
Jay Parini escreve este “A Última Estação” após uma aturada pesquisa histórica que teve como principal fonte os diários de Lev Tolstói e do círculo de familiares e seguidores que o acompanharam no último ano de vida.
O autor convida-nos a assumir uma postura voyeurista ao partilhar a sua visão de “primeira fila” dos acontecimentos que decorreram nesse ano de 1910. E o leitor segue-o de bom grado ora integrando o grupo de tolstoianos mais próximos do maior autor russo do seu tempo, ora como observador da atitude rígida e persecutória da mulher de Tolstói, Sófia Andréevna.
As duas facções digladiam-se ferozmente e no meio deparamo-nos com um Tolstói ansioso por encontrar a paz absoluta em Iássnaia Poliána, a propriedade e casa da família onde o autor nascera e vivera quase toda a sua vida. Mas Iássnaia Poliana é o palco de sofrimento do velho Conde Tolstói onde Sófia Andréevna não o poupa, expondo a quem quisesse ouvir o conteúdo dos diários do marido, devastada por um ciúme doentio de Tchertkov, o mais amado dos discípulos de Tolstói. A suspeita das relações existentes entre os dois homens, dilacera-a e a desconfiança face às reais intenções de Tchertkov motiva-a na cruzada de humilhação que empreende contra o marido e na propagação dos seus medos, temendo sobretudo que a proximidade entre os dois homens trouxesse dissabores para a família após a morte de Tolstói e revelação do testamento.
Os últimos anos de vida de Tolstói são marcados por uma perspectiva marcadamente religiosa e social que o autor tenta aplicar à sua vida. Ele não quer ser o Conde Tolstói, mas somente Lev Nikoláevitch. Ele não quer viver rodeado de luxo, nem ceder a impulsos sexuais. Ele não quer conviver sob o jugo opressivo de uma mulher castradora, que lhe retira a paz tão desejada e lhe proíbe visitar e ser visitado pelo seu mais querido amigo. Ele quer fugir. Desaparecer.
Lemos as impressões de Sacha, a filha que vive em Iássnaia Poliána e que ajuda o pai no seu trabalho, sabemos que considera a mãe alguém profundamente teatral e egoísta, encenando achaques e mais tarde tentativas de suicídio para prender o marido na sua prisão dourada; temos acesso aos pensamentos de Bulgákov, o Secretário de Tolstói nesse último ano, reverente admirador do mestre que começa por sentir pena de Sófia Andréevna, mas acaba por pressentir a dimensão da paranóia da companheira de quarenta e oito anos de Tolstói; conhecemos a aversão que Tchertkov tem por Sófia e as suas maquinações para ter acesso ao mestre contornando o controle cerrado de Sófia Andréevna, o legado de Tolstói não seria pertença da família Tolstói mas do povo russo que ele tanto amava; as impressões do Dr. Makovítski, o médico pessoal, a propósito da saúde cada vez mais periclitante de Lev Nikoláevitch, os seus receios que a influência funesta de Sófia se revelasse, no fim, fatal; da própria mulher de Tolstói que manifesta todo o seu amor pelo marido e a necessidade em impedir a todo o custo o golpe que Tchertkov planeia; por fim, sabemos o que o próprio Tolstói pensa sobre este mundo que ameaça desabar sobre si. Urge evitar que o fim sobrevenha sem que encontre a paz.
E assim parte na companhia de Makovítski, com as sombras da noite como silenciosas cúmplices. A sua fragilidade física agudiza-se durante a fuga e atinge o auge ao chegarem à estação de Astápovo, a última estação, a última paragem antes da morte de Lev Nikoláevitch. Sacha pressente-o antes de todos ao dizer que parecia que tinham chegado ao fim do mundo. Era realmente o desfecho da busca aventurosa de liberdade neste mundo. Aproximava-se a maior aventura de todas e Tolstói acolheu-a com um sorriso nos lábios.
Que livro magnífico!
O autor convida-nos a assumir uma postura voyeurista ao partilhar a sua visão de “primeira fila” dos acontecimentos que decorreram nesse ano de 1910. E o leitor segue-o de bom grado ora integrando o grupo de tolstoianos mais próximos do maior autor russo do seu tempo, ora como observador da atitude rígida e persecutória da mulher de Tolstói, Sófia Andréevna.
As duas facções digladiam-se ferozmente e no meio deparamo-nos com um Tolstói ansioso por encontrar a paz absoluta em Iássnaia Poliána, a propriedade e casa da família onde o autor nascera e vivera quase toda a sua vida. Mas Iássnaia Poliana é o palco de sofrimento do velho Conde Tolstói onde Sófia Andréevna não o poupa, expondo a quem quisesse ouvir o conteúdo dos diários do marido, devastada por um ciúme doentio de Tchertkov, o mais amado dos discípulos de Tolstói. A suspeita das relações existentes entre os dois homens, dilacera-a e a desconfiança face às reais intenções de Tchertkov motiva-a na cruzada de humilhação que empreende contra o marido e na propagação dos seus medos, temendo sobretudo que a proximidade entre os dois homens trouxesse dissabores para a família após a morte de Tolstói e revelação do testamento.
Os últimos anos de vida de Tolstói são marcados por uma perspectiva marcadamente religiosa e social que o autor tenta aplicar à sua vida. Ele não quer ser o Conde Tolstói, mas somente Lev Nikoláevitch. Ele não quer viver rodeado de luxo, nem ceder a impulsos sexuais. Ele não quer conviver sob o jugo opressivo de uma mulher castradora, que lhe retira a paz tão desejada e lhe proíbe visitar e ser visitado pelo seu mais querido amigo. Ele quer fugir. Desaparecer.
Lemos as impressões de Sacha, a filha que vive em Iássnaia Poliána e que ajuda o pai no seu trabalho, sabemos que considera a mãe alguém profundamente teatral e egoísta, encenando achaques e mais tarde tentativas de suicídio para prender o marido na sua prisão dourada; temos acesso aos pensamentos de Bulgákov, o Secretário de Tolstói nesse último ano, reverente admirador do mestre que começa por sentir pena de Sófia Andréevna, mas acaba por pressentir a dimensão da paranóia da companheira de quarenta e oito anos de Tolstói; conhecemos a aversão que Tchertkov tem por Sófia e as suas maquinações para ter acesso ao mestre contornando o controle cerrado de Sófia Andréevna, o legado de Tolstói não seria pertença da família Tolstói mas do povo russo que ele tanto amava; as impressões do Dr. Makovítski, o médico pessoal, a propósito da saúde cada vez mais periclitante de Lev Nikoláevitch, os seus receios que a influência funesta de Sófia se revelasse, no fim, fatal; da própria mulher de Tolstói que manifesta todo o seu amor pelo marido e a necessidade em impedir a todo o custo o golpe que Tchertkov planeia; por fim, sabemos o que o próprio Tolstói pensa sobre este mundo que ameaça desabar sobre si. Urge evitar que o fim sobrevenha sem que encontre a paz.
E assim parte na companhia de Makovítski, com as sombras da noite como silenciosas cúmplices. A sua fragilidade física agudiza-se durante a fuga e atinge o auge ao chegarem à estação de Astápovo, a última estação, a última paragem antes da morte de Lev Nikoláevitch. Sacha pressente-o antes de todos ao dizer que parecia que tinham chegado ao fim do mundo. Era realmente o desfecho da busca aventurosa de liberdade neste mundo. Aproximava-se a maior aventura de todas e Tolstói acolheu-a com um sorriso nos lábios.
Que livro magnífico!
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