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domingo, março 22, 2009

"História da Beleza" de Georges Vigarello

Vigarello, Georges, História da Beleza (Histoire de la Beauté), Teorema, Tradução de Paula Reis, 2005.

Georges Vigarello sistematiza neste estudo histórico/sociológico a evolução da ideia de beleza da Renascença à actualidade detendo-se sobretudo na noção de beleza feminina, explorada ao longo dos séculos de forma tão diversa tanto pela palavra escrita como pelas artes pictóricas e oscilando ao sabor de gostos e contextos sociais/históricos díspares.

É curiosa a hierarquização do corpo na descrição do modelo de beleza no século XVI, a compartimentação das partes que constituem o todo feminino e a omissão dessa mesma soma, remetendo a delineação ao essencial, ou seja, a uma beleza revelada no “triunfo do alto”. A pesagem do belo efectuava-se por meio da avaliação da qualidade do busto e dos olhos, assim como através do temperamento e moralidade que esses traços físicos escondiam. A mulher era a maneira, o ar, a graça, tudo reunido num ser uno radiante, criado por Deus para ser exemplo de idealidade.

No século XVII vingam as denominadas beleza expressiva e beleza experimentada. Pede-se uma beleza mais natural, mais harmoniosa, mais plena de significado, mais individualizada mas em simultâneo mais atreita à escolha do penteado ou da cor do rosto. É o inicio da correcção do volátil conceito. A modificação, o retoque é possível

O século XIX apresenta-nos uma mulher mais activa, mais capaz e determinada a mostrar-se. Surge igualmente um mercado do embelezamento, ou seja, técnicas e meios de corrigir formas, adiar o aparecimento de incómodos físicos, artifícios que protelassem a “decadência”.

No século XX as formas femininas tendem a adelgaçar-se, a aproximar-se cada vez mais das figuras das “stars” do cinema que são exemplo estético e intelectual. Mulheres, contudo, ainda dependentes no inicio do século XX dos seus homens. Mas é uma tendência que se dilui e se consome na certeza da independência da mulher no período pós segunda guerra mundial. Ela é o que quer ser. A moda serve o seu propósito de se sentir bem na sua pele, bem como os mecanismos de correcção colocados ao seu dispor. O consumo proporciona a receita para uma manutenção de um ideal. O cânone colectivo esboroa-se. Nasce a amálgama de inclinações em que hoje nos situamos.

A leitura deste livro confirma e consolida a percepção histórica e sociológica que tínhamos deste longo caminho de exigências internas e externas a que as mulheres estiveram sujeitas desde a renascença até à presente data. Compila e dinamiza novos dados através de fontes tais como as primeiras revistas femininas surgidas no século XIX e as primeiras cartas de leitoras dessas publicações, a voz das mulheres ouvida pela primeira vez. Os seus desejos e exigências como melhor forma de conhecer/estudar uma época em que o que elas dizem começa a ser relevante. Nem que seja só para outras mulheres.