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domingo, maio 03, 2009

"O Retrato" de Nikolai Gógol

Gógol, Nikolai, O Retrato, Edições Quasi, Tradução de Tatiana Carmo, 2008.

Na primeira parte desta narrativa tecida de elementos que reconhecemos como integrantes de um mundo estranho a que comummente designamos de fantástico, conhecemos Tchartkov, um jovem e pobre pintor fiel à sua arte, aos seus ideais artísticos e humanos que entrelaça de forma genuína nas suas telas fora de moda a sua concepção de arte, fugindo aos cânones da época de forma a manter-se no caminho da verdade, mesmo que para tal seja despejado da sua humilde habitação, passe fome e frio ou não tenha dinheiro suficiente para tintas e, consequentemente, para pintar com a regularidade que lhe permitiria viver, ainda que com as dificuldades naturais de um pintor não eleito pelos eleitos da sociedade, da sua pintura.

Tchartkov entra na lojinha de quadros do mercado de Chukine Dvor, uma espécie de montra para as classes mais desfavorecidas poderem apreciar obras de fácil pincelada mas ainda assim inacessíveis aos seus bolsos. Entra porque no meio de tanta ausência de arte, poderia encontrar algo de realmente precioso. Entra porque um inexplicável apelo o incita a perscrutar aquelas obras enfadonhas uma a uma. A sua ambição oculta já havia sido pressentida pelos olhos ardentes do “… velho com um rosto cor do bronze, de maçãs do rosto salientes, mirrado;…” cujo olhar, captado com uma “meticulosidade diligente” brilhava com um vigor tal que parecia destruir a “harmonia com a sua estranha vida”. O velho ali representado com trajes asiáticos parecia conhecer a alma de cada transeunte que se detinha na loja ou reconhecê-las como se com elas já se tivesse cruzado e soubesse o que almejavam da vida. O pintor pobre compra o quadro por vinte copeques, todo o dinheiro que tinha. Perturba-o e, no entanto, regateia o preço com o vendedor e leva-o para casa.

A transformação que a posse do quadro despoleta na sua vida é a negação de tudo quanto sempre defendera. O quadro ganha literalmente vida e é oferecida uma nova vida a Tchartkov, uma nova vida encerrada numa bolsa com moedas de ouro. Mas a sua alma é arrebatada por um mal sem nome, é perdida num torvelinho de confusão identitária. Ele já não sabe quem é. Só sabe o que tem.

Na segunda parte de “O Retrato” deparamo-nos com o nefasto quadro a ser leiloado e alguém de entre os licitadores reclamar o direito de contar uma história que lhe daria prioridade na aquisição da obra. E assim conhecemos a história do retratado e a história do homem que o pintou e que não foi capaz de terminar a obra graças à influência negativa que o homem oriental, um conhecido usurário de S. Petersburgo, exercia sobre ele.

Fica implícito que o homem nunca identificado pelo nome, exigia, em troca do dinheiro que emprestava, algo de absolutamente interdito, e a pintura do retrato era uma forma de a intervenção nefasta na vida das pessoas que consigo contactavam nunca cessar, mesmo depois de morto. O consentimento dos desesperados era a seiva de que se alimentava para continuar o seu trabalho de propagação do fado negro destinado aos atormentados pela vida.