Gayford, Martin, A Casa Amarela, Van Gogh, Gauguin e Nove Turbulentas Semanas em Arles (The Yellow House – Van Gogh, Gauguin and Nine Turbulent Weeks in Arles), Bizâncio, Tradução de Francisco Agarez, 2007.Tudo começa com um sonho. O sonho de um homem em criar uma comunidade de artistas numa pequena cidade solarenga de província no Sul de França, Arles.
Van Gogh foge do cinzentismo das cidades do Norte, privadas que estavam da luminosidade que queria colorisse os seus dias e a sua pintura. A sua personalidade instável exige a evasão, a renúncia aos locais lúgubres que já calcorreara. Agora, a sua natural propensão para a melancolia impele-o a rumar a Sul onde o aguardam os dourados da paisagem, a genuinidade dos camponeses e dos tipos citadinos nas suas tarefas quotidianas. Este ambiente que o revitaliza e atrai, empurra-o para a criação de um círculo de pintores dispostos a partilhar ideias, cores, temas, experiências, livros, a semear um modelo de esforço profissional conjunto entre iguais com formas diversas de representar artisticamente o real. Vincent almeja o trabalho em equipa que a apreensão dos sabores desconhecidos de outras mentes criativas lhe poderiam proporcionar.
Partindo sempre da premissa segundo a qual ele será o aprendiz do núcleo a nascer, surge uma oportunidade entusiasmante chamada Paul Gauguin. Pintor mais experiente, tinha como agente o irmão de Vincent, Theo. Aliciado pelo ideal de um grupo de “contaminação” de conhecimentos artísticos, assim como pela garantia de instalação numa casa com as despesas pagas (facto que, neste ponto particular da vida de Gauguin, terá tido um peso considerável), Gauguin adia a prometida viagem por várias vezes (mal imaginando o estado de ansiedade que a sua iminente chegada provocava em Van Gogh que entretanto criara as condições para receber o seu companheiro com a compra de mobiliário e roupa de cama), acabando por desembarcar em Arles no dia 23 de Outubro de 1888. Gauguin buscava inspiração e trabalho efectivo que lhe garantisse notoriedade e o aplauso da crítica e dos seus pares.
Havia que produzir e vender. E embora Vincent pintasse em maior quantidade que Gauguin, a sua auto-confiança não era comparável à do pintor nascido no Peru.
Dividiam modelos e paisagens e o contágio ocorria sobretudo neste âmbito. A casa amarela tornara-se um pólo de comunicação artística entre os dois homens, no entanto, a já debilitada saúde mental de Vincent, conheceu um momento chave quando pintava “La Berceuse”. Perturbado pelo pendor congénito para a doença mental que o perseguia e pela vida pessoal que não pudera viver graças às convenções sociais vigentes e também à amadurecida escolha em se dedicar exclusivamente à arte, Van Gogh tem um grave colapso que o leva a cortar uma orelha, afastando em definitivo um já assustado Gauguin que após o internamento de Vincent, nunca mais o voltaria a ver.
A convivência de nove semanas entre estas duas figuras singulares, é relatada com tal mestria que o leitor se esquece que está a ler uma obra biográfica relativa a um período da vida de dois pintores que viveram debaixo do mesmo tecto e percorreram os mesmos locais durante pouco mais de dois meses, e é transportado para um universo quase ficcional na medida em que Martin Gayford faz um relato em simultâneo historicamente rigoroso, mas com uma vivacidade muito próxima do que é mais facilmente atribuível a um romance. Esta última obra do escritor inglês é um belíssimo exemplo de obra de arte literária.

What Flower
Are You?