normalidade, nunca se conseguiu libertar em absoluto de uma infância traumática resultante do alcoolismo dos pais. Apenas nos últimos anos da sua vida conseguiu viver sem consultas psiquiátricas, repousando na tranquilidade meditativa da sua paradisíaca ilha do Pacífico.

domingo, agosto 05, 2007

"Os Crimes do Lago das Tristezas" de Erin Hart

Devo confessar que o que me induziu a ler “Os Crimes do Lago das Tristezas” foi a poeticidade do título e da capa, na verdade, procurava um policial e aproveitei a deixa poética.
Uma patologista americana, Nora Gavin, desloca-se a uma pequena cidade irlandesa para analisar um corpo encontrado numa turfeira por um grupo de arqueólogos e acaba descobrindo um outro corpo de origem mais recente, apontando todos os indícios para um crime violento com possíveis implicações ritualistas.
Entretanto outros assassínios são cometidos e é, inevitavelmente, estabelecida uma ponte entre os crimes que sucedem em torno daquele local havendo algo em comum a unir aquelas existências que se vêm a revelar atormentadas.
Existe igualmente um paralelo entre aquele primeiro corpo encontrado na turfeira, proveniente de uma época remota em que os povos que habitavam a região faziam oferendas às divindades que regiam as suas vidas, divindades essas que segundo as crenças da época determinavam os castigos a aplicar ao povo, uma ira que poderia ser aplacada com sacrifícios humanos adequados, e os corpos que são descobertos milhares de anos depois com sinais de violência ritual induzindo a uma primeira conclusão de retoma de tradições há muito abandonadas.
O que sobretudo me interessou nesta obra foi a visão de um local aparentemente incorrupto revelar-se, à medida que a investigação dos crimes avança, um covil de segredos e invejas profundos, enraizados numa comunidade fechada em que a diferença, a descrição são tidos como produto de qualquer espécie de perturbação mental. Na realidade, reforça-se a ideia de que não há lugares puros, nem lugares livres de espíritos inquietos. Os espaços confundem-se com as pessoas e se é verdade que os contaminamos, não é menos verdade que os espaços deixam a sua marca em nós, é uma contaminação recíproca que pode deixar um sinal de luz, como um trilho de tristezas.
Nesta obra os rejeitados são iluminados e inocentados, no fundo, revelam-se os únicos capazes de ser felizes; os outros, os considerados normais, afogam-se numa incontornável tristeza interior.

domingo, julho 08, 2007

"Jaime Bunda, Agente Secreto" de Pepetela

Um agente secreto estagiário que não levantava a bunda volumosa de uma cadeira a um canto das instalações dos serviços secretos angolanos há dois anos, encostado a esse nada fazer por imposição de Chiquinho Vieira que o aceitara por não ter alternativa (perante a insistência do Director Operacional, primo de Jaime Bunda), eis o herói, ou melhor, o anti-herói desta tragicomédia que desvela o que de mais contundentemente negativo se encontra naquela Luanda ficcional que se confunde, obviamente, com a Luanda real.
Jaime é-nos descrito como um desajeitado jovem cuja proeminente bunda se apresenta como a sua mais saliente característica. Menosprezado pelos colegas do “Bunker” [nome atribuído a esta temida agência secreta angolana na qual Jaime Bunda se (des)integrava], dedicava-se exclusivamente a observar os passantes do seu campo de visão e a tirar ilações (sempre baseadas nos seus “profundos” conhecimentos da ficção policial, sobretudo de origem americana) sobre o muito que decorria em seu redor. Perante esta malograda rotina, ninguém esperaria que Jaime fosse chamado pelo chefe Chiquinho para que o intrigante caso da violação e assassinato de Catarina Kiela fosse por ele resolvido.
O agora agente secreto no terreno segue as pistas possíveis provenientes de testemunhos vagos e usufrui de um novo estatuto nunca antes experimentado mediante o qual se nos torna claro que a ingenuidade (mas não pureza) da personagem só o poderia conduzir a deslindar um crime por mero acaso… e é o que sucede, embora não resolva o mistério para o qual havia sido incumbido, mas um outro que, entretanto esbarra no seu caminho. Jaime Bunda inicia a investigação de um dado crime e acaba resolvendo um outro de que ninguém sequer suspeitava. Este herói acidental vê-se confrontado com uma rede de falsificação de kwanzas que tende a prosperar graças à colaboração de um alto funcionário do próprio “Bunker”, um intocável que é o alvo inicial das investigações de Jaime a propósito do assassinato da menina de catorze anos e que se revela ser um protegido do Director absoluto do “Bunker”, Ser nunca avistado por quem quer que fosse, habitante de desconhecidas catacumbas que, garantiam, lhe haviam aclarado a cor da pele pela ausência de luz natural.
A revelação de que a sociedade angolana se reveste de contornos obscuros mas por demais claros, surge-nos com um sentido de humor que torna a obra não tanto de cariz denunciatório, repousando mais a sua natureza na informação sempre com um toque de ironia. E tanto assim é que o final do livro coincide com a resolução de Gégé, irmão mais novo de Bunda, em ser jornalista, prometendo nada esconder do povo e tudo denunciar em favor do povo. Jaime, por seu lado, lastimosamente reconhece que nunca poderá progredir na carreira tendo um irmão contestatário público e profissional.
Termina o livro com esta esperança e promessa de que a verdade acabará algum dia por prevalecer, após o triunfo total da dissimulação a que assistimos ao longo da obra, senão vejamos: O assassino de Catarina, filho de um poderoso, acabaria ilibado, e a quadrilha dos kwanzas, oficialmente constituída apenas por estrangeiros e angolanos de menor importância fora desmantelada com o alto funcionário dos serviços secretos e principal responsável do crime a congratular os agentes que resolveram o caso de que ele fora mentor.

segunda-feira, junho 25, 2007

"A Catedral do Mar" de Ildefonso Falcones

Barcelona. Século XIV. Uma cidade que prometia a liberdade aos servos da gleba foragidos dos despóticos senhores feudais que impunham e punham em prática leis tão inumanas como o direito de se deitarem na primeira noite com a noiva do servo recém-casado. E, ao reclamar esse seu “direito” perante Bernat Estanyol, o Senhor de Bellera despoleta a revolta do súbdito e sua subsequente fuga com o filho rumo à cidade prometida.
Uma vez na capital da Catalunha, Bernat Estanyol tem como única preocupação passar despercebido já que, Llorenç de Bellera, não permitiria o delito sem castigo de um seu servo. A conquista da liberdade para si e para o filho torna-se o seu único objectivo e, no entanto, os maiores obstáculos provêem do seio da sua própria família que conquistara honrarias e cargos de relevo na comunidade barcelonesa e para quem os dois hóspedes/ escravos eram um embaraço. Havia que os manter escondidos, havia que lhes retirar a dignidade por meio de todos os meios.
A conquista da liberdade, após um ano e um dia de permanência em Barcelona, não trouxe a tão desejada paz e, na verdade, Bernat e Arnau continuavam a ser prisioneiros de uma sociedade desigual, tal como no campo, simplesmente com a diferença de serem cativos da vontade dos poderosos citadinos. E quando a fome grassou, Bernat junta-se a uma rebelião, torna-se o líder inesperado da mesma e acaba enforcado em praça pública e exposto como exemplo. Este sacrifício que, bem sabia, havia sido feito em seu nome, endurece Arnau, fá-lo crescer vinte anos num só dia e também ele sacrifica e honra a renúncia do pai à vida através das chamas purificadoras… para que ninguém contemplasse o cadáver de um Homem bom como se de um biltre se tratasse.
A Igreja em construção de Santa Maria de La Mar, acompanha todo o romance, e é nos quase sessenta anos que dura a sua edificação que decorre a história de “A Catedral do Mar” sobrepondo-se as idades da Igreja às idades de Arnau Estanyol. Ele é bastaix, carrega pedras mais pesadas que ele próprio desde Montjuic até Santa Maria de la Mar, trata a Virgem de La Mar por Mãe, combate pelo exército catalão tendo por arma apenas o seu instrumento de trabalho, como cambista e homem rico faz importantes doações em benefício da sua bem amada Catedral do Mar que lhe abre as portas para o mundo além subserviência… Arnau encontra a liberdade que o pai tanto buscara naquele espaço aberto que o acolhera sem o questionar, sem apontar o seu aspecto andrajoso. Na verdade, aquela igreja iluminada pelo mar, pelo céu imenso, é o símbolo da luta pela sobrevivência, quer física, quer moral, ela é palco de luzes e de sombra, feita pelo povo, para o povo.
Nunca sentira uma personagem confundir-se tanto com um espaço. A Igreja de Santa Maria de la Mar é Arnau Estanyol. Arnau Estanyol é a Igreja de Santa Maria de la Mar.
Vencidas as trevas inquisitoriais, eis que a Igreja é finalmente concluída e, tal como no primeiro dia do seu encontro, a Virgem de la Mar e Arnau reconhecem-se.

sábado, junho 09, 2007

"Uma Vida de Jesus" de Shusaku Endo

Esta vida de Jesus, apresentada pelo autor católico Japonês Shusaku Endo, não é um roteiro dos lugares sagrados por onde Cristo deambulou e pregou a palavra de Seu Pai, nem tão pouco uma viagem escrita que nos revele informações secretas nunca antes afloradas. Endo segue os passos das Sagradas Escrituras usando-as como fio condutor da história mais misteriosa de todos os tempos, história essa que lhe estimula o desassossego a partir do qual o autor relata os eventos que teceram a vida de Jesus, tal qual eles são contados pelos quatro evangelistas, mas com a particularidade de tecer comentários pessoais à forma e ao conteúdo das quatro crónicas distintas (e até certo ponto desiguais) referentes ao Carpinteiro de Nazaré.
Menciono Jesus como um carpinteiro de Nazaré na medida em que Shusaku Endo defende a tese de que em vida, e apesar de reunir discípulos e seguidores da sua pessoa, Jesus ter enfrentado uma onda de animosidade, tanto da parte daqueles que o acompanhavam ocasionalmente, como da parte dos que caminhavam sempre a seu lado e se integravam no chamado grupo dos discípulos, aversão esta que terá desencadeado uma total descrença de que se trataria do tão aguardado Messias. Nem seria esse o seu objectivo.
Segundo Endo, apenas na morte poderia emergir a crença de que aquele não era um Homem vulgar e muito menos um louco. A sua missão não era agir politicamente contra o poder romano ou contra a tirania dos governantes locais entronizados. A Sua revolução era de outra natureza e nem o povo, nem os próprios discípulos estavam preparados para alcançar o que Jesus de facto buscava nos Homens. Só com o seu suplício, ao qual não resistiu por um momento que fosse e que aliás acolheu como se de um sopro de vida se tratasse, seria possível encontrar a salvação da humanidade. Alguns homens iluminados pela brutalidade e pelo Amor que aquele acto sacrificial implicava, puderam transformar uma morte aparentemente inglória e sem significado, no momento de viragem da Humanidade. Esses embaixadores do Cristo iniciaram um périplo que dura até aos dias de hoje e que assenta em pressupostos questionáveis e louváveis em simultâneo. O testamento moral de Jesus terá sido profanado (as versões são demasiadas), algumas vezes mal interpretado ou interpretado da forma que mais convinha a um punhado de gente, no entanto, a maior verdade resiste, perdura e não deixa de ser a mais árdua de colocar em prática pelo Homem: A capacidade de amar. Uma verdade que não é efectiva, não é absoluta, por ela há que saber lutar.
Seja porque se acredita piamente no que aconteceu há dois mil anos naquele local, seja porque não acreditando, sentimo-nos impelidos a questionar o que moveu na realidade aquele Homem, esta é uma História actual e que deve ser revisitada sempre com renovado interesse.

sábado, maio 26, 2007

"O Coração das Trevas" de Joseph Conrad

Marlow é um marinheiro experiente e loquaz que, ao embarcar em mais uma viagem, relembra acontecimentos passados decorridos quando havia sido capitão de um barco pertença de uma companhia que “explorava” uma indeterminada região do interior de África.
Toda a narrativa (contada por um dos ouvintes de Marlow) é dominada pela figura fisicamente ausente de Kurtz, chefe de um posto longínquo da companhia, homem elogiado e admirado por todos, referido sempre como um génio com grande futuro no seio da empresa. Progressivamente subjugado pelo consenso face à imagem de Kurtz, Marlow vê-se absorvido e contagiado pelo fascínio que aquele “ídolo” lhe suscita.
Quanto mais se aproxima do coração do continente negro, em busca da lenda viva em que se convertera essa espécie de Messias, mais se agita o seu iluminado coração ante a iminente presença de Kurtz, personagem submersa nas trevas da floresta, afundada no seu próprio coração enegrecido pelas circunstâncias vivenciadas na selva, derrotado pelo crepitar feiticeiro da sua própria vaidade.
Marlow encontra-o prostrado, doente, e o corpo daquele homem, aquele corpo inerte e macilento, materializa-se na voz, a tal voz hipnótica que proferia os espantosos monólogos de que o arlequim russo se recordava com tanta precisão e reverência.
Kurtz exerce um poder primitivo sobre todos quantos o rodeiam e digo primitivo porque o deslumbramento, a crença absoluta no dom de liderar apenas com o olhar, apenas com a presença, apenas com a voz mesmerizante, o não questionar sequer a sua existência ali naquele momento, toca tanto os europeus que com ele privam ou que dele simplesmente ouvem falar (como é o caso de Marlow que o admira mesmo antes de o conhecer), como os indígenas que a ele se submetem como a um deus dos antípodas, incorpóreo, intocável, eterno.
Não temos acesso a um único dos brilhantes monólogos de Kurtz, tudo o que sabemos a respeito da figura quase mitológica que lidera o posto mais inóspito da companhia, é-nos transmitido por aqueles que o conheceram, pela sua noiva no final da narrativa e sobretudo, por Marlow, aquele com quem se cruzou apenas nos momentos finais da sua vida, mas que, nessa breve troca de olhares e reduzidas palavras, difunde o essencial para se converter na pessoa que melhor o conheceu e compreendeu, convertido à sua imensa superioridade.
A contaminação pelo horror, consuma-se na passagem da herança escrita do desterro suportado, da loucura experienciada, para as mãos do marinheiro fechado no compartimento mais obscuro do coração daquelas trevas preparadas ou não para a luz da revelação.

domingo, maio 20, 2007

"O Sentido da Noite - Uma Confissão" de Michael Cox

História narrada na primeira pessoa, “O Sentido da Noite – Uma Confissão”, relata a cruzada de Edward Glyver para repor uma verdade cuidadosamente escondida e que lhe é revelada ao remexer papéis deixados pela mãe escritora falecida. Glyver reúne as peças de um intrincado puzzle e conclui que a identidade que julgava ser a sua, intocável e autêntica, era na realidade uma identidade criada, produzida artificialmente para que a sua origem nunca fosse descoberta.
Tudo começa com um acto de vingança por parte da verdadeira mãe de Edward, Laura, Lady Tansor. Casada com um dos nobres mais ricos de Inglaterra, pediu a Lord Tansor que uma dívida contraída pelo pai fosse perdoada; perante a recusa do marido e subsequente morte do pai, Laura decide ocultar a gravidez do filho primogénito por que o Barão tanto aguardava viajando para França na companhia da sua grande amiga e coadjuvante na intriga perpretada, Simona Glyver. Concebe o filho em França, entrega-o aos cuidados extremosos de Simona e parte para Evenwood sem a criança.
Edward cresce como Edward Glyver e apenas reconhece como mãe Simona Glyver que escreve romances para os sustentar após a morte de um marido ausente. É um estudante brilhante mas, impossibilitado de ingressar na universidade devido a uma calúnia montada pelo suposto melhor amigo, Phoebus Rainsford Daunt, Edward encontra uma alternativa à vida académica de que se vira bruscamente privado e que o leva a frequentar círculos bibliófilos sobretudo na Alemanha e a compilar informação e conhecimento suficientes para manter longas discussões e troca de opiniões com os mais eruditos bibliófilos.
Ao morrer, Simona deixa alguns papéis aos quais Edward se agarra numa tentativa de prender a memória da mãe, mas rapidamente compreende que algo de errado e sobretudo de dúbio relativamente às suas origens se apresentava nesses escritos e mesmo em algumas recordações débeis que ele próprio retinha e que dificilmente conseguia explicar.
Ao descobrir a verdade acerca das suas origens nobres, Edward lança-se numa cruzada de busca de provas que permitam a Lord Tansor reconhecê-lo como seu legítimo herdeiro. Sobretudo porque é-lhe comunicado que Lord Tansor, após ter perdido toda a esperança no nascimento de um herdeiro através de um segundo casamento consumado após a morte de Laura, nomeara como seu sucessor nem mais nem menos que Phoebus Rainsford Daunt, entretanto “adoptado” por Sua Senhoria como o herdeiro que nunca tivera.
O objectivo de Edward torna-se duplo: herdar o que é seu por direito de nascimento e retirar ao seu rival aquilo que mais uma vez lhe queria roubar.
Depois de peripécias várias que incluem a traição amorosa para recuperação de papéis na posse de Edward e que lhe dariam Evenwood, a mansão das suas recordações de menino e centro do mundo Tansor, Edward percebe que nunca mais recuperaria o que era seu (e chega a confrontar o Barão, seu pai, com os factos mas já sem provas, sendo naturalmente escorraçado como farsante e vigarista) e inicia um ciclo de vingança seu que culminaria com a morte de Phoebus, o homem que lhe tirara tudo. Mas antes de matar Daunt, Edward desfere um golpe mortal num homem inocente, apenas para saber se era capaz.
Assistimos à transformação de um homem bondoso num assassino, é certo que acicatado pelas circunstâncias em que se desenrolara a sua vida, mas assistimos igualmente a um homem que se vinga do seu inimigo mas que vive eternamente atormentado pela morte que infligira a um inocente transeunte num beco da Londres vitoriana.

domingo, maio 06, 2007

"Ética para um Jovem" de Fernando Savater

Em “Ética para um Jovem”, Fernando Savater adopta um estilo ou forma de escrita quase epistolar na medida em que existe um destinatário sempre presente e vincado pelo autor ao longo da obra, o seu filho adolescente. Contudo, o leitor não é conduzido numa viagem de monólogo, mas de quase diálogo já que vezes há em que a “voz” do filho ausente/presente parece chegar-nos com impressionante nitidez. E é, de facto, de uma viagem que se trata quando nos debruçamos sobre este livro (e não será a leitura de qualquer livro uma viagem?), mas qual o destino deste périplo ao mundo da ética? Qual o objectivo ético de um livro sobre ética? Apoiando-se na ideia de Wittgenstein segundo a qual não era possível escrever um verdadeiro livro de ética, Savater acaba questionando o propósito do livro e alarga com esta indefinição o campo de trabalho desta área de saber que não é, de forma alguma, pertença exclusiva das ciências humanas, mas antes pertença exclusiva do género humano, a característica essencial de distinção entre Homem e outras espécies animais.
O autor confronta-nos e confronta o seu jovem discípulo /filho logo no capítulo primeiro com o objecto da ética que é, simultaneamente, a sua finalidade, a sua meta última, a liberdade. E como a liberdade com tudo o que abarca (e este tudo é mesmo tudo, ou seja, a totalidade das acções e operações humanas, aquilo que nos permite viver e fazer os outros viver) engloba não só o sujeito e a sua individualidade, mas também a interacção dele com os outros, a influência que o homem pode ter na sua e na qualidade de vida dos que o rodeiam, podemos com alguma segurança afirmar que, e seguindo a perspectiva fornecida por Fernando Savater, a ética trata da liberdade e, por isso, será o mais completo dos saberes, uma espécie de ciência das ciências.
“A ética é apenas o propósito racional de averiguar como viveremos melhor.”, afirma o autor depois de partir de um exemplo retirado da Bíblia, a história de Esaú e Jacob. Aliás, uma “técnica” utilizada por Savater por forma a tornar a mensagem a transmitir mais facilmente perceptível, é precisamente começar por ilustrar e só depois resumir a ideia a retirar da “imagem”. Desloca o seu discurso no sentido de tornar a leitura límpida, sem enigma nem mistério possível face ao que se pretende dar a conhecer e sobretudo tendo em consideração o destinatário principal da obra, um jovem de quinze anos. Quanto à citação com que iniciei este parágrafo, ela surge no sentido de especificar, esclarecer a noção de liberdade apresentada e que se atém a três outros conceitos muito vincados sem dúvida porque fundamentais para demarcar o terreno “real” da liberdade e são eles: ordens, costumes e caprichos. Também aqui desencadeia a reflexão a partir de um exemplo, desta feita da autoria de Aristóteles para realçar o dilema que por vezes constitui tomar decisões e qual o posicionamento adequado de quem as toma de acordo com as circunstâncias específicas em que se encontra. E é neste contexto que “liberdade é decidir” mas também darmo-nos conta do que fazemos, o que por vezes nos convém a nós pode não convir aos outros. Ordens podem inibir a liberdade, mas se se disser “Faz o que quiseres”, será este imperativo uma ordem inibidora? Os costumes, por sua vez, situam-se num universo relativamente rígido em que impera a tradição, o testemunho das gerações passadas que transmitem um conjunto de valores passíveis de serem assimilados ou não pelos jovens, é uma questão de escolha. Os caprichos por sua vez parecem implicar uma maior dose de liberdade, no entanto, geralmente associa-se o capricho a um estado egoísta provisório e beneficiador de uma liberdade própria exacerbada, levada a um extremo, mas porventura inibidora das liberdades alheias.

domingo, abril 22, 2007

"A Lentidão" de Milan Kundera

A degustação do tempo. A sua recusa como passagem transversal de vacuidade. A sua aceitação enquanto usufruto de uma totalidade hedonística. Aqui a vida é composta por generosas movimentações xadrezísticas, cerebrais e emocionais, abstractas e concretas, e é nesse tabuleiro pleno de ressaltos espaciais e temporais que as personagens díspares, incoerentes e profundamente humanas de Kundera se deslocam sem nunca na verdade se deslocarem. Existências longínquas entrecruzam-se sem nunca se cruzarem numa real conjugação de experiências menores ou maiores. E é nesta estaticidade que também é uma circularidade que reside a génese da obra... os tempos e os espaços apenas se tocam, apenas se reconhecem e saúdam graças à lentidão, esse conceito abstracto que parece um rotundo nada, mas que se prolonga em reticências múltiplas até desembocar no concretismo absoluto e talvez por isso mesmo, absurdo. As “peças” humanas estão dispostas numa ordem imperceptível, aleatória, mas lógica e apenas os sentidos desbaratados pelos desafios emotivos proporcionados pelo jogo constante, calculado ou instintivo, que as personagens entre si ou dentro de si e contra si próprias disputam, as fará compreender e assimilar, ainda que casual e inconscientemente, a “matemática existencial”, feita de rectas e curvas e equações e adições e subtrações e muita, muita incerteza. Vejamos o que o narrador nos diz a este respeito: «..., esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau da lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento.». E é a memória de um acontecimento com dois séculos que reúne dois homens marcados por um rendez-vous único, irrepetível, logo seguido de desencontro amoroso, da amargura do dia seguinte. O inverosímil encontro dos dois homens pertencentes a épocas distintas, levanta o véu do significado da enigmática lentidão que mais não é, afinal, do que a permanência dos afectos no seu imortal cultivo. A lentidão é plural e solidifica-se em raízes inquebrantáveis de velhas árvores seculares.

sábado, abril 14, 2007

"As Afinidades Electivas" de Goethe

Obra redigida na fase madura do escritor alemão, As Afinidades Electivas é, a seu modo, uma tragédia sobre a impraticabilidade do amor que condena os amantes ao desencontro por razões morais, sociais e... cósmicas. O sucessivo adiamento da vivência amorosa é imposto pela conjuntura tirânica que no início do século XIX preside à mentalidade eminentemente aristocrática defensora do casamento entre classes, mas acima de tudo apologista da instituição do matrimónio como sagrada (embora esta posição seja trabalhada pelo autor por forma a colocar em evidência a hipocrisia característica do apregoado mas não praticado). Por isso a manifestação de um desejo de união só (!!!) porque se ama, é acidamente rejeitado como uma espécie de sacrilégio. Não mencionei o vocábulo “tragédia” em vão... com efeito, o elemento trágico interfere de forma definitiva e paira na atmosfera, por vezes aparentemente idílica do romance, desde o seu início com claros sinais premonitórios de acontecimentos dúbios a vir. Goethe escreve, então, uma tragédia sob a forma de romance o que não deixa de ser curioso tendo em consideração a admiração do autor pela tragédia grega, sendo que ele próprio elaborou por exemplo uma Ifigénia em Táurida tida como uma das incontornáveis tragédias da literatura alemã. Uma convivência a quatro converte-se rapidamente não na destruição de um lar como seria de esperar, mas na transição (nunca atingida na sua totalidade) do que se julgava querer para o que indubitavelmente se quer. A tragédia reside na circunstância de que o encontro destas almas gémeas não é durável porque lhes é vedado o acesso à concretização do amor. Um silêncio cúmplice está subjacente à estranha aceitação do adultério debaixo do tecto outrora partilhado por um casal que pensava ser feliz. A “troca” é quase natural até que o mundo exterior se dá conta do perigo que ronda aquela casa e os amantes se afastam, momento a partir do qual se inicia o caminho descendente a percorrer pelas personagens e exposto na segunda parte do livro. Uma estranha força que me ocorre apenas designar de “cósmica” apaga a esperança no triunfo do amor, daí talvez o final místico da obra que mais não é do que, provavelmente, a vitória de uma outra forma de amor... e afinal, o amor não morre com as pessoas. E que mais não é este “regresso” de Ottilie do que uma espécie de deus ex machina típico da tragédia grega?

domingo, abril 08, 2007

"A Cidadela Branca" de Ohran Pamuk

Ao escrever “A Cidadela Branca”, Ohran Pamuk “guia-nos” numa viagem metafísica de busca do “Eu” de duas personagens que se confundem numa osmose de semelhanças físicas e psíquicas.
O narrador, um jovem italiano feito prisioneiro pelo inimigo turco, consegue sobreviver graças a uma invulgar capacidade de adaptação e improvisação que o conduzem às mais altas esferas do poder turco da época retratada.
A busca da personalidade de dois Homens possuidores de feições aparentemente idênticas, converte-se numa constante troca de informações sobre as especificidades da vida de cada um (no fundo, aquilo que os distingue verdadeiramente), não os libertando, contudo, da crença de que, a sua semelhança e improvável encontro, se prendem com um desígnio superior não decifrável que os convoca para uma existência a dois de dependência mútua, submetendo-se ao gotejar do tempo e à presença, por vezes insuportável um do outro. O tempo decorre e a cidadela branca, palco de uma batalha fracassada por ambos, é também palco da revelação que os alerta para a necessidade de uma troca definitiva de identidades, aquilo que os salvará da morte certa.
A troca consuma-se e não existe esforço na corporização de uma vida submersa na bruma de um intervalo a partir do qual tudo se alterou, a partir do qual os acontecimentos de duas vidas unificaram-se sem se fundirem. O passado estacou e a fatalidade da revelação manifestou-se com a visão de uma branca cidadela inexpugnável.

domingo, abril 01, 2007

"O Pianista" de Wladyslaw Szpilman

Varsóvia é libertada em 1945. Nesse mesmo ano, nessa mesma cidade palco da sua história, Wladyslaw Szpilman escreve a primeira versão de «O Pianista». É dos escombros de um mundo perdido que a sua voz se eleva. Qual o som da solidão?

Wladyslaw Szpilman é pianista na Rádio Polaca em Varsóvia quando, em finais de Agosto de 1939, as tropas nazis sitiam e, por último, ocupam a cidade, ocupação essa que se prolongará até ao final da guerra. Afixada a progressiva supressão de liberdades cívicas e humanas, numa fase inicial, em proclamações com parágrafos especialmente dedicados a judeus (nos quais era garantida a segurança de pessoas e bens) e, mais tarde, assumindo a forma de decretos crescentemente repressivos dirigidos à comunidade judaica em exclusivo, assim estava a ser preparado o terreno para a criação do ghetto de Varsóvia que chegaria a albergar cerca de meio milhão de judeus e que os alemães, num comentário oficial, designaram por «bairro judaico» já que, segundo um jornal do regime, «os alemães eram uma raça demasiado culta e magnânima (…) para confinar até mesmo parasitas como os judeus em ghettos, um remanescente medieval indigno da nova ordem da Europa. Em vez disso, haveria na cidade um bairro judaico onde só viveriam judeus, no qual desfrutariam de total liberdade e poderiam continuar a praticar os seus costumes e a sua cultura raciais. Por razões puramente higiénicas, esse bairro seria cercado por um muro, para que o tifo e outras doenças dos judeus não se propagassem a outras partes da cidade.». Szpilman e a família encontram-se entre os «escolhidos» que são encarcerados no ghetto – o absurdo dessa realidade com aparência de liberdade é sublinhada pelo narrador ao declarar: «Eu saía muitas vezes, para caminhar ao acaso, e encontrava inesperadamente um desses muros. Barravam-me o caminho quando queria continuar a andar e não havia nenhuma razão lógica para me deter» – e é o relato dessa vivência gradativamente precária em conformidade com o plano alemão de eliminação (que macabramente apelidaram de «educação social apropriada») dos «parasitas do organismo saudável dos povos arianos» que o protagonista nos revela, recorrendo à descrição crua de factos sem, no entanto, manifestar ódio face aos usurpadores da sua e de tantas outras vidas. Prefere ironizar como quando lhe é sugerido tocar no casino do comando de extermínio alemão «…, onde oficiais da Gestapo e das SS se distraíam, à noite, depois de um dia cansativo a assassinar judeus.».
O pianista nunca cessa de o ser. Instado por um amigo ou protector a sentar-se frente a um qualquer piano miraculosamente poupado aos efeitos do abandono ou à simples pilhagem, sente os dedos rígidos a «moverem-se com relutância sobre as teclas» e o som parece-lhe «irritantemente estranho» como se também a música, à semelhança daquele mundo em ruínas, se aproximasse do fim. A vinda de cada Inverno, anunciado pela mudança de cor das folhas das árvores da Aleje Ujazdowskie e pelo «vento que soprava mais frio de dia para dia», aliado ao duro trabalho braçal (é um dos escravos que trabalha na demolição dos muros do ghetto), provoca-lhe a ansiedade de quem depende dos dedos para poder pensar numa futura carreira como pianista. Sim, mesmo vivendo na permanente dúvida de quando chegaria a sua vez de entrar nos vagões de gado desinfectados da Umschlagplatz onde partilhara a última refeição com a família, mesmo assim Szpilman pensa num futuro baseado no único bem que lhe resta do período anterior à guerra.
Esta é também uma história de fantasmas, ausências e solidão, e de como dessa absoluta solidão dependia a sobrevivência de Szpilman, dolorosamente consciente da subserviência que deve ao silêncio. E do inverosímil encontro entre a presa e o caçador que, afinal, nada mais era do que um homem deslocado, um homem que corou quando teve que admitir, perante a pergunta do polaco, que era alemão.
Como afirma Andrzej Szpilman no prefácio, o seu pai não é escritor. Mas é a este não-escritor que devemos um retrato desapaixonado, mas não desgarrado, poético a espaços (eis um exemplo: «As penas das almofadas rasgadas entupiam as valetas e encontravam-se por todo o lado: cada sopro de vento levantava grandes nuvens delas, que turbilhonavam no ar como uma densa queda de neve em sentido inverso, da terra para o céu»), da criação e destruição do ghetto de Varsóvia e de como as almas que nele habitavam se tornaram parte da solução final nazi desde o início.
O som da solidão é um comboio que se afasta.

sábado, março 24, 2007

"Todas as Almas" de Javier Marías

Um professor universitário espanhol passa uma temporada a leccionar num dos colégios da Universidade de Oxford e é a narração dos pequenos acontecimentos quotidianos da comunidade académica e das reflexões que os mesmos sugestionam e despoletam no narrador castelhano a que, enquanto leitores, temos acesso através do romance de Javier Marías. A cidade inglesa parece desdobrar-se em três dimensões muito concretas: a Universidade, uma estação de comboios e a memória. Estes dois últimos planos são uma espécie de elo entre o mundo relativamente fechado de uma cidade voltada para dentro de si (e para fora quando muito por meio da erudição livresca, factor libertador e inibitório em simultâneo), egocêntrica portanto, e o mundo exterior de que nos chegam algumas notícias escassas, perdidas no tempo e no espaço. Inevitável é a intercalação da vida e perspectiva pessoais do narrador estrangeiro com o universo quase inenarrável (porque tão real e acessível) que o fascina e que resulta na narrativa conseguida. As dezenas de histórias contidas dentro daquilo que, no fundo, é a história da permanência a prazo do professor madrileno e das cicatrizes que dessa estada curta lhe ficam, desvendam seres peremptórios que, no entanto, escondem por debaixo das togas académicas e dos rituais que as acompanham almas feridas, não inocentes, já que a inocência nem sequer apanágio das crianças é (veja-se o exemplo do filho de Clare Bayes). Os olhos que se cruzam na Universidade não são os mesmos olhos que se cruzam fora dos muros dela e o que pode assemelhar-se a incoerência é, na verdade, o culto da mais pura humanidade – o espírito iminentemente contraditório da nossa espécie. O acaso não existe, qualquer pose ou comentário é fruto de uma pré–determinação primária que o narrador sublinha com uma ironia profundamente espirituosa e sensível na captação dos veios existenciais mais salientes contendo tanto de palpável como de metafísico. E depois há… o lixo. Um passo da obra indicativo da subtileza de um narrador que se socorre do implausível para “provar” que todas as almas são analisáveis e que não há grandes mistérios que possam encobrir: «Quando uma pessoa está só, quando uma pessoa vive só e ainda por cima no estrangeiro, presta uma enorme atenção ao caixote do lixo, porque pode acabar por ser a única coisa com a qual mantém uma relação constante, ou, o que é ainda mais, uma relação de continuidade. Cada saco preto de plástico – novo, brilhante, liso, por estrear – produz um efeito de limpeza absoluta e de possibilidades infinitas. Quando o vamos deitar fora, à noite, é já da inauguração ou promessa de um novo dia que se trata: está tudo por acontecer. Esse saco e esse caixote são às vezes os únicos testemunhos do que acontece durante o dia de trabalho de um homem só, e é neles que vão sendo depositados os restos, os rastos desse homem ao longo do dia, a sua metade descartada, o que decidiu não ser ou guardar, o negativo do que comeu, do que bebeu, do que fumou, do que utilizou, do que comprou, do que produziu e do que lhe chegou. No fim desse dia, o saco e o caixote estão cheios e são confusos, mas foram vistos a crescer, a transformar-se, a formar uma mistura indiscriminada da qual, aliás, esse homem só conhece a explicação e a ordem, como a própria e a indiscriminada mistura é a ordem e a explicação do homem. O saco e o caixote são a prova de que esse dia existiu e se acumulou e foi ligeiramente diferente do anterior e do que se seguirá, ainda que seja igualmente uniforme e o nexo visível com ambos. É o único registo, a única constância ou fé do percurso desse homem, a única obra que esse homem realmente realizou. São o fio da vida, o seu relógio também. Sempre que uma pessoa se aproxima do caixote e deita lá qualquer coisa, volta a ver e a ter contacto com as coisas que deitou fora nas horas anteriores, e é isso que lhe dá um sentido de continuidade: o seu dia está balizado pelas visitas feitas ao caixote do lixo, e lá podem ver-se a embalagem do iogurte de fruta que foi o seu pequeno-almoço, e aquele maço de cigarros de que no começo da manhã restavam apenas dois cigarros, e os envelopes vazios e rasgados que o correio lhe trouxe, as latas de coca-cola e as lascas de um lápis que afiou antes de começar a trabalhar (embora fosse escrever com caneta), as folhas amarrotadas que considerou imperfeitas ou equivocadas, o invólucro de celofane que envolveu três sanduíches, as beatas várias esvaziadas dos cinzeiros, os algodões empapados em água–de–colónia com que refrescou a testa, a parte gorda das carnes frias que comeu distraído para não interromper o seu labor, as informações inúteis recolhidas na faculdade, uma folha de salsa, uma de alfavaca, papel de prata, os bocadinhos de pele e as unhas que cortou, a casca endurecida de uma pêra, o pacote do leite, o frasco do remédio acabado, os sacos ingleses de papel cru e áspero com que os vendedores de livros antigos os embrulham. Tudo se vai apertando e concentrando, tapando e fundindo, e assim se converte no traço perceptível – material sólido – do desenho dos dias da vida de um homem. Fechar e apertar o saco e deitá-lo fora significa comprimir e enclausurar o dia de trabalho que talvez tenha sido marcado apenas por estes actos, pelo acto de deitar fora os restos e despojos, o acto de prescindir, o acto de seleccionar, o acto de discernir o inútil. O resultado do discernimento é essa obra que impõe o seu próprio termo: quando o caixote transborda está concluída, e então, mas só então, o seu conteúdo é desperdício.». Todas as almas são demasiadas para o frágil e instável equilíbrio do mundo e o mundo é demasiado pequeno para se não afundar com o peso das almas errantes… Todas.

sexta-feira, março 16, 2007

"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa-Luís

A inexactidão periférica, atributo ímpar de um quadro de grandes dimensões de autoria desconhecida (apesar de a família Nabasco, na pessoa de Maria Rosa, alegar que se tratava de “A Ronda da Noite” original de Rembrandt), alimenta o projecto de realidade dos Nabasco, em cuja posse a obra estaria há várias gerações.
A ambiguidade do quadro proporciona, sobretudo a Martinho Nabasco, uma possibilidade de acompanhamento do movimento da “Ronda” em concordância com as manifestações da sua vida, da família e das pessoas a ela ligadas, tudo através de um feixe de influências em que a luz e a obscuridade se interligam e deleitam com a instabilidade própria de um prematuro dia de primavera. A “Ronda” entra no “espaço” de Martinho como cenário oscilante das suas decisões, medos, aventuras, avanços, recuos, desamores (nunca amores), até se tornar, de forma definitiva, no “espaço” propriamente dito, no qual, para além da Companhia do Capitão Cocq e de Saskia, também Martinho (debilmente) se movimenta.
A duplicidade de planos na tela do Mestre Holandês, bem como o grau de importância de cada um, impele-nos a questionar o intuito verdadeiro da “Ronda” (se é que havia, de facto, uma intenção interpretativa…). A Companhia do Capitão Cocq desloca-se demoradamente na preparação de um qualquer evento não decifrável, mas tão só imaginável. Movem-se estes homens num primeiro plano enganador, um primeiro plano coberto por um manto negro de estaticidade (como que para reter o absoluto do momento), toldado por uma vaga necessidade, pretextando, anunciando apenas o não alinhamento de uma criança no contexto apresentado, uma criança que atravessa a multidão de homens de armas com desembaraço, com segurança e com um imperscrutável meio sorriso no rosto desirmanado. Ela surge num aparente segundo plano, hipótese imediatamente dissipada ante a percepção de que uma aura de luz a envolve num abraço dourado que a dilata na tela, convertendo-a no centro da mesma. Um ponto de luz móvel numa noite escura. E desta cintilação acompanhada de símbolos misteriosos (porque associados a uma figura de criança – a galinha e a pistola à cinta) emana poder, um poder estranhamente superior ao poder bélico que a rodeia; talvez seja o poder da inocência sobre o coração dos homens ou talvez seja o poder de uma memória persistente, inamovível… É uma força celestial, uma força que reside e resiste para além deste mundo mas que, ocasionalmente a ele desce como que para o recordar da sua nulidade perante o Tudo que desconhece.
Saskia flutua na “Ronda da Noite”, faz a sua ronda de Anjo no âmago do constante ímpeto guerreiro do Ser-Humano. A sua mera presença, luminosa, é uma censura não velada à cristalização daquele instante da natureza humana. É o conhecimento do Homem que o vigia na vigília de Saskia, o olho omnipresente de Deus.
A obsessão que a “Ronda da Noite” constitui para Martinho Nabasco vai para além do sentimento de posse que uma obsessão comporta. O estudo, a observação compulsiva da obra transportam-no para a explicação de uma vida, tendo por base a insidiosa obra de Rembrandt. Esquecida, mutilada, relegada para um plano secundário nos haveres dos Nabasco, Martinho e a Avó, Maria Rosa, reabilitam a “Ronda”, apresentam-na à luz do dia como a mais preciosa relíquia da família.
Tal como a pequena Saskia, as mulheres da vida de Martinho não se detiveram na tela, deslizaram para lá do fotograma em que ele as mantinha como peças de museu numa passividade de voyeur.
A obra é por fim destruída pela fúria ciumenta de uma mulher e o “mapa” da vida de Martinho Nabasco desaparece; dos veios sinuosos, das rugas, das marcas que o delimitavam e que apontavam um futuro, restam somente sombras dificilmente adivinháveis da cifra da vida de Martinho, despojo de perplexidades.
A conversão da “Ronda” em imagens desfocadas, espelha-se no desvanecer lento e apagado de Martinho (como os homens do Capitão Cocq na “Ronda”, vagarosos e sem brilho) em contraposição com as mulheres que consigo se cruzaram, estrelas que iluminavam a sua memória como Saskia a “Ronda”.
E Martinho morre na antecâmara de uma ronda nocturna sem regresso, vencido pela fragilidade que é a realidade.

domingo, março 11, 2007

"Persuasão" de Jane Austen

A fortaleza das personagens femininas dos romances de Jane Austen, desponta em toda a sua glória com a heroína de “Persuasão”, Anne Elliot. Por detrás de uma aparência de fragilidade, de submissão incondicional a um pai indiferente e narcisista que vive rodeado de espelhos na mansão da família, e a uma irmã escrava das convenções sociais em vigor, Anne não abdica da sua independência intelectual.
Contudo, a personagem Anne Elliot sofre uma evolução nos dois momentos chave da obra. Enquanto jovem requestada por um simples Capitão da Marinha Britânica sem posição social nem fortuna, ela cede ao peso do parecer familiar: Wentworth não era um partido ao nível da fidalguia que o nome Elliot comportava. Apesar do amor que por ele sentia, Anne cede às exigências familiares, deixa-se persuadir por uma ilusão imposta e termina um noivado que nunca chegara a efectivar-se. Oito anos passados desde a decisão que a mortificara, Anne reencontra o Capitão Wentworth devido ao facto de Sir Walter Elliot se ver obrigado a alugar Kellynch-Hall, a casa no Somersetshire desde sempre habitada pela família, ao Almirante Croft e esposa (irmã do Capitão Wentworth), graças a problemas financeiros. E Anne, ao revê-lo e apesar do desinteresse aparente por ele manifestado, persuade-se de que nunca deixara de o amar. E é esta cedência íntima da heroína à inevitabilidade do seu amor por Wentworth que acompanhamos ao longo da quase totalidade do livro.
Wentworth mostra-se interessado em assentar, agora que conseguira posição e fortuna consideráveis após várias comissões no estrangeiro, no entanto, o orgulho ferido pela rejeição de que fora vítima, a certeza de que a Anne faltava o carácter necessário para impor uma vontade férrea, levam-no a procurar noiva noutra casa de família onde o seu nome não estivesse manchado pela lembrança de um tão ignominioso repúdio. Assim, Wentworth deixa-se também ele persuadir mas pela convicção de que a sua presença junto de uma certa jovem, era entendida como genuíno interesse e cede à possibilidade de ter de, por uma questão de honra, pedir a mão em casamento a Louisa Musgrove.
Preparado que estava para assumir as suas responsabilidades, um incidente com Louisa obriga-a a convalescer na companhia de um amigo de Wentworth e com a ausência deste, um inesperado noivado é dado a conhecer entre ambos. Wentworth estava liberto da suposta obrigação em que se vira enredado.
E desta forma, o antigo sentimento que o unira a Anne aflora-lhe novamente ao coração e deixa-se abandonar, persuadido que finalmente estava de que nunca deixara de a amar, ao fito único de a “acompanhar” onde quer que ela se encontrasse.
Um feliz desencadear de acontecimentos, provocados por acasos duvidosos (parecendo mais “manipulados” por um braço mecânico que consolida as peças da história por forma a que Anne e Wentworth se encontrassem frente a frente desnudados de preconceitos) provocam a compreensão de ambos os envolvidos nesta história de amor, a compreensão de que é inútil fugir ao sentimento que os avassala e de que os outros são apenas isso: Outros. O tempo é dos que se amam e o amor vence sempre. Jane Austen dixit.

sexta-feira, março 02, 2007

"Este é o meu Corpo" de Filipa Melo

Não é esboçada sequer uma tentativa de procura do móbil do crime, embora por detrás de um acto de barbárie se esconda invariavelmente uma «razão», por mais absurda ou incompreensível que possa parecer. A loucura, momentânea ou continuada e declarada, esbarra no «prazer» da morte violenta e a ausência de configuração física que relacione o indivíduo acusado com o acto praticado, ou seja, a sua aparente «normalidade», acaba quase sempre abalada pela descoberta de um qualquer facto traumatizante no decorrer da vida que impele o sujeito a provocar, a infligir aos outros a dor que ele próprio experimentara.
Em «Este é o Meu Corpo» de Filipa Melo, não importa a psique do assassino, nem tão pouco as circunstâncias que o levam a disferir o «golpe mortal»; assistimos antes à «elevação» da vítima a um estádio de ainda vida latente conseguida através da reconstituição existencial do corpo sem identidade, porque irreconhecível quando encontrado.
E é a busca dessa verdade que todo o ser-humano se arroga possuir que transporta os intervenientes da história numa viagem intra-corporal e numa outra extra-corporal, apresentando como limites os seus corpos e memórias pessoais intransmissíveis, e aquele corpo sem rosto e desconhecidas recordações em cada recanto que principia, na autópsia, a sussurrar ao Médico-Legista alguns factos de uma vida breve. Encetado o diálogo, a identidade emerge.

O visível e o invisível. Penetrando no reino do que é somente adivinhável, a mão policial do Médico-Legista desvela os contornos de um «espaço» brutal porque tão real e conduz a investigação analisando os orgãos que contam histórias, vozes que empurram o Médico ao mergulho no inferno da sua solidão e do Ser abandonado à bátega da chuva. Aqui o invisível é transparência, iluminação, manifestação visceral de acontecimentos registados.
A cadeia de abandonos é irónica e sagaz envolvendo todos os participantes da intriga a começar pelo corpo resultante do delito. Um pai abandona uma filha, uma filha abandona um pai, um amigo deixa-se abandonar a uma amiga, um marido abandona uma mulher, uma amante abandona um amante, uma mãe abandona um filho. Mas o abandono nunca é total, tal como o abandono supremo, o abandono à morte, também não é, porque desemboca num encontro ou reencontro, o meio de apaziguar o sofrimento provocado por uma ausência.
Eduarda está morta há pouco mais de um dia e é dissecada pelo Médico-Legista cujo nome nunca chegamos a saber ( e é como se a não-identidade dele e a não-identidade dela os unisse nesse vácuo, e a descoberta gradual dela seja a descoberta gradual dele), contudo, os orgãos intactos, esse interior que tudo revela ( e não é só o cérebro, a «estrela» de uma autópsia, que amalgama os segredos de uma vida; tudo é útil quando um desconhecido esfolado é deitado na maca metálica, operação comparável àquela ida ao psicanalista relatada pelo Médico, simplesmente desta vez o «doente» não evitava recostar-se no divã e não hesitava em desnudar-se por completo até não restarem dúvidas a respeito de significados e implicações) unia-se num apelo pelo apuramento de um nome indiciador de um fio de personalidade confirmada e até ali apenas suspeitada.
A memória de Eduarda sobrevive, resiste à morte física. Amada quando ainda era Eduarda e amada depois de já não o ser por todas as personagens masculinas do romance: António, Miguel, Jacinto e o Médico-Legista, o único que não a havia conhecido em vida. E este homem que conversa com os «seus» mortos não se limita a dissecar mais um cadáver, disseca o porquê do amor que sente pela massa disforme, repugnantemente bela ou de uma beleza repugnante, em que se convertera Eduarda.
A veterinária não se opõe ao impulso assassino de quem a mata, talvez porque adivinhasse o desfecho provável de uma história de amor sem amor, sem muito para contar. Sobraria um corpo, o seu corpo, para testemunhar a banalidade de mais uma morte. Não teria previsto a cruel encenação post-mortem que o carrasco decidira executar.
A multiplicidade de Eduarda (amante, mãe, amiga, filha e desconhecida), comum a todo o ser-humano, é a negação da procurada identidade; a unidade não tem aqui lugar. E gorada uma identidade condensada num nome apenas, numa mexa de cabelo afagada mil vezes ou na forma como todos os dias se dão os bons dias aos outros, restam as identidades, os resíduos insuspeitados na perspectiva de uma autópsia que nunca será a nossa sobre nós próprios.
O corpo virado do avesso é resgatado do olvido porque morto uma segunda vez.

domingo, fevereiro 25, 2007

"Shining" de Stephen King

O Hotel Overlook apresenta-se, inicialmente, como o escape emocional de que Jack Torrance necessitava para conferir uma amplitude diferente à sua vida. Atormentado por uma agressão cometida contra o filho e por uma outra protagonizada contra um aluno da escola onde leccionava (tendo como consequência o seu despedimento), Jack é envolvido por estes fantasmas que povoam a sua história pessoal mais recente, deparando-se, de igual modo, com sombras provenientes de um passado mais remoto que, traiçoeiramente, se apoderam do seu pensamento e o obrigam a recuar a uma infância repleta de imagens da violência de um pai alcoólico. A procura de uma segunda oportunidade, de uma restauração de si perante si e perante os outros que lhe permitisse recuperar da vida decadente a que o álcool o remetera, este o objectivo de Torrance, disposto a manter o Hotel Overlook em perfeitas condições durante o rigoroso Inverno nas montanhas do Colorado e, em paralelo, a escrever a sua peça de teatro por forma a tentar o relançamento da sua actividade de escritor.
A família Torrance, composta por Jack, Wendy e o filho de ambos, Danny, desloca-se, então, para o histórico Overlook onde passarão a temporada de Inverno sitiados pela neve que, em breve, começaria a tombar até cortar todos os acessos possíveis ao Hotel e negando aos seus temporários habitantes a evasão do espaço a que se encontravam confinados.
Em plena prossecução dos seus deveres de encarregado do Hotel, Jack depara-se, na cave, com um manancial de escritos, recortes de jornais e fotografias referentes ao passado conhecido e desconhecido do Overlook. Assim, gradativamente aguçado, primeiro pela curiosidade do escritor que encontrou bom material de escrita, e depois pelo apelo e fascínio, cada vez mais intensos, que o passado sombrio do Hotel exercia sobre ele, assistimos à transformação progressiva da personagem em sentido inverso à sua intenção primeira. Jack não tem acesso a álcool no Hotel, no entanto, com a contaminação crescente das memórias atrozes do mesmo sobre si, Torrance é dominado pelas sombras que habitam o Overlook, deixando-se embriagar pelo poder maligno que do Hotel emana.
O rasto do mal é perceptível aos olhos de Jack mas, sobretudo aos de Danny que, mesmo antes do Hotel fechar, é alertado pelo cozinheiro chefe, Halloran, dos perigos que aquele Hotel encerrava e de que ele e outros poucos iluminados (como Danny) se teriam apercebido. Danny detém o poder da reverberação, de ver para além do visível e é mediante este dom, que não consegue controlar, que Danny sente o Overlook como um organismo vivo pronto a devorá-lo e à restante família. As visões de Danny mostram-lhe a soberania de destruição do Hotel ao longo dos anos através, por exemplo, do mítico quarto 217 onde uma hóspede se suicidara e cuja presença ainda se faz sentir na violência da comunicação que enceta com Danny.
O Hotel quer apoderar-se da fortaleza de espírito de Danny através da fraqueza de espírito do pai, instigando-o a cometer o derradeiro sacrifício em nome de uma lealdade duvidosa para com o “verdadeiro gerente” do Hotel. A cartada última deste mal é colocar no caminho de Jack, Delbert Grady, um antigo encarregado do Hotel que matara as duas filhas e a mulher e de seguida se suicidara. Grady fala-lhe no “correctivo” que tem que aplicar à mulher demasiado interferente e ao filho demasiado impertinente e Jack lança-se numa caçada à própria família. A sua transfiguração de presa para caçador nunca é absoluta, porque Torrance é prisioneiro das memórias terríveis do Overlook e vendera a sua alma a um mal abstracto nunca identificado com clareza.
A destruição purificadora do Hotel pelo fogo, não deixa de ser irónica porque é através da explosão da caldeira, cujo cuidado Jack descurara (subjugado como estava pela loucura), que se verifica o incêndio. Ou seja, trata-se quase de uma autodestruição na medida em que, na procura desenfreada de submeter Danny ao mal, o próprio mal, incorporado por Jack, se descuida na manutenção daquilo que o permite continuar a subsistir.

sábado, fevereiro 17, 2007

"A Senhora dos Açores" de Romana Petri

O aquém do além azul. Mundos paralelos amalgamados, um pacto de união na aprendizagem, um percurso a céu aberto para abrir um trilho interior.
O título do livro desconcerta pelo que contém de dádiva e de egoísmo, pela fusão conseguida e de cujo conseguimento não estava certa, um meio para atingir um fim, a surpreendente forma de construção de uma identidade inconsistente, impalpável e invisível como os segredos segredados pelas figuras fantasmais da ilha e em flagrante contraste com os nomes dos cúmplices da travessia em quase todos os capítulos desfiados.
Tal duplicidade no nome atribuído à obra, não poderia deixar de estar em sintonia com o próprio conteúdo de «A Senhora dos Açores» já que é, em simultâneo, um panegírico às mulheres açoreanas, divinizadas na sua simplicidade redentora e à italiana, narradora e protagonista da história, elevada por ela mesma a um patamar se não divino, pelo menos semidivino, na espécie de martírio da sua Via Sacra.
O nome desmascara sempre uma franja de personalidade, liberta, permite resvalar da página uma sugestão de pessoa, ainda que incorrecta ou precipitada, um indício de Ser que, enquanto leitores, pretendemos (re)conhecer. E é deste (re)conhecimento que nos socorremos, é dele que partimos, é ele que nos orienta nos meandros do enredo, na psicologia específica da personagem. Simplesmente, esta personagem sem nome, narradora da sua própria aventura de descoberta de si e de descoberta dos outros como veículo para chegar a si, não se apresenta, cai na página somente como uma mulher de uma terra distante que surgiu distante, numa fase inicial, ao meu olhar de leitora.
Começo por não a compreender, falta-lhe força vital, um não sei quê que habilita a personagem de romance a andar pelo seu pé, a discorrer uma existência independente e não orfã. Se ela “morre” antes de concluída a leitura, ou algo não está bem ou estamos perante uma estratégia literária a deslindar. E assim vislumbrei-lhe uma motivação crescente que foi assim como um brilhozinho nos olhos da personagem, brilhozinho esse que, naturalmente, não vi, mas bem senti. A motivação advém dos outros, dos que têm nome e identidade com fibra, dos que a contaminam com aquilo que procura: o conhecimento das coisas simples. Busca o molde de si nas gentes da terra, na própria terra, é gradativamente talhada pelos que se cruzam no seu caminho num processo pessoal equiparável ao fenómeno mais lato da própria ilha que decidiu habitar: no esvaziamento adivinha-se o ressurgimento. É uma esperança que resiste. Os Açores são uma concha, oca, como a mulher perdida nessa inquietude serena que, não obstante, a avassala, oca pela indefinição eternamente flutuante de quem a povoa, é a gente de fora que vem de dentro e os fantasmas vivos ou mortos, que são a essência da ilha. Os vivos proporcionam excursos aos reinos impalpáveis da morte com contornos de fantástico, uma quase não-morte pelo que detém de festivo, de real, de subsistente. E parece esse mundo ter-se tecido em torno da fragilidade sedenta do sobressalto interior que um encontro indesejado ou improvável consigo traz que a estrangeira possui, competindo-lhe avaliar do grau de pureza das realidades extremas que com ela esbarram como que recomendadas pelos amigos, mentores do seu ritual de (re)iniciação à vida. Tudo é uma imensa segunda oportunidade, uma viagem ao centro daquela terra e ao centro da mulher extraviada da sua rota. A não-revelação inicial prende-se com a ausência de auto-conhecimento.
Há uma negação do Ser porque há um desconhecimento do Ser.
Desembarca nos Açores com o fito único de se instalar numa casa com vista para o mar, como se no mar se pudesse reencontrar, mulher perdida de si. É no mar, mas também nos sabores e cheiros e silhuetas, na restauração do primarismo esquecido algures na frequência das urbes onde as velhas tradições e as velhas sensações a custo sobrevivem que repousa a verdade essencial por isso a ruralidade ainda palpitante dos Açores começa por colidir com a nebulosidade das ideias pré-concebidas de alguém dominado pelo medo do outro. A estrangeira receia o nativo, mas o nativo recebe-a em sua casa, acolhe-a sem perguntas e ensina-a a viver do que existe aqui e agora.
A pureza dos bons envergonha quem não acredita.
Da dádiva renasce o ego, da multiplicidade emerge a unidade, o paraíso perdido, agora reencontrado através dos outros. É desta relação de dependência que germina um conceito de personagem a cujo crescimento assistimos. E é tão bom crer na possibilidade de reforma do Ser.

sábado, fevereiro 10, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - "Sonho de um Homem Ridículo" de Fiodor Dostoievski

Um homem decidido a morrer. Um homem decidido a não amparar a menina que lhe roga ajuda.
Compra uma arma e adormece no cadeirão onde, esperava, o encontrassem morto por sua própria mão no dia seguinte.
Um sonho. O sonho da perfeição humana, do paraíso perdido, corrompido pelo protagonista desta história de redenção. Ele fantasia ser o autor de toda a indignidade humana e essa perspectiva invectiva-o a amar a vida mais que nunca. A querer viver para pregar, para ensinar, a querer passar a mensagem que a ele em sonhos havia sido transmitida. Nunca é tarde para o arrependimento, o caminho da salvação é um percurso interior, um percurso de livre-arbítrio fruto da nossa insatisfação.

"A Submissa e Outras Histórias" - "A Submissa, História Fantástica" de Fiodor Dostoievski

Uma história simples de contornos complexos é o ponto de partida para o relato entrecortado por convulsões de dor incrédula de um marido viúvo há poucas horas.
Desonrado aos olhos dos seus pares (enquanto militar, recusara-se a travar um duelo) e para sempre marcado por esta nódoa na sua existência, refizera a sua vida depois de receber uma inesperada herança. Estabelecera-se como penhorista e apaixonara-se pela jovem de 15 anos que semana após semana se desfazia de tudo o que a recordava da família mais próxima já desaparecida. Propõe-lhe casamento ao saber que as tias a empurravam para um outro homem para benefício próprio.
Apesar de a amar, este é um homem traumatizado pela rejeição e, como tal, oculta a mancha que assombra o seu passado (e o presente, claro) para que, uma vez tendo conhecimento do porquê da recusa de bater-se em duelo, pudesse a mulher ser a primeira a considerar a sua atitude honrosa e não cobarde. No entanto, uma rigidez permanente, um autoritarismo injustificado, provocam o inverso da inicial submissão daquela mulher tão jovem e, contudo, tão madura na percepção da rejeição de que ela própria se sentia vítima. Ela rebela-se, envolve-se com outro homem, descobre a verdade pela boca do inimigo visceral do marido e no fim, perante a complacência de um marido vencido, ajoelhado a seus pés como perante um altar sagrado, a menina tornada mulher, adoece perante a sua incapacidade de submissão. E o que restava a uma mulher não submissa no tempo em que decorre a história? A heroína precipita-se de uma janela e deixa um vazio, apenas um vazio de silêncios no coração insubmisso de um homem que também foi contra as convenções do seu tempo. O abismo esteve próximo para ele numa primeira fase. Foi salvo. Mas a fuga foi momentânea. O destino encontrou-o e enlaçou-o com a aparição e desaparecimento do anjo que jazia morto na mesa da casa comum.

sábado, fevereiro 03, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" – "A Centenária" de Fiodor Dostoievski

O encontro casual com uma mulher de 104 anos que fazia o percurso para casa de familiares parando de soleira em soleira de porta para repousar, despoleta num homem o interesse em saber se a velha senhora chegara de facto ao seu destino e qual o seu destino depois disso.
Realidade e ficção confundem-se, enleiam-se e o leitor aborda o fruto da imaginação daquele homem como se da realidade se tratasse. E porquê? Porque é uma realidade provável e porque há encontros com os quais nos queremos voltar a encontrar, nem que seja no desencontro ou ponto de encontro do mundo sensível com o ininteligível. A fronteira entre ficção e realidade é tão ténue que o fim da pobre centenária, foi aquele que o autor de improviso lhe deu.

"A Submissa e Outras Histórias" – "O Mujique Marei" de Fiodor Dostoievski

Num dado momento da sua queda, um homem nobre de nascimento e agora prisioneiro na Sibéria, recorda-se do momento em que mais amado e protegido se sentira na vida, um momento irrepetível em que um dos servos da gleba da sua família o tratara como a um filho.
Observava-o a lavrar os campos quando ouviu alguém gritar que vinha ali um lobo; o narrador, agarrara-se ao Mujique e este demonstrara aquilo que é designado nas páginas lidas como “instinto maternal” pois, embora soube-se que ali não havia lobos, compadecera-se de tal forma do seu pequeno amo que, nos confins do mundo palpável e nos confins da sua alma, aquele Homem preso a grilhetas, escapara dos muros frios do presídio e encontrara o caminho de casa. Estava em casa.

"A Submissa e Outras Histórias" – "Menino numa Festa de Natal" de Fiodor Dostoievski

O conto mais curto desta colectânea é também o mais impressionante pela dureza e realismo empregues na descrição da existência miserável de uma criança que acompanha a mãe da aldeia natal até à cidade grande em busca de uma vida melhor. A mãe adoece e a criança vê-se à mercê do ambiente que a rodeia, o Inverno russo e aqueles que a rodeiam.
É mal agasalhado e mal nutrido que o menino sai à rua depois de compreender que a mãe sucumbira à doença (embora subsista uma certa ambiguidade nesta situação: quando a criança se aproxima do catre em que está prostrada a mãe e a sente fria pensa, antes de mais, nas condições em que viviam, ou seja, está fria porque está frio).
É Natal e toda a gente é bem vinda em todo o lado menos o menino que, sozinho no mundo, não encontra paz em vida. Recolhido num cantinho de lenha, finalmente quente, adormece para sempre e sonha a sua própria eternidade, uma festa de Natal só de crianças órfãs, acolhidas com tudo aquilo a que uma criança devia ter direito.
A vertente social e sobretudo humana é colocada em primeiro plano nesta história de dimensões mínimas e, contudo, tão grandiosa de conteúdo.

"A Submissa e Outras Histórias" – "Bobok, Cadernos de uma Certa Pessoa" de Fiodor Dostoievski

Queria distrair-se, foi parar a um funeral. Este é um começo intrigante, após uma introdução em que ficamos a saber que o protagonista dos acontecimentos que se seguem (protagonista no que concerne ao que nos é por ele transmitido, o narrador é mero espectador e ouvinte de factos sucedidos durante o seu limbo psicológico e fruto da sua condição instável?) não está numa fase favorável da sua vida.
A tertúlia de que é testemunha (sugestionada com certeza pela presença naquele “lugarzinho”) assenta numa animada troca de palavras entre os defuntos enterrados em algumas das sepulturas daquele cemitério. Provenientes de vários quadrantes da sociedade russa, revelam todas as suas fraquezas, frustrações, ilusões e imoralidade tal como quando eram vivos. Mais uma vez, o autor concentra a sua energia literária na crítica aos costumes da sociedade na qual se integra, transformando o conto na não-história de um ausente que nunca chegamos a saber de quem se trata, Bobok. É um nome que surge da boca de um fantasma, nome não corporizado por alguém, símbolo do delírio da personagem que assiste à parada grotesca de espectros que se divertem no e com o cenário da morte. Bobok é quase como se fosse o despertar do sonho, a palavra que separa o narrador do mundo real do mundo dos mortos a que a sua mente imaginosa o conduzira.

sábado, janeiro 27, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - “O Crocodilo” de Fiodor Dostoievski

Um crocodilo exposto no “passage” de São Petersburgo e um visitante engolido pelo animal, é circunstância suficiente para cativar o leitor apesar do aparente despropósito e ridículo da situação. Mas em Dostoievski, o grotesco tem uma motivação oculta operando nos bastidores da sua alma.
De facto, antes de partir para férias, Ivan Matveitch, a sua mulher e um amigo, decidem ir ver um crocodilo, pertença, há várias gerações de uma família alemã, e pela primeira vez na cidade russa. A primeira impressão dos visitantes, foi de que o animal não parecia vivo pois não se manifestava na presença de pessoas. Todavia, não demora a manifestar-se ao abocanhar e ingerir o acima referido Ivan Matveitch. Ingere mas não digere o homem pelo que, permanece vivo no interior da besta. Acomoda-se numa posição confortável dentro das entranhas do réptil (revelando, no entanto, que o crocodilo era oco por dentro, não mostrando sinais de possuir órgãos, daí Ivan se sentir como em casa, não manifestando sequer o desejo de dali sair) e é a partir desta premissa que o autor desenvolve uma história ridícula sim mas com o intuito vincado de mostrar a sociedade russa à luz da mentalidade pequeno-burguesa que a invadira. E como se manifesta este pequeno-burguesismo dominante e que o autor tão severamente analisa? Matveitch afirma querer passar a vida dentro do crocodilo, podendo inclusivamente assumir funções, em comissão de serviço, de naturalista a trabalhar no terreno. E tendo em consideração a circunstância invulgar em que se encontrava, seria ouvido e a sua opinião respeitada e até poderia trabalhar deitado… A mulher, Elena Ivanovna, receberia os convidados em casa ou até se poderia ponderar a possibilidade de se mudar para junto dele já que, naquele espaço cabiam duas senão três pessoas.
Ninguém considera muito estranha esta pretensão a não ser o amigo, narrador do invulgar acontecimento, que se interroga sobre como as necessidades mais básicas de Ivan poderiam ser satisfeitas.
A estrutura social russa é dominada pela classe burguesa. Mas alicerces em terreno pantanoso, provocam a cedência da estrutura. E ruiu. No fim ruiu.

"A Submissa e Outras Histórias" - “Apontamentos de Inverno sobre Impressões de Verão” de Fiodor Dostoievski

É com incomensurável ironia que o narrador destes apontamentos, conta os sucessos da sua viagem ao fascinante lado ocidental da Europa. Fascinante até conhecer o seu âmago.
Russo de nascimento, sempre se sentira atraído por essa “civilização superior”, tão perto e tão distante. Era seu desejo conhecê-la, nela se movimentar, respirar os seus ensinamentos e dela retirar o melhor. Mas, uma vez em viagem, e fazendo o circuito dos três mais emblemáticos países europeus – Inglaterra, Alemanha e França – o narrador depara-se com situações inesperadas que o transportam para um mundo de vulgaridade que suscita as impressões mais diversas.
Em Inglaterra abala-o a vida miserável das multidões de mulheres que vagueiam em certas ruas à noite e, sobretudo, o abandono das crianças que erram entre dois mundos: aquele que difusamente ainda lhes sussurra canções de embalar e aquele outro que por elas chama com brados violentos, obrigando-as a deambular feridas pela noite londrina, nevoenta e sinistra, cega. No entanto, o nosso narrador olha e vê a degradação daquelas pequenas vidas perdidas e não compreende como pode aquela gente não reparar numa criança andrajosa repleta de nódoas negras por baixo da roupa que mal a cobre.
Sobre a estada na Alemanha faz algumas considerações sobre a vulgaridade das mulheres de Dresden e a frieza de Berlim (nem as famosas tílias a alegravam no seu cinzentismo mudo).
Mas é a França, e mais concretamente a grande metrópole que já era Paris, o principal alvo da sua ironia e críticas, centrando-as em torno da figura prevalecente da sociedade parisiense da época, o Burguês. Este tipo emergente incomoda assaz o narrador pela sua falta de sensibilidade, pelo seu constante desejo de cultivar a aparência de uma moral imaculada, de um conceito de família distante da realidade praticada e, acima de tudo, pela dureza patente na consideração do capital financeiro como um “valor” mais elevado que o capital humano. O narrador brinca com a hipocrisia do burguês e com a vida conjugal incoerente que leva, contudo, o seu sarcasmo contundente atinge o coração da Europa no seu coração e revela a verdade (segundo o autor) do papel do Burguês.
E enquanto isso, enquanto o mundo girava imperturbável, crianças percorriam as ruas em busca da sobrevivência.

domingo, janeiro 21, 2007

"A Submissa e Outras Histórias" - "Uma História dos Diabos" de Fiodor Dostoiévski


Em jeito de introdução, de referir apenas que, tratando-se “A Submissa e Outras Histórias” de um livro de contos, optei pela análise de cada um separadamente. Comecemos, então, pelo primeiro – “Uma História dos Diabos”.

O protagonista do conto é um General que, talvez motivado por uma noite em que bebeu demais na companhia de dois amigos ou por um súbito assomo de consciência, vê-se enredado numa teia de acontecimentos que irão comprometer a sua imagem perante os seus subordinados.
Ivan Illitch é um homem sem preocupações até uma noite em que, celebrando o aniversário de um amigo na sua nova residência, se sente estranhamente próximo ou compadecido do povo que até àquele momento desprezava. O texto gira em torno de uma frase aparentemente sem sentido dita por um dos amigos – “Não aguentaremos” –, frase que se revelaria profética, não só em relação à experiência individual de Illitch naquela fatídica noite, como em relação à própria evolução da História Russa.
O protagonista sai de casa do amigo perturbado. O seu cocheiro, perante a perspectiva de uma maior demora do amo, encontra-se num casamento e Illitch é obrigado a ir para casa a pé, ideia que lhe não desagrada de todo. Após algum tempo de caminhada, ouve música festiva, aproxima-se da casa de onde os acordes e vozes de contentamento vêm e apercebe-se que está diante da casa de um seu subordinado, Pseldonimov. Recorda-se que o mesmo iria casar e parte do princípio que os festejos a que assiste são em consequência do casamento do seu funcionário. A sua indecisão face à posição a tomar perante aquela situação, denota um claro sentido de classe: por um lado não se quer misturar com gente daquela “laia”, por outro quer fazer o bem, ou seja, julga que a sua presença nas bodas de Pseldonimov seria uma inesperada honra para o mesmo e uma bênção dos céus. A sua falsa modéstia só é suplantada pelo medo que o acomete, um medo de não agir como seria expectável, um receio de não corresponder àquilo que aquela gente dele esperaria, um desassossego que não consegue identificar mas que, pouco depois, ao tomar a decisão definitiva de entrar na casa, de participar na festa com uma breve e pacata presença (que depois se revelaria mais prolongada e menos pacata do que inicialmente previsto) e com o decorrer dos acontecimentos ao longo da noite, se torna evidente para o leitor que o grande medo do General era perder a compostura, tornar-se vulgar, palpável, humano aos olhos daquela gente “inferior”. O protagonista cai do seu pedestal na tentativa de dele descer por momentos para fazer uma acção benemérita e perante aquelas pessoas que já lhe perderam o medo que inicialmente também dele tinham (medo recíproco), Ivan Illitch é uma pessoa, tão só uma pessoa que diante do exagero também vacila e cai e volta a erguer-se. Mostrara fraquezas.
A expressão do general seu amigo – “Não aguentaremos” – emerge como um augúrio do que Illitch diria no final do conto resumindo a sua postura durante aquela noite – “Não aguentei” –.

domingo, janeiro 14, 2007

"Morte no Nilo" de Agatha Christie

A construção da intriga é conseguida através da desconstrução das personagens envolvidas antes, durante e após o crime em torno do qual toda a história gira, sendo que a podemos dividir em quatro momentos, quatro momentos de uma trama em que todos os passageiros a bordo do vapor “Karnak” são possíveis suspeitos do assassinato da milionária em viagem de lua de mel, Linet Doyle.
Assim, nas primeiras páginas da obra é-nos dado a conhecer o panorama da vida das personagens que se irão encontrar na mesma embarcação no Nilo passados alguns dias e temos acesso a algumas primeiras impressões sobre o estado das pessoas em questão.
Num segundo quadro, já temos o Egipto como cenário de convergência dos protagonistas, incluindo Hercule Poirot em férias mas sempre atento e reflectindo sobre os incidentes que observa, revelando o carácter profundamente analítico mesmo quando numa despreocupada viagem de lazer.
No terceiro momento, o acontecimento sobre o qual a obra se baseia, o crime perpetrado contra Linet, sucede e compreendemos que tudo o que havia sido narrado até ali era uma preparação, uma antecipação do que por fim se revela como uma inevitabilidade.
Na quarta parte da obra, Poirot desmascara os culpados e o desfecho acaba por se revelar tão trágico para eles como para a mulher assassinada.
O narrador enreda-nos num labirinto de suspeitas e no labirinto que revela ser a alma humana. O “Karnak” é, no fundo, um microcosmo da própria vida, um espaço fechado em que a única fuga possível é a morte.
Um primeiro momento de libertação é o plano aparentemente perfeito e bem sucedido que conduz à morte de Linet, mas o “Karnak” mais não é do que uma barca de Caronte com destino certo. A tragicidade do percurso da milionária (bela, rica e jovem) é comparável ao percurso de sofrimento de outras personagens entre as quais se encontram os próprios assassinos. Na realidade, a reunião daquelas pessoas, naquele local, durante aqueles dias, é um momento em branco nas suas vidas apenas à espera de ser preenchido de acordo com o seu livre arbítrio. Poirot concede a hipótese de uma segunda oportunidade a uma das personagens, transmite-lhe a ideia de que, aquela viagem poderia ser uma preciosa ocasião de purificação da alma, de entrega ao bem e rejeição do mal, mas não é bem sucedido na sua tentativa de demover esta personagem do seu intuito final, do objectivo bem delineado na sua mente.
A comparação entre o crime de roubo (perdoado por Poirot porque o criminoso era recuperável pelo Amor) e o crime de sangue (não perdoável porque induzido por um Amor demasiado grande, doentio) torna “Morte no Nilo” uma interessante viagem ao interior de cada uma daquelas almas (a par da viagem real), uma viagem ao carácter volúvel e funesto da alma humana, bem como à restauração da mesma.
Esta é uma história de perdição e de renascimento.

sábado, dezembro 30, 2006

"D'este viver aqui neste papel descripto: cartas da guerra" de António Lobo Antunes

A viagem literária a este conjunto de epístolas escritas em natural tom familiar, poderia facilmente desembocar na análise críptica de um Amor vivido à distância, fruto da salutar teimosia de um Homem avassalado pela dor e pela saudade que a separação forçada provocaram. O outro "arrepio" que perpassa pela obra é a circunstância que ocasiona o afastamento agonizante: a guerra colonial.
Seria, então, óbvio que o crítico literário focasse estes dois motivos que, de forma exemplar, dão vida ao fresco vivencial que é a presente obra. No entanto, um outro conteúdo menos evidente (e, contudo, tão presente e repetido ao longo de todas as cartas), porque suplantado pela história de Amor que acompanhamos, é a história da história que o autor está a escrever, o processo evolutivo da mesma, as incertezas que o assolam face à qualidade da sua escrita, a necessidade de aprovação alheia, em primeiro lugar da mulher e depois do mundo (até porque, tendo conhecimento dos supostos grandes autores do seu tempo, considera-se – e trata-se de um julgamento muito parcial e também sujeito a dúvidas e correcções da parte do próprio – melhor e inigualável).
Estamos, portanto, perante uma obra em que um triângulo temático é exteriorizado em experiências distintas e marcantes partilhadas num mesmo espaço, o aerograma: a experiência amorosa, a experiência de guerra e a experiência de escrita.
Em comum têm o facto de todas elas serem, de formas distintas, dolorosas para o autor, mas é a experiência da escrita que lhe fomenta os sentimentos mais contraditórios podendo ir desde a perfeita euforia catártica, até ao desânimo prostrante. E, para além de opinar sobre a sua própria escrita em andamento ou incapacidade para contornar um determinado obstáculo literário surgido da doença, da desilusão, do não recebimento de cartas da pessoa amada ou da solidão desnorteante, não deixa igualmente de expor algumas ideias controversas, porque não compatíveis com a opinião corrente, sobre autores portugueses e estrangeiros consagrados. “Nasce” o nosso tão apreciado polemista Lobo Antunes.
A obra em que se empenha o autor naqueles longos meses de “reclusão” naquela longínqua remota região pretende, segundo o mesmo, ser revolucionária e abalar a literatura existente, ultrapassá-la em qualidade, criar um novo estilo, induzir no leitor a ideia (a verdade) de que nunca antes tinha lido algo igual.
À distância de largos anos (as cartas a que tivemos acesso remontam a 1972), constatamos que a confiança, embora por vezes vacilante de António Lobo Antunes, na potencial dimensão qualitativa da sua obra, e a crença absoluta da mulher na certeza do marido vir a ser um autor de referência no futuro, revelaram-se felizes previsões confirmadas.