domingo, fevereiro 01, 2009

“O Meu Diário de Guantánamo - Os Prisioneiros e as Histórias que me Contaram” de Mahvish Rukhsana Khan

Khan, Mahvish Rukhsana, O Meu Diário de Guantánamo – Os Prisioneiros e as Histórias que me Contaram (My Guantánamo Diary – The Detainees and the Stories They Told Me), Bizâncio, Tradução de Cláudia Brito, 2008.

Filha de pais afegãos, nascida nos Estados Unidos da América, dividida entre a tradição, cultura e língua pashtun e uma vivência ocidental, Mahvish Rukhsana Khan, mergulhou na realidade periférica de Guantánamo ainda enquanto estudante de direito mas conhecedora dos costumes e idioma que fariam com que os advogados que tratavam dos processos dos prisioneiros de origem afegã, mais facilmente com eles comunicassem e lhes transmitissem a confiança necessária numa relação advogado/cliente.

Três casos em particular a ocupam no tempo interrompido que significa Guantánamo para os prisioneiros inocentes que aguardam uma acusação alguns há três anos. Esse tempo imóvel desde que haviam sido separados das suas famílias, parece retomar o seu andamento com a presença familiar de uma mulher que fala a língua deles, que conhece os seus costumes, que os observa com o respeito que a cultura pashtun incutida pelos pais reservava a todo o Ser-Humano. E confessam-se, inundam aquelas celas de histórias de horror, ódio e traição protagonizadas não só pelos americanos que os maltratavam enquanto pretensos terroristas, como também pelos conterrâneos que os tinham vendido.

É um conjunto de histórias de vidas suspensas aquelas apresentadas por Mahvish Khan, de pessoas normais que na espiral de medo que se seguiu ao 11 de Setembro (impelindo os americanos a distribuir milhares de panfletos nos países que albergavam terroristas nos quais eram oferecidas recompensas milionárias a pessoas que viviam abaixo do limite da pobreza e que movidas pela inveja, pela oposição política ou social, pela mera rivalidade tribal, entregaram adversários aos americanos sem qualquer prova de culpa – bastava apontar e dizer que aquele ou aquela estava envolvido em actividades terroristas) foram apanhadas na teia de uma febre inquisitorial e farisaica própria de um qualquer improvável farwest.

Contudo, a autora não se limita a expor os casos de injustiça evidentes existentes em Gitmo. Ressalva sempre que por trás daquelas paredes, estão não só inocentes como culpados, embora a acusação não formada dos prisioneiros de Gitmo e a tortura de que todos foram vítimas, não seja, forma digna ou humana de conduzir qualquer processo, seja ele qual for.

Gitmo funciona não só como símbolo do autoritarismo selvagem e sem lei da Administração Bush, mas igualmente como súmula da indiferença do mundo perante tão evidente transgressão do direito internacional e do que é humanamente tolerável.

Como é possível libertar-se um prisioneiro depois de anos de cativeiro, provada que ficou a sua inocência, e largá-lo simplesmente no local onde o haviam inicialmente interceptado? Será isto civilização? A estas e muitas outras questões se alude no presente volume que deixa marca.

domingo, janeiro 25, 2009

"Titus - O Herdeiro de Gormenghast" de Mervyn Peake

Peake, Mervyn, Titus - O Herdeiro de Gormenghast (Titus Groan), Saída de Emergência, Tradução de José Manuel Lopes, 2007.

No mundo incrível a que Mervyn Peake deu o nome de Gormenghast, o leitor vislumbra uma terra com algumas menções espaciais que não identifica à luz da sua realidade e as referências temporais limitam-se à passagem de dias, meses ou anos, não sendo possível reter os acontecimentos numa redoma temporal que reconheçamos como nossa.

Tudo se estrutura de forma invertida, numa confusão premeditada de personagens fantásticas com funções assombrosas e aparência admirável.
Titus Groan é filho da Condessa e do Conde Sepulchrave, o último de uma linhagem antiga e poderosa dentro dos muros do castelo, submissa aos rituais imemoriais que haviam tornado a Casa de Groan um bastião de obediência a essas cerimónias por vezes sem sentido que Sourdust primeiro e o filho Barquentine depois se asseguravam de garantir sem que percebamos jamais o seu propósito. Os protocolos poeirentos de Gormenghast desgastavam Sepulchrave mas eram cumpridos sem qualquer objecção ocupando-lhe grande parte do dia até que, por fim, se deleitava junto da única companhia que lhe proporcionava verdadeira satisfação: os seus livros.

Titus nasce e a Condessa pede à Ama Slagg para a criança lhe ser imediatamente retirada e apenas o voltar a ver quando tiver completado seis anos, mais importância parece dar aos inúmeros pássaros e gatos que a rodeiam e com os quais comunica. Mesmo Lorde Sepulchrave não denota interesse pelo filho senão pelo facto de ser o herdeiro de Gormenghast e em consequência guardião dos rituais sem sentido que tornavam Gormenghast um reino desolado de trevas e escadas tortuosas que desembocavam invariavelmente num outro compartimento de Gormenghast. Um labirinto do qual não parece ser possível escapar.

Apenas Fuchsia, a filha mais velha de Lorde Sepulchrave e da Condessa, se aventura em locais onde o verde da natureza ou o azul do céu se lhe insinuam como que a desafiando a transpor barreiras, convenções e preconceitos com que se via rodeada no castelo.
É como se o mundo no castelo se apresentasse a preto e branco e a verdadeira vida estivesse para lá dessas muralhas. Até conhecer Steerpike. Um jovem ambicioso que é encontrado por Fuchsia ferido numa sala por si dominada. Steerpike foge da cozinha e do seu terrível Chefe Swelter e ilumina e torna colorida com os seus embustes a monótona vida do castelo. Steerpike fascina Fuchsia sem que esta o admita ou até o depreenda conscientemente. Entra no seu espaço secreto e deixa o odor da sua presença de liberdade no coração de Fuchsia, compreende-a, lê o seu coração como ninguém. Fuchsia será a única pessoa de quem Steerpike se aproxima desinteressadamente.

A escrita de Mervyn Peake é uma escrita repleta de cores e movimentos, acções e expressões, uma escrita eminentemente plástica, digna de uma adaptação de Tim Burton… O filtro gótico que Peake empresta a esta obra melancólica, cheia de um sentimento de perda comum a todas as personagens, o contraste entre os vestidos roxos das irmãs loucas de Sepulchrave e o vestido vermelho de Fuchsia e ainda o ambiente de ódio entre o decrépito Flay e o obeso Swelter que culmina com um combate até à morte, para além de todos os improváveis de que o livro é incrustado, tornam-na indispensável.

domingo, janeiro 11, 2009

"O Carteiro de Pablo Neruda" de Antonio Skármeta

Skármeta, Antonio, O Carteiro de Pablo Neruda (El Cartero de Neruda), Biblioteca Sábado, Tradução de José Colaço Barreiros, 2008.

Desde que vi a transposição para o grande ecrã de “O Carteiro de Pablo Neruda” dirigido por Michael Radford que queria ler a obra de Antonio Skármeta na qual o filme se baseou. Criei grandes expectativas em relação a esta leitura porque a história contada no cinema era muito simples mas repleta de uma aura poética e humana que muito admirei e aplaudi.

Contudo, a riqueza das personagens no filme de Radford (quem não se recorda da magnífica interpretação de Massimo Troisi como Mario, o carteiro de Neruda?) esbate-se no suporte inicial e desilude pela simplicidade sem magia que patenteia.
Falta-lhe a genuinidade e pureza das vozes que deram corpo à história de um carteiro que entregava cartas à única pessoa que as recebia naquele mundo do fim do mundo, Pablo Neruda, estabelecendo-se uma relação de cumplicidade e mesmo amizade entre dois homens fruto de gerações diferentes mas feitos da mesma matéria sensível.

Em contraste com a política de aldeia que se desenrolava na ilha, palco menor mas ainda assim revelador de tendências nacionais, surgia a grande política na qual Neruda era actor principal no proscénio do destino do Chile.
É evidente que para além das questões políticas que muito ocupavam Neruda, Mario trazia-lhe sempre com o correio as suas francas interrogações sobre poesia e o amor por Beatriz, questões que assumiam proporções salientes na vida do carteiro de Neruda e nas quais envolveu o poeta.

Era um mundo de coisas simples, de pessoas que sonhavam a vida e o pequeno mundo que habitavam sem complicações e a convivência de Neruda com as pequenas dificuldades que Mario encontra para conquistar as poucas coisas a que poderia aspirar, servem de inspiração ao poeta que descobre no jovem carteiro essa sensibilidade tão difícil de percepcionar, de presenciar.

Não existe uma correspondência de qualidade entre livro e filme e por muito que quisesse, não consigo deixar de efectuar esta associação, ainda para mais tratando-se de um filme que tanto aprecio. Ocorre-me dizer que Antonio Skármeta desenvolve com alguma pobreza uma bela ideia e Michael Radford transforma um livro vulgar numa obra cinematográfica, para mim, inesquecível.

De notar, contudo, que a espaços assistimos a momentos de prosa poética que não posso deixar de valorizar e destacar conforme poderão confirmar na barra lateral esquerda na rubrica “Excertos” onde reproduzo um dos mais belos instantes lidos da presente obra.

sábado, janeiro 03, 2009

"A Guerra dos Tronos" de George R. R. Martin

Martin, George R. R., A Guerra dos Tronos (A Game of Thrones), Saída de Emergência, Tradução de Jorge Candeias, 2007.

A incursão no género literário em que “A Guerra dos Tronos” se encaixa, atribuo-a às várias críticas entusiastas lidas nos meus poisos literários habituais. Foi, assim, com alguma naturalidade que fui generosamente instigada a ler a actual obra, livro primeiro da saga denominada “As Crónicas de Gelo e Fogo”.

Esta fantasia por alguns dada como próxima daquela criada por Tolkien, parece-me claramente diversa.
É certo que estamos numa Idade Média imaginária e é igualmente certo que as personagens são marcantes, fortes nos seus propósitos e atitudes. Contudo, o mundo de fantasia de Tolkien vai um pouco mais além, é mais ousado na medida em que para além da panóplia de personagens humanas, são introduzidos seres com características físicas ou espirituais não humanas como duendes, fadas, elfos ou feiticeiros. George R. R. Martin, e reporto-me apenas ao primeiro volume de uma obra vasta, simplifica o universo apresentado dispondo apenas tipos humanos na história até agora contada.

Existe, no entanto, uma insinuação de ameaça quase sobrenatural para lá do mundo conhecido, para lá da Muralha de Gelo que separa os espaços em que as personagens apresentadas neste primeiro livro se movimentam e essa outra extensão de terra de onde parecem emergir sinais inquietantes que nos deixam em suspenso para o volume seguinte.

A história é simples e contada sem grandes artifícios estilísticos, mas o dinamismo que o autor empresta ao narrador na forma como nos transmite as venturas e desventuras dos Stark, dos Lannister e dos Targaryen, incute no leitor o desejo de mergulhar nas águas profundas das tramas em que estas três casas nobres estão implicadas.

A literatura fantástica é o género literário que menos explorei até ao presente momento, mas depois desta experiência de grande interesse e da oferta neste Natal do segundo volume de “As Crónicas de Gelo e Fogo” – A Muralha de Gelo” – será, como é óbvio, uma experiência a repetir.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

"Carrie" de Stephen King

King, Stephen, Carrie, Tradução de Maria Filomena Duarte, Bertrand Editora, 2008.

A história de Carrie White, uma jovem adolescente rejeitada com o dom (ou a maldição) da telecinesia, é contada por várias vozes que sobreviveram à vingança do Baile de Finalistas e que participam no inquérito aos acontecimentos daquela noite fatídica.

Assim, sabemos que Carrie vivia com uma mãe que professava uma fé religiosa ultra conservadora impondo à filha, por meio da violência psicológica, os valores e atitudes desencadeantes do afastamento do mundo profano e repleto de tentações; Sabemos que Carrie vestia roupas largas que escondiam as formas do seu corpo e desconhecia os factos mais naturais da vida como é o caso da menstruação; sabemos que quando tinha cerca de três anos uma chuva de pedras se abateu sobre a casa em que vivia com a mãe e essa fora a primeira manifestação da telecinesia, analisada numa base científica como sendo algo de hereditário, uma espécie de doença que se manifestava quando o sujeito estava sob uma forte tensão provocando a mobilidade de objectos estáticos; sabemos que Carrie era e sempre fora vítima de perseguição por parte das alunas mais populares na escola que frequentava; sabemos que fora convidada para o Baile de Finalistas e que no momento de receber o prémio de Rainha do Baile juntamente com o seu par, algo de inominável acontecera despoletando a vingança de Carrie naquele pavilhão e depois um pouco por toda a cidade.

Carrie como o fruto do pecado, como a lembrança viva da prevaricação da sua mãe, enfrentou-a para se tornar em alguém normal por uma noite. Fez o seu vestido, foi genuinamente elogiada por aqueles que a desprezavam horas antes, aplaudida quando subiu ao seu palco de glória e por fim, quando nada poderia já correr mal, foi ridicularizada perante aquelas centenas de pessoas voláteis.

As portas foram encerradas com um simples olhar. Carrie primeiro estática ao ser, novamente, o centro da mofa alheia, depois move-se freneticamente para fugir das gargalhadas que a dilaceram.
Depois de fechadas as portas, instala-se o pânico e tudo se move sozinho e as chamas purificam o local onde o cordeiro foi publicamente sacrificado.

Carrie ainda vagueia pela cidade enquanto a mãe a espera com uma faca para a matar, para o derradeiro derramamento de sangue, a imolação final.

Este romance de Stephen King aborda em 1974 o tema do assédio entre adolescentes mais universalmente conhecido por “bullying” levado a um extremo de consequências terríveis nesta obra adaptada brilhantemente ao cinema por Brian de Palma em 1976.

Apesar da carnificina final, perpassa a ideia de que a verdadeira vítima é Carrie, uma menina que só queria ser amada.

domingo, novembro 30, 2008

"Diego & Frida" de J.M.G. Le Clézio

Le Clézio, J. M. G., Diego & Frida (Diego et Frida), Relógio D’Água, Tradução de Manuel Alberto, 1994.

Um elefante e uma pomba.

Frida Kahlo, a jovem sofredora mas decidida, delicada, resolvida a trepar árvores para gritar o seu amor incondicional por Diego.

E Diego de Rivera, o experiente homem do mundo, ogre de mulheres, coleccionador itinerante de rostos e corpos, gigante corpulento que arrebata o olhar perscrutador e rígido de Frida.

Antes de começar verdadeiramente a história de vida de Diego & Frida, deparamo-nos com um Diego ávido de aventura e da descoberta dos locais “sagrados” observados e percorridos pelos seus mestres de sempre. Parte para Paris onde se deslumbra com o ambiente de fervilhante revolução artística, conhece e priva com os grandes obreiros dessa reforma criativa, vive, pinta, ama e perde o seu único filho na buliçosa e gélida cidade onde pululam ideias e génios mas não o conforto que poderia ter salvo a criança cujo fim o deixará eternamente ferido e com uma triste aversão pela cidade da escuridão.

O regresso ao México traz-lhe um projecto de frescos no anfiteatro de uma escola, ideais políticos que espera representar na sua pintura e uma nova mulher, Lupe Marín.

Aliás, o compromisso de Diego de Rivera com a pintura é de cariz interventivo e nunca cessará de o ser mesmo quando põe um ponto final na sua filiação no partido comunista. Diego é livre, é um selvagem na medida em que não suporta que imponham restrições ao seu livre pensamento, à sua liberdade artística, não aprecia os limites, as barreiras. Para ele tudo é possível, a sua confiança ilimitada e vive de acordo com essa crença linear e segura em si próprio.

Já o compromisso de Diego de Rivera com as mulheres da sua vida, não terá sido tão imaculado…

Quando uma adolescente curiosa se aproxima do local onde Diego pinta os frescos da Preparatoria, Lupe Marín sente a incomodidade na pele. Aquele encontro que não chega a ser encontro, será o primeiro de uma vida de encontros e desencontros entre Frida Kahlo e Diego de Rivera. Entre a pomba e o elefante.

Algum tempo depois desse primeiro impacto de vida, Frida sofre um acidente que lhe transforma o corpo, a alma, a vida para sempre. Um impacto de morte. Tinha um destino a cumprir, uma missão, mesmo que tal significasse ficar encarcerada num corpo mutilado e presa a uma forma de vida que não desejava mas que abraça com coragem. Tem de aprender a viver todos os dias com a dor física. Porque Diego a espera. Porque toda a vida esperou por Diego.

É o confronto de Frida com Frida, ferida de morte, sobrevive através de Diego, da pintura que é o cordão umbilical que a liga ao mundo exterior, a Diego, ao filho que tanto desejara e não conseguira conceber. A dor. Dor de alma por se olhar ao espelho e tudo lhe parecer bem e as entranhas, no entanto, a despedaçarem por dentro.

Frida una não existe, Frida é diferente e outra em cada auto-retrato pintado, em cada cenário que cria em cada vivência que abraça.
E também Diego se auto recria em vários momentos, qual Fénix renascida após a aventura americana em que deixa a marca dos ideais comunistas nas grandes metrópoles americanas, provocando a ira dos magnatas do núcleo capitalista mundial.
É a provocação maior a que poderia almejar e no regresso ao México é herói público, aclamado pelo povo e Frida a seu lado uma heroína privada, saudada pelo seu sofrimento.

Um livro que vai para além da mera biografia, J. M. G. Le Clézio interpreta, investiga, cruza informação e decifra o que Frida e Diego escreveram sobre a sua vida em comum e os seus tormentos privados, romanceia uma história que atravessou a História e fez História.

domingo, novembro 23, 2008

"O Pregador Atormentado" de Thomas Hardy

Hardy, Thomas, O Pregador Atormentado (The Distracted Preacher), Quasi, Tradução de Vasco Gato, 2008.

Um jovem pregador metodista, Richard Stockdale, chega à pequena aldeia de Nether-Moynton para guiar o rebanho de fiéis provisoriamente, e logo compreende que ninguém havia assegurado a questão do alojamento do novo pastor, indiferentes que estavam à sua chegada.
A única casa com um quarto disponível era a da jovem viúva Lizzy Newberry que nela vivia com a mãe e uma criada.

E é nessa estada em casa de Lizzy que Stockdale se começa a aperceber das estranhas e inconstantes rotinas da Senhora Newberry, atento que estava às suas movimentações graças a um crescente interesse pela sua pessoa, assim como desperta para o envolvimento da aldeia numa forma de subsistência ilícita na qual Lizzy está implicada.

As incursões nocturnas de Lizzy preocupam-no não só porque a integridade física da mulher que ama pode estar em causa, mas também porque pondera os hábitos peculiares da viúva como um entrave, uma impossibilidade para esta se tornar mulher de um pregador metodista, neste caso, sua mulher.
As responsabilidades de uma mulher na posição em que Stockdale a projecta, não seriam compatíveis com a vida noctívaga, por razões de sobrevivência pessoal é certo, em que Lizzy se encontra.
Mas o apelo da subsistência não é o único a pesar no coração dividido da viúva Newberry. A vida aventurosa que leva também a requesta a uma continuidade ilógica e perante a insistência do pastor na desistência do modo de vida escolhido, a heroína deste conto aventura-se a permanecer sozinha, a atravessar os campos inundados de lua em amenas madrugadas de verão, a liderar homens com o casaco do marido falecido por cima do vestido, a fugir intrepidamente do fiscal Latimer que persegue os que roubam Sua Majestade o Rei.
Lizzy abdica do Amor e Stockdale na encruzilhada da emoção e do dever, parte de Nether-Moynton rumo a outra congregação, a uma existência sem sobressaltos nem atribulações, longe da mulher amada, mas seguro da impraticabilidade daquela união naquelas circunstâncias, reprovando a obstinação daquela mulher independente.

O fim da história, um fim ideal, “praticamente de rigueur numa revista inglesa ao tempo em que foi escrito” como afirma Hardy muitos anos mais tarde, sofre em 1912 um acrescento final, uma nota do autor, em que explica o porquê dessa escolha e sem qualquer contemplação, afirma que, na verdade, o desfecho da história de Lizzy e Stockdale seria fiel ao temperamento libertário da viúva, sem salpicos de exemplaridade mas unicamente transbordante da coragem de Lizzy em assumir que a noção de perfeição dos outros nem sempre coincide com os nossos sonhos.

sábado, novembro 22, 2008

"Rua do Ácido Sulfúrico - Patrões e Operários: Um olhar sobre a CUF do Barreiro" de Jorge Morais

Morais, Jorge, Rua do Ácido Sulfúrico – Patrões e Operários: Um olhar sobre a CUF do Barreiro, Bizâncio, 2008.

Uma cidade dentro de uma cidade. Eis o que a CUF, a Companhia União Fabril, foi no Barreiro durante décadas de existência e convivência com o pólo citadino ali próximo.
Hoje, de regresso à CUF, restam “escombros e silêncio”. O que sobreviveu do movimento de gente e máquinas que dava vida a um dos maiores e mais significativos complexos industriais do Portugal da primeira metade e parte da segunda metade do século XX? O autor observa a extensão de “… vestígios desengonçados de estruturas metálicas, tubagens esventradas, caldeiras, fornos e carris roídos pela ferrugem, esqueletos machucados de armazéns, muretes em decomposição, portões entaipados por madeira podre. A erva cresceu em ramagens de mato e finca os seus pés no território deste deserto, reclamando espaço na desolação. Um vento absurdo silva por entre pilares esfiapados até à medula, tectos que sucumbem, frontispícios desdentados, mecanismos calcinados onde bamboleiam com sarcasmo teias de aranha. O céu escancara-se para aplicar uma luz cruel, cegante, sobre planaltos de cinzas, resíduos de um clamor que se extinguiu. Apenas restos de lancis sugerem que aqui houve ruas, vozes, gente. Pontuando os destroços, chaminés agonizam com a dignidade de gigantes lacónicos.”.

“Rua do Ácido Sulfúrico” é um estudo de vivo interesse sobre o percurso da CUF desde os seus primórdios (1907) até ao seu fim (1974).
Para além da ênfase dada ao trabalho meritório de Alfredo da Silva, o fundador, e seus descendentes, somos igualmente arrebatados pela força da maioria, daqueles que faziam da CUF um grupo de empresas com níveis de produtividade extraordinários, pautadas por um prestígio imaculado e por um conceito de cidade de trabalho que transformou a Companhia União Fabril no exemplo mais acabado de empresa que provia às necessidades não só laborais mas também pessoais dos seus trabalhadores.

Muitos viviam com as suas famílias no interior do complexo industrial, abasteciam-se na mercearia que lhes disponibilizava produtos mais baratos que no exterior, tinham uma assistência médica invejável, faziam parte do grupo cultural e recreativo, praticavam as mais diversas modalidades desportivas, sentiam-se parte de uma organização que reconhecia o valor do trabalho e fazia questão de o premiar devidamente.

Jorge Morais relata-nos o trajecto ascendente da CUF e a sua queda, mostra o legado positivo que permaneceu, sobretudo como modelo de como uma estrutura empresarial deve funcionar não só em termos organizacionais mas sobretudo ao nível do relacionamento com a massa trabalhadora.
O autor também realça o impacto negativo que a industrialização do Barreiro trouxe, nomeadamente, a qualidade do ar que se respirava nos tempos de pleno funcionamento da CUF não seria, evidentemente, a melhor. O progresso sempre teve um preço.

Trata-se de um capítulo pouco explorado e, consequentemente, pouco conhecido da nossa história do século XX que esta “Rua do Ácido Sulfúrico” vem enriquecer com imagens de progresso, engenho, trabalho que nada mais são que exemplares para os herdeiros dessa memória: Todos nós. Uma obra essencial.

domingo, novembro 16, 2008

"A Cura de Schopenhauer" de Irvin D. Yalom

Yalom, Irvin D., A Cura de Schopenhauer (The Schopenhauer Cure), Saída de Emergência, Tradução de Carlos Romão, 2006.

Julius Hertzfeld é terapeuta e é-lhe revelada a inesperada notícia da sua morte iminente.

Esta é a história da forma como Julius partilha essa revelação com um grupo de terapia que acompanha e, sobretudo, como inclui nesse conjunto de pessoas por si “escolhidas” um antigo paciente, tido como um fracasso marcante na carreira de Julius.
A reabertura do dossier de Philip Slate traz à memória de Julius uma patologia que não fora possível debelar e ocorre-lhe que uma das suas últimas missões enquanto Ser-Humano seria procurar Philip e tentar compreender o que falhara e se recuperara.

Encontra um homem diferente graças ao seguimento de uma filosofia que transpusera para a sua vida quotidiana, uma auto-prescrição de pensamentos e normas provenientes dos escritos de Arthur Schopenhauer.

Philip estava curado do problema que o afligira vinte anos antes contudo, o facto de reger a sua vida em torno de um conjunto de ideias rígidas, anti-sociais e deterministas, transformara o seu mundo de descartável (visto as relações humanas que encetava serem fugazes e, consequentemente, sem significado profundo, tudo era substituível e procedia sem remorso) em insular. Ele isolara-se conscientemente da massa humana imprópria, convertera-se num Ser hibernante, preso numa cela de ideais dourados, refugiado da influência nefasta que o contacto humano lhe proporcionara. Philip rompe com a vida.

Julius sente que é seu dever resgatar alguém que em vida não vive e que ele não conseguira ajudar a encontrar um rumo. É quase como se sabendo da sua ausência para breve e para sempre, pretendesse restaurar a alma enfraquecida de Philip, lhe pegasse na mão para ocupar o lugar que ele, Julius, deixaria vago no teatro do mundo.

A frieza das doutrinas de Schopenhauer apodera-se da semi-vida de Philip, contribuindo para a fruição que parecia retirar da absoluta solidão em que sustinha a sua existência. E é então que, gradualmente, a partilha de experiências com o grupo, o exorcizar de todo o mal que o apoquentara e que via reflectido nas mágoas dos “outros”, dos seus companheiros de viagem, relegam-no para um estado de entendimento, de comiseração, de compaixão pela humanidade ali representada e por si próprio como elemento constituinte desse universo humano.

A cura de Schopenhauer facilitara-lhe a fuga de um abismo mas conduzira-o a outro, à denegação da sua condição humana. E o ressurgir de Philip como homem completo faz-se por meio do choro, acto humano por excelência.

sábado, novembro 08, 2008

"A Fé de um Escritor" de Joyce Carol Oates

Oates, Joyce Carol, A Fé de um Escritor (The Faith of a Writer), Casa das Letras, Tradução de Maria João Lourenço, 2008.

“A Fé de um Escritor” é uma compilação de doze ensaios e uma entrevista de cariz intimista publicados originalmente em revistas e jornais da especialidade e através dos quais acedemos a reflexões sobre a actividade da escrita na perspectiva de quem escreve (Joyce Carol Oates como escritora) e de quem lê (Joyce Carol Oates como leitora voraz).

Conhecemos na primeira pessoa os hábitos da escritora e da leitora. O antes, o durante e o após a “fúria” criativa enquanto escritora e a absorção do furor criativo de outros autores enquanto leitora; a transformação que o acto da escrita provoca no sujeito que escreve e a metamorfose operada no leitor quando se propõe debruçar-se sobre uma determinada obra; a forma como o espaço físico condiciona a postura do autor e do leitor; a predisposição do autor em determinados momentos para juntar todos os pequenos papéis que foi acumulando nos bolsos à medida que as ideias brotavam e que após uma longa caminhada origina aquilo que designamos por obra, um todo coeso produto de muitas e aturadas leituras, muitas e prolongadas considerações íntimas, muitas e forçosas vivências, muita observação aparentemente vazia de sentido, muitas e profundas influências, rastos deixados na alma, no coração da escritora/leitora.

Joyce Carol Oates, autora consagrada, presta homenagem às suas autoridades literárias, dedica inúmeras páginas aos seus “guias” enquanto escritora metódica e leitora compulsiva, povoa os escritos de “A Fé de um Escritor” de autores fabulosos e obras eminentes que condicionaram a sua existência enquanto escritora/leitora.
Fragmentos desses livros memoráveis, sejam romances ou poemas, são perpetuados no seu como forma de aniquilar o esquecimento, de louvar a intensidade do acto de ler porque só assim nasce o verdadeiro escritor (para quem tem essa pretensão, naturalmente… Quanto aos que não aspiram a tal patamar, subsiste sempre a delícia, o prazer, o abandono a essa espécie de fé inabalável pelo livro).

Joyce Carol Oates reverencia os mestres que a antecederam e os mestres seus contemporâneos, todos os que lhe apontaram o caminho quando ainda não tinha consciência de que esse trilho, essa opção era uma realidade a seguir ou a rejeitar. É numa perspectiva de amor pelos livros e seus autores que Oates nos apresenta uma panóplia das mais marcantes forças literárias da sua vida.

A voz franca, de uma honestidade cristalina e sábia de Joyce Carol Oates é motivo suficiente para ler, degustar os ensaios agora compilados neste volume que evidencia com simplicidade e mestria que a actividade literária, a vida e a técnica são partilhados por escritor e por leitor. Sim, nós leitores desenvolvemos uma actividade literária em muitos casos intensa.

Este é um livro indispensável para quem lê como quem respira, para quem venera a leitura e os livros como se de um acto e um objecto de fé se tratassem.

domingo, outubro 26, 2008

"O Segredo da Casa de Riverton" de Kate Morton

Morton, Kate, O Segredo da Casa de Riverton (The Shifting Fog), Porto Editora, Tradução de Vítor Guerreiro, 2008.

“O Segredo da Casa de Riverton” é o romance de estreia de Kate Morton, autora australiana que não esconde o fascínio pelos anos que precedem a 1ª Guerra Mundial e pelos que imediatamente lhe sucedem.

E é neste contexto temporal, no seio da Inglaterra nobiliárquica, tendo como cenário principal a velha mansão rural da família Hartford, a Casa de Riverton, que as histórias que compõem esta obra se desdobram.

Uma realizadora americana interessada em contar a história do suicídio do poeta R. S. Hunter ocorrido em Riverton em 1924, procura Grace, a única serviçal que prestara serviço na antiga casa ainda viva.
O reencontro de Grace com memórias e segredos da família Hartford e muito particularmente, a sua compreensão da proximidade com Hannah, uma das filhas do Sr. Frederick, filho de Lord Ashbury, o Senhor da Casa de Riverton, provocam um turbilhão de emoções na mulher prestes a completar o século de existência e já entregue aos cuidados de um lar.

Recordar a sua chegada a Riverton com 14 anos, o seu primeiro contacto com os 3 filhos do Sr. Frederick, a cumplicidade estabelecida sobretudo com Hannah apesar da rigidez existente no que respeitava à conduta dos criados, as perdas humanas que advieram da 1ª. Guerra Mundial, os sonhos perdidos das crianças Hartford, tudo é relembrado por Grace com a nitidez de quem esteve sempre presente, com a clareza de quem partilhou segredos com quem vivia na parte superior da Casa.

O facto de Grace ter acesso aos segredos maiores da família (incluindo o próprio segredo da sua existência) que acompanhou ao longo de mais de 20 anos, tornam-na a principal fonte de informação para a realizadora, sobretudo no que dizia respeito aos hábitos e ao ambiente da Casa de Riverton na época em que o famoso poeta R. S. Hunter se suicidara junto ao lago quando decorria uma festa na propriedade. E nós leitores tomamos conhecimento das confissões mais íntimas de Grace, temos acesso aos seus pensamentos nunca verbalizados, segredos que prometera nunca partilhar.

Na fatídica noite da morte de Hunter, Hannah entrega um medalhão com uma chave no seu interior, uma chave que abria um cofre.

Grace é a guardiã do (s) segredo (s) da Casa de Riverton. Incluso o segredo da sua transgressão.

domingo, outubro 19, 2008

"A Queda da Casa de Usher" de Edgar Allan Poe

Poe, Edgar Allan, A Queda da Casa de Usher (The Fall of the House of Usher), Edições Quasi, Tradução de Vasco Gato, 2008.

Este pequeno livro é composto por três contos de Edgar Allan Poe representativos do legado sui generis deixado pelo autor americano natural de Boston – “A Queda da Casa de Usher”, “Uma Descida ao Maelström” e “O Homem da Multidão”.
No primeiro conto – “A Queda da Casa de Usher” – o leitor é arrastado, tal como o próprio narrador, para um ambiente de reclusão bafienta e loucura inquietante personificados pela fantasmagórica Casa dos Usher e pelos seus habitantes, os derradeiros herdeiros de um nome antigo e condenado ao desaparecimento precoce a que a doença, irremediavelmente, o parece sentenciar. O isolamento dos dois irmãos Usher, Roderick e Madeline, é quebrado apenas pelo aparecimento do narrador, amigo de longa data do primeiro, chamado pelo enfermo para o serenar com a sua companhia no momento particularmente opressivo que vivia. A razão abandonara Roderick e quando Madeline sucumbe à doença que a atormentava, o estado já irreversível da sua incapacidade mental, avança rumo à loucura declarada, a um total apartamento do mundo circundante. A permanência durante vários dias do corpo da irmã Usher nas masmorras da Casa, cria na mente perturbada do irmão o que pareciam ser delírios e alucinações auditivas que, no entanto, são partilhadas, pelo menos a um nível subconsciente, pelo narrador que assiste à queda do mal enraizado e simbolizado pela Casa de Usher e pelos seus últimos descendentes.

Em “Uma Descida ao Maelström” um visitante é conduzido numa viagem às memórias de um pescador norueguês, único sobrevivente de um fenómeno sobrenatural que implicava a descida a uma espécie de submundo sem retorno. O pescador relata o dia em que se fizera ao mar com os irmãos e foi surpreendido pelo prodígio conhecido de todos os homens do mar da região, um vórtice surgido do nada que sugara o seu barco para as entranhas sem fim do inexplicável turbilhão. Vivia de contar a fantástica história a quem não o conhecia porque os seus conterrâneos, apesar de serem testemunhas do seu envelhecido regresso, não acreditavam na assombrosa narrativa.

No terceiro e último conto – “O Homem da Multidão” – acompanhamos o voyeurismo de um narrador que a partir da janela de uma casa vislumbra a buliçosa vivência exterior, adivinhando nas feições e características dos sujeitos que desfilam à sua frente, toda uma existência. Perde-se a seguir com o olhar os interessantes “tipos” que constituem a “fauna” londrina de meados do Século XIX mas apenas desperta verdadeiramente quando se depara com uma figura em particular, “o semblante de um velho decrépito” que se destacava da multidão pela expressão indecifrável que possuía, próximo de uma “encarnação pictórica do demo”. Tal é a sua curiosidade que sai de casa e decide segui-lo pelas ruas e vielas que percorre, desesperado por interpretar aquela existência.

Os três contos de Poe de que é composto este livro, guiam-nos a mundos fora deste mundo, mundos esses visíveis ao olhar dos crédulos, mundos de horror. O confronto do improvável com a realidade cria a rejeição e a vida por detrás do vidro que limita as realidades paralelas é, não raro, acossada pelo temor de que o impossível por vezes também acontece.

domingo, outubro 12, 2008

"Alexandre - A Corte da Morte" de Paul Doherty

Doherty, Paul, Alexandre – A Corte da Morte (Alexander The Great, The Death of a God), Saída de Emergência, Tradução de Maria do Carmo Romão, 2005.

O jovem Capitão-General da Grécia perscruta a oportunidade para invadir o Império Persa liderado por Dario III. A ocasião mais propícia para abandonar o acampamento e marchar rumo à suprema glória tão almejada por Alexandre, ser-lhe-ia ditada pelos deuses através de sacrifícios reveladores e pelo seu instinto infalível e perspicácia que o elevavam sempre à condição de Grande aos olhos dos soldados e seguidores mais próximos.

Paul Doherty situa-nos num contexto de guerra iminente mas apresentando-nos a perspectiva macedónia, o horizonte persa e o quadro dos povos esmagados por Alexandre unidos agora aos persas, a única civilização capaz de vergar a força intrépida do conquistador macedónio.

À parte a questão maior da possibilidade de um recontro entre o poderio militar persa e a perspicácia macedónia, assistimos a um conjunto de assassinatos no seio da força macedónia sendo chamado para os desvendar Telamon, o médico amigo de Alexandre dos tempos de Mieza em que Aristóteles era seu mestre. Antes de partir para o acampamento é convocado por Olímpia, a terrível mãe de Alexandre, a “Rainha Bruxa” e regente na ausência do filho, obcecado que estava em ir até à beira do mundo.
O diálogo entre ambos é de grande interesse e suficiente para apreendemos as personalidades díspares que se confrontam nos momentos em que decorre a audiência. Telamon tem medo de Olímpia, no entanto, faz-se valer da sua moral impoluta e de uma intelectualidade surpreendente (Citando com frequência os grandes autores gregos em resposta às investidas de Olímpia) para demonstrar a segurança possível face às ameaças veladas da mãe de Alexandre.
Telamon é intocável. Num baú deixado por Alexandre consta uma lista dos que, na sua ausência, não deverão ser atacados. Alexandre não se esquece dos amigos de outrora.

Os crimes cometidos no acampamento macedónio são relacionados com a presença de um espião ao serviço de Dario III que todos sabem existir mas cuja identidade é um mistério até para os próprios persas.
Alexandre confessa a Telamon que a sua confiança nele é ilimitada deixando implícito que o séquito que o rodeia e que participa activamente nas suas inúmeras festas não é de sua inteira confiança. E Telamon experimenta a desconfiança dos mais próximos do Capitão-General, pondo em causa as suas próprias capacidades como médico.

Alexandre, o Grande é um menino perdido na terra do nunca que tenta evitar ser engolido pelas forças externas que o encurralam sendo que estas forças externas partem muitas vezes de sectores próximos de si.
A sua vivência é intensa e o seu carácter apesar de firme, não é completamente equilibrado, parecendo marcado, por um lado, pela necessidade de superação de um pai ambíguo, e por outro pela necessidade de equiparação ao semi-deus Aquiles que Olímpia afirma ser seu antepassado.
Assim, quando visita Tróia e se apresenta como seu salvador, as armas de Aquiles parecem ser a sua única preocupação e experimentá-las o seu único objectivo. Alexandre busca o contágio, a transmissão de um poder divino que só um homem pleno, guerreiro absoluto e amigo fiel como Aquiles poderia comunicar. Encarna a sucessão em pleno.

Telamon vê-se inicialmente como um refém de Olímpia, contudo, com o decorrer do tempo perto de Alexandre compreende que o ímpeto do Rei e falta de aconselhamento sério, tornam a sua presença pertinente e Olímpia, à sua maneira vil e desajustada, procurava apenas um protector atento para o filho.

A forma como Paul Doherty aborda as intrigas, o modo de vida, tanto em campanha militar como nos palácios onde o poder político comanda, os rituais gregos ante as eventualidades da vida, a traição, a forma de tratamento dos escravos, demonstra conhecimentos sólidos da época em causa tornando a obra claramente recomendável.

domingo, outubro 05, 2008

"Um Mundo sem Fim - Volume I" de Ken Follett

Follett, Ken, Um Mundo sem Fim (World Without End), Editorial Presença, Tradução de Alice Rocha, 2008.

Depois de ter lido algumas críticas elogiosas a “Os Pilares da Terra”, senti uma natural curiosidade em conhecer a obra de Ken Follett e comecei por este recém-publicado “Um Mundo sem Fim”, o primeiro volume de uma história que começa em Inglaterra, mais propriamente na próspera cidade de Kingsbridge, na primeira metade do século XIV tendo como principais intervenientes um grupo de homens e mulheres que, quando crianças, presenciaram a perseguição de um grupo de homens a um cavaleiro e morte que este acabara por infligir aos seus atacantes. Gwenda, Caris, Merthin e Ralph são os heróis e vilão (por esta ordem) dos acontecimentos que anos mais tarde marcariam os destinos das quatro personagens e de Kingsbridge.

Seguimos as maquinações do clero local sempre em busca do poder impossível, atropelando a moralidade apregoada pelos Santos da Igreja sobretudo porque a ambição desmedida de um certo Godwin inviabiliza a redenção de todas as almas errantes porque incompreendidas e possibilita a subida aos céus dos que compõem o seu séquito de tratantes.

Deparamo-nos com a rebeldia de quem se recusa a aceitar o fim inevitável reservado a todas as mulheres na idade média europeia, contrariando essa fatalidade com intervenções de relevo na sua cidade num momento de crise comercial com um contributo de apresentação de soluções palpáveis quando a feira do velo parecia condenada ao desaparecimento e negando casar-se com o homem que amava porque urgia declinar o que toda a comunidade esperava dela.

Acompanhamos o amor incondicional de uma mulher por um homem noivo de outra e a força quase sobre-humana com que sobrevive a atrocidades perpetradas contra a sua pessoa.

Vemos um aprendiz de artesão suplantar o seu mestre, encontrar explicação para as anomalias nas estruturas da cidade e com as suas ideias pioneiras solucionar uma das piores adversidades com que Kingsbridge se deparara: A queda da ponte que permitia o acesso dos comerciantes à muito concorrida feira do velo.

Assistimos à ascensão meteórica de um escudeiro ao serviço do Conde Roland à categoria de Senhor de Wigleigh onde exerce o seu poder de forma brutal, maldosa e autoritária.

Confesso que a obra, à semelhança do que já foi escrito por Djamb em Folhas de Papel, não impele o leitor à aquisição do II Volume, não só porque os erros de impressão são imensos, mas também porque o autor parece não ter descoberto a forma ideal de contar esta história, parecendo perder-se na descrição dos costumes e práticas da época em detrimento da sólida construção de uma narrativa. Sublinho que Ken Follett não me maravilhou com esta história, restando-me aguardar pela obra que contrarie esta opinião menos positiva.

domingo, setembro 28, 2008

"O Hóspede" de Marie Belloc Lowndes

Lowndes, Marie Belloc, O Hóspede (The Lodger), Quidnovi, Tradução de Mário Dias Correia, 2008.

O pano de fundo deste policial intenso é a nevoenta Londres de fim de século de onde emerge um novo tipo de criminoso, uma nova forma de fazer jornalismo e novas técnicas policiais que pudessem desvendar a identidade do homem que espalhava o terror nas madrugadas londrinas e que se auto-denominava como “O Vingador”.

Um casal de serviçais de meia-idade retirados da vida activa, Mr. e Mrs. Bunting, levam uma vida tranquila mas de muitas dificuldades e, apesar de terem um anúncio a indicar que possuem um quarto para alugar, passa muito tempo até surgir alguém interessado nos aposentos propostos. Só quando já haviam atingido um estado de quase desespero é que aparece um inquilino interessado e aparentando uma generosidade que deixa os Bunting aliviados perante a perspectiva de abismo sem retorno que haviam entrevisto apenas algumas horas antes.

Mr. Sleuth, o hóspede, é um homem estranho, possuidor de hábitos fora do comum, mas para o casal ele transforma-se no seu anjo salvador e relegam as suas rotinas pouco usuais para um plano secundário, interessando-lhes unicamente o facto de Sleuth ser educado, cumprir as suas obrigações como inquilino e contribuir para a harmonia da casa com a sua postura plácida, embora excêntrica.

A avidez com que toda a cidade acolhe as notícias diárias da imprensa acerca de desenvolvimentos no caso do Vingador, torna Mrs. Bunting mais esclarecida e atenta, e sendo uma profunda conhecedora dos passos de Mr. Sleuth, apesar de o hóspede a repelir quando se verifica uma maior aproximação, Ellen Bunting começa a pressentir que na estranheza de Sleuth reside algo mais do que pura extravagância de um solitário… Talvez o homenzinho que tão determinantemente entrara nas suas vidas para os salvar da miséria certa, não fosse tão cândido quanto aparentava, talvez a sua inocência não fosse tão absoluta.

Ellen Bunting aguçou os seus sentidos. As saídas nocturnas do hóspede já não lhe pareciam tão inócuas, os seus movimentos no andar de cima, no quarto alugado, causavam-lhe preocupação e a própria indumentária do inquilino passou a ser atentamente inspeccionada com discrição por Mrs. Bunting.
Procurava não se perder em pensamentos que a aterravam e que não partilhava com o marido mas, invariavelmente, o seu sono cada vez mais intranquilo transportava-a para a relação entre o simulado pacifismo de Sleuth e os crimes hediondos que quase todos os dias eram anunciados na imprensa sensacionalista.

Vivia no terror permanente de que alguma pista conduzisse a Scotland Yard a sua casa, à sua perigosa fonte de sustento e cada batida insuspeita na sua porta era motivo de sobressalto e inquietação, cúmplice que agora se sentia de acções imputadas a um louco.

Baseado nos acontecimentos que absorveram Londres no final da década de 80 do século XIX, nomeadamente o aparecimento de um assassino que matava prostitutas e se auto-intitulava “Jack, o estripador”, este é um policial refinado, muito bem conduzido pela autora, esplendidamente escrito e recheado de personagens com uma densidade psicológica rica e não desnecessariamente complexa.
Hitchcock baseou-se nesta obra de Marie Belloc Lowndes para realizar o seu “The Lodger, a story of the London Fog” de 1927, reconhecendo o potencial extraordinário de uma obra caída no esquecimento e cujo ressurgimento agradecemos à Quidnovi.

domingo, setembro 21, 2008

"Pânico" de Jeff Abbott

Abbott, Jeff, Pânico (Panic), Civilização Editora, Tradução de Cristina Gomes e Susana Paulino, 2006.

Um jovem e bem sucedido realizador de documentários vê-se envolvido numa intrincada história de morte e espionagem, perseguido por um homem cuja motivação dúbia parece implicar a sua própria agora questionável identidade.

O cosmos pessoal de Evan Casher começa por ser seriamente abalado quando recebe um telefonema ansioso da mãe pedindo-lhe que vá ter com ela e acaba por desabar no momento em que a encontra morta na casa da família em Houston em circunstâncias brutais.
Este acontecimento arremessa-o para um mundo irregular, imprevisível no qual surgem personagens que o pretendem guiar na descoberta da sua verdadeira identidade e outras que boicotam a sua determinação em desvendar a identidade do assassino da mãe e em simultâneo descobrir o paradeiro do pai.

A busca de Evan resume-se a uma cruzada particular cuja principal motivação é a descoberta do responsável pela morte da mãe, no entanto, pelo caminho, depara-se com factos que o obrigam a questionar toda a realidade familiar vivenciada ao longo dos anos e que se lhe apresenta agora como difusa, uma existência paralela mantida na penumbra e que agora lhe surge como um conjunto de imagens desfocadas da vida que conhecera até então.

As origens comuns dos pais e do assassino da mãe, o sequestro consentido do pai, a relação de improvável parentesco entre eles, a conspiração e a espionagem/ contra-espionagem que pautam a vida de crianças agora homens e mulheres educadas para o fim único de seguirem cegamente as ordens de um governo assim que ultimados, tornam esta obra de Jeff Abbott apelativa a um universo de leitores particularmente interessados em questões relacionadas com teorias da conspiração e em construções narrativas de proeminência dialogal.

O ruir do mundo de certezas em que crescera, manifesta-se a Evan sob a forma do pânico que empresta o nome ao livro.
A segurança, a impressão de protecção, limitavam-se a ser uma ilusão alimentada por um governo manipulador, pouco consciente de que a mente humana não é totalmente controlável e que basta um membro perturbado num grupo para que a engrenagem vacile.

Mas é também este pânico inicialmente paralisante que acaba afinal por emprestar a Evan a força por vezes sobre-humana com que enfrenta os seus inimigos.

domingo, setembro 14, 2008

"Expiação" de Ian McEwan

McEwan, Ian, Expiação (Atonement), Gradiva, Tradução de Maria do Carmo Figueira, 2008.

O dia da revelação do amor entre Cecília e Robbie coincide com o dia de perda de inocência de Briony. Assistimos a essa libertação repentina do mundo de bonecas e peças de teatro infantis em que vivia, a esse “crescimento” súbito da criança dotada que Briony dava mostras de ser e, estarrecidos, compreendemos que um último resquício da imaginação fértil da criança ainda reside na jovem, domina-a como se da última travessura pueril se tratasse.

Um simples acontecimento visto aos olhos distantes de Briony e aos olhos próximos de Robbie, assume proporções diferentes e é interpretado de formas distintas por ambos.
Cecília mergulha na fonte. A imagem da irmã encharcada, semi-nua em frente a Robbie, denota uma fragilidade inexistente mas que para Briony, se torna motivo suficiente para intimamente olhar para Robbie como uma ameaça à delicadeza da irmã e ela, Briony, como adulta responsável, sente como seu dever proteger a irmã do olhar demasiado perscrutador de Robbie.
Robbie encarava Cecília desconcertado. Era uma figura familiar e estranha em simultâneo saída da água, que entrara na água com intrepidez, com a determinação corajosa de mostrar que nada a perturbava. E frente a ele, com a pouca roupa colada ao corpo, revelando-se ao homem que já amava e não sabia com a consciência dos despertos, deixando-o estático e balbuciante junto à recordação mais palpável que dela ficara, uma poça da água que jorrara do seu corpo.

Após este episódio, Robbie toma a decisão de se prostrar aos pés de Cecília: escreve duas versões de uma mesma carta, uma reveladora mas bem comportada, formal até, na qual declarava o seu amor a Cecília, e uma outra com o mesmo conteúdo de confidência mas demasiado explícita em que figurava a descrição do seu desejo e a sua vontade em consumá-lo.

Demasiado inquieto com a descoberta do amor, Robbie engana-se na versão que entrega a Briony para dar a Cecília.

A naturalidade do desejo de cariz sexual entre dois adultos que se amam, aos olhos de Briony é a exteriorização do carácter duvidoso e mesmo perigoso de Robbie. A irmã tem de ser protegida a todo o custo da influência perniciosa do tarado em que Robbie se convertera em poucas horas.
A mudança em Briony espelha-se na forma como ela vê os outros. Julga ser sua obrigação zelar pela harmonia em perigo que pensa detectar nos desequilíbrios que vislumbra.

Ao receber a carta, Cecília compreende, por um lado, a sua cegueira face ao que sentia por Robbie, por outro lado, que Briony lera a carta. E pressente o profundo efeito que o teor da mensagem comportava para si, porque nada seria como dantes ao ter acordado para a realidade do amor, como para a mente especulativa de Briony que não se deteria na mera leitura inocente de uma carta que não lhe era dirigida.

Briony acusa Robbie do crime cometido naquela noite. Afirma tê-lo visto. Vira sim, as sombras difusas dos acontecimentos a que assistira nesse dia, os vultos do que pensara ter lido correctamente e transpusera-os para a gravidade de uma acusação que perseguiria as três personagens para o resto da vida.

Briony Tallis vive uma vida inteira a tentar expiar o seu crime, o pior que se possa imaginar: Ter sido a responsável pelo afastamento irremediável de duas pessoas que se amavam.

E escreve um livro com um final feliz.

domingo, setembro 07, 2008

"Teresa, a Santa apaixonada" de Rosa Amanda Strausz

Strausz, Rosa Amanda, Teresa a Santa Apaixonada, Casa das Letras, 2006.

“Teresa, a Santa apaixonada” é uma cativante narrativa da autoria de Rosa Amanda Srausz sobre o percurso de vida de Teresa Ahumada Sanchez y Cepeda, mais conhecida como Santa Teresa de Ávila. Acompanhamo-la desde os primeiros anos em que a sua beleza ímpar atraía os olhares de inúmeros pretendentes, em que a leitura ocupava os seus dias e em que a sua imaginação indómita a transportava para os mais diversos lugares, literalmente.

Talvez por lhe parecer demasiado insubmissa e sem a referência moral da mãe recentemente falecida, o pai de Teresa, D. Alonso, encaminha-a para o convento das Agostinianas de Nossa Senhora das Graças onde se deu o primeiro encontro de Teresa com Deus, mas “não com o amoroso Deus cristão, tal como o concebemos no século XXI, mas com a entidade terrível que regia a vida espiritual do século XVI.”. Teresa estava, pela primeira vez na vida sozinha, na presença de um “…Pai severíssimo [que] não se podia enganar. E, para ser admitida na sua família, eram necessárias provas tão duras quanto as que formariam qualquer cavaleiro. Falhar nas demonstrações de virtude e obediência era caminho certo para o Inferno, com letra maiúscula. Qualquer desvio era atribuído à força do Demónio – também com maiúscula. E quem determinava o que levaria ao céu ou ao Inferno era a Igreja, com as suas regras implacáveis.”.
Despojada de tudo o que a caracterizava como Ser único, individual, Teresa ouvia ecoar as palavras “Para sempre” em cada recanto daquele sinistro convento, como se uma eternidade de perda e dor a aguardasse numa qualquer pedra inexplorada do espaço de clausura em que se refugiava.

As primeiras provações, experimenta-as nesse período terrível passado no convento das Agostinianas. À bela jovem por todos admirada sucede-se uma pálida réplica que luta por não se sentir culpada ante a rejeição do seu corpo ao silêncio frio que as paredes do convento lhe devolviam. Teresa adoece. Tudo é controlado, vigiado no convento e a alma inquieta, ávida de vida de Teresa, decai lentamente até lhe restar apenas um imenso cansaço, lágrimas abundantes e a ausência de apetite.

D. Alonso toma conhecimento da doença da filha e leva-a para casa julgando ser esse o remédio para uma rápida recuperação. Mas Teresa continua a “desaparecer”, aquela Teresa alegre e bela de que o pai se recordava, teima em voar para um refúgio distante e desconhecido onde já nem a família tem acesso.
Envia-a para o campo, para junto da irmã mais velha, e é lá que Teresa melhora, pressentindo a presença não do Deus vingador e terrível que lhe impunham no convento e a empurrava para o Inferno, mas do Deus criador e caridoso que a aproximava do Céu.

Restabelecida, foge para onde Deus a conduz: o mosteiro carmelita de Nossa Senhora da Encarnação onde os muros não estão fechados à vida.
A determinação de Teresa torna-se verdadeiramente feroz e é tomada de estranhos arroubos de êxtase traduzidos na mortificação do jejum levado ao limite, da exposição a temperaturas demasiado baixas ou elevadas e da auto-flagelação com urtigas. Teresa fica, mais uma vez, muito doente. É o empenho de quem quer celebrar a sua devoção a Deus com núpcias de sangue oferecendo-lhe a sua veneração perpétua e ilimitada.

Mais uma vez junto da família, desta vez em casa do tio Pedro, este oferece-lhe uma obra que mudaria a vida de Teresa, o “Tercer Abecedário” de Francisco de Osuna.
Teresa coloca-se na situação de ser sugada para “… dentro do livro. As letras desaparecem, as páginas somem-se, o mundo à volta desvanece-se e o texto passa do papel para a nossa mente como uma transfusão. Nessas horas, não parece que estamos a ler, mas a pensar. As ideias formam-se com muita nitidez, e traduzem exactamente o que sentimos – só faltavam aquelas palavras para organizar o que borbulhava informe dentro de nós.”.

E o problema da orientação religiosa inconsistente de Teresa terminou.

Através da constante prática da oração mental, prodigalizada no livro de Osuna, Teresa encontrou o equilíbrio que há tanto buscava apesar do momento em Espanha ser de censura e ódio com o recurso a perseguições e autos-de-fé em que a presença feminina cada vez mais se fazia notar.

Teresa foi uma mulher que abdicou de si, que se entregou à obra de Deus incondicionalmente mas não sem antes perscrutar qual o melhor rumo a seguir dentro das várias “tendências” existentes na Igreja de então.
A severidade nunca lhe assentou bem e era na prática do bem com alegria que Teresa de Jesus, a Santa apaixonada que conversava com Cristo e foi acusada de louca, se sentia realmente pertença de um universo de amor que ajudou a propalar.

domingo, agosto 31, 2008

"O Pavilhão das Peónias" de Lisa See

See, Lisa, O Pavilhão das Peónias (Peony in Love), Bizâncio, Tradução de Ana Falcão Bastos e Cláudia Brito, 2008.

Peónia, filha de um destacado funcionário da Corte do imperador Kangxi, tem dezasseis anos e prepara-se para casar com o filho do melhor amigo do pai. Nunca o vira, conforme, aliás, ditava a tradição. Os noivos só se vislumbrariam quando já fossem marido e mulher, no leito conjugal, no momento em que o denso véu carmesim que cobria a face da nubente fosse retirado pelo esposo.

O seu aniversário, nesse derradeiro ano como mulher solteira, é assinalado com a representação de uma ópera muito apreciada por Peónia, precisamente “O Pavilhão das Peónias” de Tang Xianzu, o cântico de uma mulher que morre de amor e que provocara nas jovens donzelas enclausuradas nos imensos complexos luxuosos das suas famílias, o desencadear de emoções nunca vividas, de um mal de amor por vezes abstracto, uma febre que tornara a obra, aos olhos dos pais zelosos de raparigas casadoiras, objecto proibido.
As jovens eram mantidas dentro dos altos muros distantes do mundo exterior, longe de olhares indiscretos que as pudessem cativar e, no entanto, aquela obra diabólica, quando lida por donzelas de imaginação fértil com o destino traçado pela família, provocava o pior dos desfechos.

Apesar das tragédias ocorridas, o pai de Peónia não resiste a proporcionar à filha que ele julgava imune a tais assomos, o prazer último de lhe trazer a ópera a casa, inserida nos festejos prévios do casamento que se realizaria dali a escassos meses. A despedida perfeita para a filha única.

A resignação de Peónia à deliberação da família em casá-la com um desconhecido, altera-se no decorrer da apresentação de “O Pavilhão das Peónias”. As mulheres da casa, assistem à ópera encenada pelo pai, por detrás de um biombo, no entanto, por entre as frestas, Peónia observa um jovem de cabelo muito negro e liso que a faz reflectir na sua condição de mulher que não pode amar quem quer, mas quem lhe é imposto.
Perturbada pela ideia insuportável de se ver casada com alguém que lhe causa repulsa, Peónia dirige-se ao jardim onde o jovem que vira na assistência masculina da ópera aparece. É o primeiro de alguns encontros transgressivos entre duas pessoas que compreendem a infeliz condição de ambos estarem prometidos e da impossibilidade de concretização do amor que nascera naquele jardim.

Peónia é castigada ao serem detectadas as suas fugas para o jardim. São-lhe retirados os livros que tanto amava, sobretudo “O Pavilhão das Peónias” cuja influência negativa, segundo a amarga mãe, já se abatia sobre a jovem. Por fim, sem o seu amor, sem a companhia de um livro, sem o seu nome de baptismo, retirados todos os elementos constitutivos da sua identidade, encerrada no quarto, condenada a casar com alguém que não conhecia, Peónia deixa de comer. A sua pele torna-se translúcida à medida que o momento do seu desaparecimento se aproxima.

O fim é o começo de uma peregrinação que durará longos anos durante os quais Peónia descobre insondáveis segredos de família e protege o seu bem-amado da influência perversa de uma rival obcecada com a posse do destinatário do amor de Peónia.

Ela converte-se num anjo que vela pelo seu amor até encontrar o caminho para a sua eterna morada.

sábado, agosto 23, 2008

"O Terceiro Passo" de Christopher Priest

Priest, Christopher, O Terceiro Passo (The Prestige), Saída de Emergência, Tradução de Isabel C. Penteado, 2006.

“O Terceiro Passo” é muito mais do que uma história de dois mágicos rivais que se perseguem e que vivem obcecados com a evolução artística de cada um.

É uma narrativa de duplicidade, de desdobramento, de tragédia, de vingança, de cumplicidade e de divergência.
É um canto de amor às artes mágicas tendo como protagonistas dois sôfregos seguidores do ilusionismo, dispostos a dedicarem todos os recursos físicos e morais ao objectivo dual de evoluírem artisticamente e de se sobreporem e esmagarem mutuamente.

A introdução no espectáculo de um dos mágicos de um truque impossível provoca a admiração do rival que procura encontrar uma explicação racional para o que acabara de assistir. É compelido a investigar a vida pessoal do inimigo e conclui que o artifício que presenciara era resultado de verdadeira magia ou ciência.
Atravessa um oceano para encomendar uma máquina que o rival de Edison, Tesla, exilado e derrotado pela fama daquele outro, poderia construir, uma máquina que o teletransportaria para um local previamente escolhido, tornando-se no novo Homem transportado.

A simplicidade do truque de Borden, converte-se em Angier numa culpa sem remorso, numa eternidade retalhada e construída com base no permanente nascimento, morte e renascimento do mágico. Ele passa a dispor da vida humana que cria todas as noites com omnipotência desafiadora e perde noção de humanidade.

A moralidade, a amoralidade, a dualidade bem/ mal, a revelação de que a verdadeira magia está na preparação do espectador e na aparição do elemento ausente, tudo se conjuga para que os dois homens sejam confrontados com decisões determinantes para a sua salvação ou perdição. Eles são responsáveis pelo seu destino. Eles são o resultado das suas escolhas.

E um deles é um anjo caído.

Obra inigualável pela inteligência do enredo, profundidade e subtis variações na psique das personagens, recriação do ambiente nas salas de espectáculo da Londres vitoriana e escrita absolutamente cativante. A combinação de todos os factores atrás enumerados traduziu-se numa leitura relâmpago que mesmo na última linha, mesmo depois do ponto final derradeiro, deixou a leitora abandonada a uma perplexidade atribuível à imensidão literária que este livro alcança.