sábado, junho 09, 2007

"Uma Vida de Jesus" de Shusaku Endo

Esta vida de Jesus, apresentada pelo autor católico Japonês Shusaku Endo, não é um roteiro dos lugares sagrados por onde Cristo deambulou e pregou a palavra de Seu Pai, nem tão pouco uma viagem escrita que nos revele informações secretas nunca antes afloradas. Endo segue os passos das Sagradas Escrituras usando-as como fio condutor da história mais misteriosa de todos os tempos, história essa que lhe estimula o desassossego a partir do qual o autor relata os eventos que teceram a vida de Jesus, tal qual eles são contados pelos quatro evangelistas, mas com a particularidade de tecer comentários pessoais à forma e ao conteúdo das quatro crónicas distintas (e até certo ponto desiguais) referentes ao Carpinteiro de Nazaré.
Menciono Jesus como um carpinteiro de Nazaré na medida em que Shusaku Endo defende a tese de que em vida, e apesar de reunir discípulos e seguidores da sua pessoa, Jesus ter enfrentado uma onda de animosidade, tanto da parte daqueles que o acompanhavam ocasionalmente, como da parte dos que caminhavam sempre a seu lado e se integravam no chamado grupo dos discípulos, aversão esta que terá desencadeado uma total descrença de que se trataria do tão aguardado Messias. Nem seria esse o seu objectivo.
Segundo Endo, apenas na morte poderia emergir a crença de que aquele não era um Homem vulgar e muito menos um louco. A sua missão não era agir politicamente contra o poder romano ou contra a tirania dos governantes locais entronizados. A Sua revolução era de outra natureza e nem o povo, nem os próprios discípulos estavam preparados para alcançar o que Jesus de facto buscava nos Homens. Só com o seu suplício, ao qual não resistiu por um momento que fosse e que aliás acolheu como se de um sopro de vida se tratasse, seria possível encontrar a salvação da humanidade. Alguns homens iluminados pela brutalidade e pelo Amor que aquele acto sacrificial implicava, puderam transformar uma morte aparentemente inglória e sem significado, no momento de viragem da Humanidade. Esses embaixadores do Cristo iniciaram um périplo que dura até aos dias de hoje e que assenta em pressupostos questionáveis e louváveis em simultâneo. O testamento moral de Jesus terá sido profanado (as versões são demasiadas), algumas vezes mal interpretado ou interpretado da forma que mais convinha a um punhado de gente, no entanto, a maior verdade resiste, perdura e não deixa de ser a mais árdua de colocar em prática pelo Homem: A capacidade de amar. Uma verdade que não é efectiva, não é absoluta, por ela há que saber lutar.
Seja porque se acredita piamente no que aconteceu há dois mil anos naquele local, seja porque não acreditando, sentimo-nos impelidos a questionar o que moveu na realidade aquele Homem, esta é uma História actual e que deve ser revisitada sempre com renovado interesse.

5 comentários:

Rosa Brava disse...

Confesso que foi a curiosidade de ser um autor japonês que me fez comprar este livro.
Vale a pena ler.

Um abraço ;)

Carla Milhazes Gomes disse...

Fui impelida a comprá-lo e lê-lo por esse mesmo motivo... Um autor japonês a discorrer sobre a figura de Jesus; e valeu a pena, é um prisma diverso do ocidental e até à data só tinha contactado com a perspectiva ocidental.

Abraço:)

annabel lee disse...

Olá! Que tal colocar este artigo no bungaku! - devidamente assinado?

http://bungakuuu.blogspot.com

Carla Milhazes Gomes disse...

Olá Sara:) pode publicar o meu artigo no Bungaku, é um prazer poder interagir desta forma com outros blogs de elevada relevância cultural como é o caso do vosso.

Abraço:)

Anónimo disse...

estou ainda a ler o livro, vou a meio, mas estou muito sensibilizada com a forma inédita de abordar a figura de Jesus;nunca o vi descrito desta maneira, sob este prisma tão humano, tão cheio de sentido, tão simples e indo ao encontro dos nossos pensamentos, dúvidas, que não nos atrevemos a equacionar...estou a gostar muito, muito.