domingo, maio 20, 2007

"O Sentido da Noite - Uma Confissão" de Michael Cox

História narrada na primeira pessoa, “O Sentido da Noite – Uma Confissão”, relata a cruzada de Edward Glyver para repor uma verdade cuidadosamente escondida e que lhe é revelada ao remexer papéis deixados pela mãe escritora falecida. Glyver reúne as peças de um intrincado puzzle e conclui que a identidade que julgava ser a sua, intocável e autêntica, era na realidade uma identidade criada, produzida artificialmente para que a sua origem nunca fosse descoberta.
Tudo começa com um acto de vingança por parte da verdadeira mãe de Edward, Laura, Lady Tansor. Casada com um dos nobres mais ricos de Inglaterra, pediu a Lord Tansor que uma dívida contraída pelo pai fosse perdoada; perante a recusa do marido e subsequente morte do pai, Laura decide ocultar a gravidez do filho primogénito por que o Barão tanto aguardava viajando para França na companhia da sua grande amiga e coadjuvante na intriga perpretada, Simona Glyver. Concebe o filho em França, entrega-o aos cuidados extremosos de Simona e parte para Evenwood sem a criança.
Edward cresce como Edward Glyver e apenas reconhece como mãe Simona Glyver que escreve romances para os sustentar após a morte de um marido ausente. É um estudante brilhante mas, impossibilitado de ingressar na universidade devido a uma calúnia montada pelo suposto melhor amigo, Phoebus Rainsford Daunt, Edward encontra uma alternativa à vida académica de que se vira bruscamente privado e que o leva a frequentar círculos bibliófilos sobretudo na Alemanha e a compilar informação e conhecimento suficientes para manter longas discussões e troca de opiniões com os mais eruditos bibliófilos.
Ao morrer, Simona deixa alguns papéis aos quais Edward se agarra numa tentativa de prender a memória da mãe, mas rapidamente compreende que algo de errado e sobretudo de dúbio relativamente às suas origens se apresentava nesses escritos e mesmo em algumas recordações débeis que ele próprio retinha e que dificilmente conseguia explicar.
Ao descobrir a verdade acerca das suas origens nobres, Edward lança-se numa cruzada de busca de provas que permitam a Lord Tansor reconhecê-lo como seu legítimo herdeiro. Sobretudo porque é-lhe comunicado que Lord Tansor, após ter perdido toda a esperança no nascimento de um herdeiro através de um segundo casamento consumado após a morte de Laura, nomeara como seu sucessor nem mais nem menos que Phoebus Rainsford Daunt, entretanto “adoptado” por Sua Senhoria como o herdeiro que nunca tivera.
O objectivo de Edward torna-se duplo: herdar o que é seu por direito de nascimento e retirar ao seu rival aquilo que mais uma vez lhe queria roubar.
Depois de peripécias várias que incluem a traição amorosa para recuperação de papéis na posse de Edward e que lhe dariam Evenwood, a mansão das suas recordações de menino e centro do mundo Tansor, Edward percebe que nunca mais recuperaria o que era seu (e chega a confrontar o Barão, seu pai, com os factos mas já sem provas, sendo naturalmente escorraçado como farsante e vigarista) e inicia um ciclo de vingança seu que culminaria com a morte de Phoebus, o homem que lhe tirara tudo. Mas antes de matar Daunt, Edward desfere um golpe mortal num homem inocente, apenas para saber se era capaz.
Assistimos à transformação de um homem bondoso num assassino, é certo que acicatado pelas circunstâncias em que se desenrolara a sua vida, mas assistimos igualmente a um homem que se vinga do seu inimigo mas que vive eternamente atormentado pela morte que infligira a um inocente transeunte num beco da Londres vitoriana.

2 comentários:

Andreia disse...

Algo que não compreendi plenamente, apesar das minhas pesquisas... Já li o livro e é simplesmente incrivel! Mas a história é real? Ou Michael Cox simplesmente se decidiu a escrever um romance? Mesmo o prefácio do livro não me esclareceu.


Ass.: Andreia. Agradecia uma resposta, se possível, para: matematikomaniaka@hotmail.com
Os meus mais cordiais cumprimentos

Carla Milhazes Gomes disse...

A obra é um produto da extraordinária imaginação de Michael Cox, nada mais, mas o efeito é tão pungente que de facto nos parece estarmos a ler uma confissão real de factos acontecidos com pessoas que existiram.