Mãe, Valter Hugo, O Remorso de Baltazar Serapião, Círculo de Leitores, 2007.A história do Amor ferino entre Ermesinda e Baltazar decorre na Idade Média portuguesa, no reinado de D. Dinis, numa obscura terra sem nome dominada por um senhor feudal todo-poderoso, D. Afonso, reclamante da presença das mais jovens e belas mulheres do feudo na casa grande.
A família Serapião, à qual Baltazar pertence, tinha como única posse uma vaca, a Sarga, elemento indissociável do núcleo familiar dos Serapião. Tendo o pai de Baltazar o nome cristão de Afonso, à semelhança do seu senhor, equivalência esta insustentável, havia sido rebaptizado de O Sarga naquela que se tornara uma durável ligação estabelecida entre os Serapião e o animal, quase como se a diferença entre uns e outra fosse remota ou mesmo inexistente. Apesar de já depreciados desta forma, juntava-se ainda a convicção popular de que Baltazar e aldegundes eram produto da relação bestial entre o pai e a Sarga, naquilo que era uma forma pouco subtil de colocar repetidamente os Serapião ao nível de um animal de curral.
Perante a animosidade crescente das gentes em relação aos Sarga, a proximidade com o animal assume contornos reais tendo como base a rejeição, o preconceito, a superstição populares que votam aquela família à condição de proscritos do povoado.
Banidos pelos do seu próprio meio, desterrados da terra que também era a sua, intentam, em vão, um recomeço algures onde não tenha chegado notícia da sua existência e do que a condicionava mas, a crendice das pessoas com que se cruzam e deles em relação a eles próprios, força-os a renderem-se à sua condição de bestas e, sobretudo, à condição de amaldiçoados por atraírem tudo o que era nefasto para onde quer que se dirigissem.
Ermesinda é repetidamente chamada à casa grande e o marido interroga-a do que D. Afonso lhe queria. A comovente submissão de Ermesinda (comovente porque a protecção de Baltazar é tudo o que a move) revela-se no seu silêncio que trespassa o coração de Baltazar não de dúvidas, mas de certezas. E cada momento mudo da mulher corresponde a uma agressão física do marido. Ermesinda é progressivamente privada da sua honra extra-muros e da sua integridade física intra-muros. E o seu silêncio não é mais do que a conservação da honra de Baltazar. Ela sabe que a sua já não pode ser resgatada. A não verbalização do interdito, torna-o dúbio e mesmo irreal para uma mulher encurralada que ama o marido até ao fim.
O sofrimento das personagens femininas nesta obra de Valter Hugo Mãe é inclassificável pela violência psicológica e física de que são vítimas. A ausência física ou mental (como no caso da Teresa Diaba) é a única salvação possível para estas mulheres à mercê do paternalismo doentio destes homens, do seu saber tudo, da sua convicção nos benefícios de uma “educação” pela força.
À força de a querer só para si, Baltazar deforma a mulher faseadamente, transformando-a num corpo irregular marcado pela sua ira, incapaz de aplicar a sua raiva na origem do mal que o assola. O seu egotismo é aviltante, preocupado que está na ofensa à sua pessoa, olvida o eclipse gradual da mulher com quem casara. A outrora bela Ermesinda.
Baltazar abdica da sua humanidade por não a vislumbrar em si nem nos outros. Parece não se reconhecer como Homem, despojado de alma, ferido de ciúme. Ermesinda cai, vítima da sua inércia e Baltazar, aos olhos de quem o vê/lê, é bem o retrato do Homem-besta. E tudo o que lhe resta no fim do seu percurso é a vaca com que desde sempre a família fora associada. Lado a lado. O paralelo que o povo ignorante criara entre o animal e a família Serapião, materializara-se numa realidade de violência em que a redenção não tem lugar e em que o remorso desponta com a morte, com o sacrifício dos inocentes e a queda impiedosa dos culpados. O acto mais irreflectido de Baltazar é o momento da justiça possível. O castigo divino recai sobre ele na forma do vazio absoluto. A solidão.
A família Serapião, à qual Baltazar pertence, tinha como única posse uma vaca, a Sarga, elemento indissociável do núcleo familiar dos Serapião. Tendo o pai de Baltazar o nome cristão de Afonso, à semelhança do seu senhor, equivalência esta insustentável, havia sido rebaptizado de O Sarga naquela que se tornara uma durável ligação estabelecida entre os Serapião e o animal, quase como se a diferença entre uns e outra fosse remota ou mesmo inexistente. Apesar de já depreciados desta forma, juntava-se ainda a convicção popular de que Baltazar e aldegundes eram produto da relação bestial entre o pai e a Sarga, naquilo que era uma forma pouco subtil de colocar repetidamente os Serapião ao nível de um animal de curral.
Perante a animosidade crescente das gentes em relação aos Sarga, a proximidade com o animal assume contornos reais tendo como base a rejeição, o preconceito, a superstição populares que votam aquela família à condição de proscritos do povoado.
Banidos pelos do seu próprio meio, desterrados da terra que também era a sua, intentam, em vão, um recomeço algures onde não tenha chegado notícia da sua existência e do que a condicionava mas, a crendice das pessoas com que se cruzam e deles em relação a eles próprios, força-os a renderem-se à sua condição de bestas e, sobretudo, à condição de amaldiçoados por atraírem tudo o que era nefasto para onde quer que se dirigissem.
Ermesinda é repetidamente chamada à casa grande e o marido interroga-a do que D. Afonso lhe queria. A comovente submissão de Ermesinda (comovente porque a protecção de Baltazar é tudo o que a move) revela-se no seu silêncio que trespassa o coração de Baltazar não de dúvidas, mas de certezas. E cada momento mudo da mulher corresponde a uma agressão física do marido. Ermesinda é progressivamente privada da sua honra extra-muros e da sua integridade física intra-muros. E o seu silêncio não é mais do que a conservação da honra de Baltazar. Ela sabe que a sua já não pode ser resgatada. A não verbalização do interdito, torna-o dúbio e mesmo irreal para uma mulher encurralada que ama o marido até ao fim.
O sofrimento das personagens femininas nesta obra de Valter Hugo Mãe é inclassificável pela violência psicológica e física de que são vítimas. A ausência física ou mental (como no caso da Teresa Diaba) é a única salvação possível para estas mulheres à mercê do paternalismo doentio destes homens, do seu saber tudo, da sua convicção nos benefícios de uma “educação” pela força.
À força de a querer só para si, Baltazar deforma a mulher faseadamente, transformando-a num corpo irregular marcado pela sua ira, incapaz de aplicar a sua raiva na origem do mal que o assola. O seu egotismo é aviltante, preocupado que está na ofensa à sua pessoa, olvida o eclipse gradual da mulher com quem casara. A outrora bela Ermesinda.
Baltazar abdica da sua humanidade por não a vislumbrar em si nem nos outros. Parece não se reconhecer como Homem, despojado de alma, ferido de ciúme. Ermesinda cai, vítima da sua inércia e Baltazar, aos olhos de quem o vê/lê, é bem o retrato do Homem-besta. E tudo o que lhe resta no fim do seu percurso é a vaca com que desde sempre a família fora associada. Lado a lado. O paralelo que o povo ignorante criara entre o animal e a família Serapião, materializara-se numa realidade de violência em que a redenção não tem lugar e em que o remorso desponta com a morte, com o sacrifício dos inocentes e a queda impiedosa dos culpados. O acto mais irreflectido de Baltazar é o momento da justiça possível. O castigo divino recai sobre ele na forma do vazio absoluto. A solidão.

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