domingo, julho 06, 2008

"Tchaikovski: Vida e Obra" de Jeremy Siepmann

Siepmann, Jeremy, Tchaikovski: Vida e Obra (Tchaikovsky: His Life & Music), Bizâncio, Tradução de Francisco Agarez, 2008.

Ler a biografia de Piotr Ilich Tchaikovski escrita por Jeremy Siepmann é percorrer as páginas de uma vida atribulada, repleta de sucessos, de desilusões, de ansiedades e, acima de tudo, é mergulhar na delicada e surpreendente psique de um dos mais brilhantes compositores de sempre.

A obra tem inúmeras ilustrações que permitem ao leitor acompanhar os locais e pessoas que, de uma forma ou de outra, deixaram a sua marca na vida do músico e apresenta, igualmente, dois CD de música de Piotr Ilich que complementa as palavras escritas e ainda um número considerável de excertos de cartas escritas por Tchaikovski que clarificam quase todo o seu percurso enquanto Homem e Compositor, deixando, mesmo assim, algum espaço à especulação…

O traço mais marcante da personalidade de Tchaikovski parece-me ser a sua susceptibilidade à opinião alheia que, de certa forma, sempre o perseguiu e o impeliu a tomar a decisão porventura mais desacertada da sua vida: Casar.
Tchaikovski nunca assumiu abertamente a sua orientação sexual, contudo, as suas paixões, apesar de platónicas tanto quanto sabemos, são direccionadas a homens, nutrindo pelas mulheres que surgem na sua vida ou ódio (no caso da mulher com quem se casa, Antonina Ivanovna) ou apenas uma ternura e carinho próprios de um Homem que se considerava anti-social mas que encantava todos (ou quase todos…) que o rodeavam.

As linhas que Tchaikovski escreve ao irmão Modest, também homossexual, são elucidativas quanto à urgência que sente em se casar: Estou agora a passar por um período muito crítico da minha vida. Não vou agora entrar em detalhes, mas dir-te-ei simplesmente que decidi casar. É inevitável. Uma coisa que tenho mesmo que fazer – não apenas por mim mas também por ti, Modest, pelo Tolia, pela Sasha, enfim, por todas as pessoas que amo. Durante este período a visão que tenho de mim próprio alterou-se significativamente, com o resultado de que de agora em diante vou fazer preparativos sérios para o matrimónio – independentemente da identidade da outra parte. Acredito agora firmemente que, para nós dois (tu e eu), os nossos temperamentos são o maior e mais insolúvel impedimento à nossa felicidade e que temos de combater as nossas maneiras de ser com todas as nossas forças.
Algo o empurra para esta decisão e acaba por levar avante os seus intentos quando aparece na sua vida uma mulher que o ama em segredo e obsessivamente há muitos anos, Antonina.

No entanto, uma semana após o casamento, Tchaikovski escreve ao irmão Anatoli dizendo o seguinte: Quando acordei, na manhã seguinte, vi a minha vida diante de mim, estilhaçada. E caí no desespero. Hoje, a crise parece ter passado. Mas, Deus meu, foi horrível, horrível, horrível! Se não fosse o grande amor que sinto por ti e pelos meus outros entes queridos, que estiveram ao meu lado enquanto eu suportava o insuportável, podia ter acabado mal – na doença, ou mesmo na loucura. Mas hoje – hoje estou a começar a recompor-me.

Mas não se recompôs e teve que engendrar uma forma de se afastar em definitivo da indesejada esposa.

Durante muitos anos, Tchaikovski troca correspondência com Nadezheda Von Meck, uma abastada viúva cultíssima e profunda conhecedora e admiradora da música de Piotr Ilich.
As suas cartas revelam muito mais do que uma amizade entre duas pessoas que nunca se conheceram pessoalmente mas que conheciam cada recanto da alma uma da outra. Nadezheda quer tomar conta de Tchaikovski e torna-se seu mecenas, a única forma possível de aproximação entre ambos.

Talvez o maior desgosto da vida do compositor a seguir à morte da mãe, tenha sido a cessação, sem qualquer justificação, da renda que Nadezheda lhe pagava. E não era só o corte dessa fonte aparentemente inesgotável de rendimentos que o assombrava, era o corte da sua duradoura e inabalável amizade. É um mistério que perdura até hoje.

Tchaikovski foi indubitavelmente um génio e como muitos que o antecederam e precederam foi um génio atormentado por uma sensibilidade nem sempre compreendida.

A banalidade aterrorizava-o, daí que as suas aparições em público fossem muitas vezes confundidas com ataques de timidez, histeria ou loucura.

Ele desejava fugir da vulgaridade, afastar-se o mais possível da contaminação dessa doença que flagelava a sociedade de então e, apesar da dificuldade da travessia, transpôs o umbral da trivialidade e passou à eternidade como “Único”.

7 comentários:

Fernando Vasconcelos disse...

Excelente sugestão.

Pedro disse...

Não sou muito adepto de ler biografias, embora sejam sempre uma leitura diferente e, por vezes, interessantes, muito didácticas. Este livro, através da tua opinião, parece ser um retrato profundo do homem, Tchaikovski. Parece bom, mas não é um livro que vá comprar...

Borboleta disse...

Eu li um livro exactamente do mesmo autor e da mesma colecção, mas sobre Beethoven. Adoro-o simplesmente, e à sua música. O livro sobre Tchaikowsky entrará sem dúvida para a minha lista dos livros a comprar, acho esta colecção bastante interessante!

Carla Milhazes Gomes disse...

Fernando: Obrigado pela reiteração do valor acrescentado que esta sugestão representa para qualquer biblioteca.

Carla Milhazes Gomes disse...

Pedro: Nas escolhas dos livros que compramos e lemos, tal como nas encruzilhadas com que nos deparamos na vida, é bom deixarmo-nos guiar pelo coração... Pelo menos é a minha filosofia;) há géneros literários que também não me fascinam particularmente e há livros que, por isso mesmo, tenho a certeza de que nunca adquirirei... Assim sendo, compreendo-te perfeitamente:)

Carla Milhazes Gomes disse...

Borboleta: Ainda não li o livro desta mesma colecção sobre Beethoven mas é daquelas obras que tenho de ter e ainda para mais sabendo que é escrita por Jeremy Siepmann... Achei a escrita dele de uma simplicidade cativante, focando sempre os aspectos de maior interesse para o leitor e não se perdendo numa retórica demasiado académica:) e a sua escolha das palavras escritas pelo próprio compositor é muitíssimo feliz...

Ana Paula disse...

Olá, Carla! :)

Tenho este e outros da mesma colecção. Acho-a óptima, entre outras razões, porque adoro música clássica e estes livros disponibilizam também muitas horas de magníficas audições.
Parece-me uma excelente colecção! Que muito justamente trouxeste para aqui...

Beijinhos!