domingo, março 09, 2008

"O Remorso de Baltazar Serapião" de Valter Hugo Mãe

Mãe, Valter Hugo, O Remorso de Baltazar Serapião, Círculo de Leitores, 2007.

A história do Amor ferino entre Ermesinda e Baltazar decorre na Idade Média portuguesa, no reinado de D. Dinis, numa obscura terra sem nome dominada por um senhor feudal todo-poderoso, D. Afonso, reclamante da presença das mais jovens e belas mulheres do feudo na casa grande.
A família Serapião, à qual Baltazar pertence, tinha como única posse uma vaca, a Sarga, elemento indissociável do núcleo familiar dos Serapião. Tendo o pai de Baltazar o nome cristão de Afonso, à semelhança do seu senhor, equivalência esta insustentável, havia sido rebaptizado de O Sarga naquela que se tornara uma durável ligação estabelecida entre os Serapião e o animal, quase como se a diferença entre uns e outra fosse remota ou mesmo inexistente. Apesar de já depreciados desta forma, juntava-se ainda a convicção popular de que Baltazar e aldegundes eram produto da relação bestial entre o pai e a Sarga, naquilo que era uma forma pouco subtil de colocar repetidamente os Serapião ao nível de um animal de curral.
Perante a animosidade crescente das gentes em relação aos Sarga, a proximidade com o animal assume contornos reais tendo como base a rejeição, o preconceito, a superstição populares que votam aquela família à condição de proscritos do povoado.
Banidos pelos do seu próprio meio, desterrados da terra que também era a sua, intentam, em vão, um recomeço algures onde não tenha chegado notícia da sua existência e do que a condicionava mas, a crendice das pessoas com que se cruzam e deles em relação a eles próprios, força-os a renderem-se à sua condição de bestas e, sobretudo, à condição de amaldiçoados por atraírem tudo o que era nefasto para onde quer que se dirigissem.

Ermesinda é repetidamente chamada à casa grande e o marido interroga-a do que D. Afonso lhe queria. A comovente submissão de Ermesinda (comovente porque a protecção de Baltazar é tudo o que a move) revela-se no seu silêncio que trespassa o coração de Baltazar não de dúvidas, mas de certezas. E cada momento mudo da mulher corresponde a uma agressão física do marido. Ermesinda é progressivamente privada da sua honra extra-muros e da sua integridade física intra-muros. E o seu silêncio não é mais do que a conservação da honra de Baltazar. Ela sabe que a sua já não pode ser resgatada. A não verbalização do interdito, torna-o dúbio e mesmo irreal para uma mulher encurralada que ama o marido até ao fim.

O sofrimento das personagens femininas nesta obra de Valter Hugo Mãe é inclassificável pela violência psicológica e física de que são vítimas. A ausência física ou mental (como no caso da Teresa Diaba) é a única salvação possível para estas mulheres à mercê do paternalismo doentio destes homens, do seu saber tudo, da sua convicção nos benefícios de uma “educação” pela força.

À força de a querer só para si, Baltazar deforma a mulher faseadamente, transformando-a num corpo irregular marcado pela sua ira, incapaz de aplicar a sua raiva na origem do mal que o assola. O seu egotismo é aviltante, preocupado que está na ofensa à sua pessoa, olvida o eclipse gradual da mulher com quem casara. A outrora bela Ermesinda.
Baltazar abdica da sua humanidade por não a vislumbrar em si nem nos outros. Parece não se reconhecer como Homem, despojado de alma, ferido de ciúme. Ermesinda cai, vítima da sua inércia e Baltazar, aos olhos de quem o vê/lê, é bem o retrato do Homem-besta. E tudo o que lhe resta no fim do seu percurso é a vaca com que desde sempre a família fora associada. Lado a lado. O paralelo que o povo ignorante criara entre o animal e a família Serapião, materializara-se numa realidade de violência em que a redenção não tem lugar e em que o remorso desponta com a morte, com o sacrifício dos inocentes e a queda impiedosa dos culpados. O acto mais irreflectido de Baltazar é o momento da justiça possível. O castigo divino recai sobre ele na forma do vazio absoluto. A solidão.

16 comentários:

Fernando Pessoa disse...

um grande romance sem dúvida.

rouxinol de Bernardim disse...

Síntese perfeita, feita com seriedade, rigor, profundidade analítica.

Oxalá todos os críticos literários pautassem os seus comentários por estas balizas de bom senso e credibilidade.

Parabéns.

Abssinto disse...

Geralmente não me defraudam, as ficções dos poetas.

obrigado. beijos

Castor Del Aguila disse...

Degustei com muita vontade esse post, a leitura foi rapida mas sagaz, o improviso(se assim posso dizer) que traçou com as palavras foi saboroso.

Não há o que acrescentar, estragaria o fluxo do texto.

Só espero que possa desconstruir alguns escritos meus , o que acha?

Acredito na queda, ela é essencial.

Carla Milhazes Gomes disse...

Fernando Pessoa: Uma narrativa memorável... Candidata a eternizar-se ao lado das melhores da nossa literatura.

Carla Milhazes Gomes disse...

Rouxinol de Bernardim: Agradeço-lhe as palavras elogiosas e a visita:) é bom sentir o reconhecimento de quem nos lê... O mérito maior é sempre do autor da obra analisada, neste caso, do Valter Hugo Mãe:)
Obrigado!

Carla Milhazes Gomes disse...

Abssinto: Bons olhos te vejam;) os poetas contam histórias sempre de uma forma muito particular, é verdade, parecem possuir uma aura literária de beleza superior que transpõem magitralmente para a narrativa...

Carla Milhazes Gomes disse...

Castor: A queda é essencial para o renascimento... Desconstrução de textos seus? Tem algo publicado? Teria todo o gosto em poder ler escrito seus:)

Ana Paula disse...

Leio-te sempre com prazer, Carla! Obrigada pelas tuas sugestões sempre tão cativantemente apresentadas!

Beijinhos e um bom fim-de-semana! :)

Carla Milhazes Gomes disse...

Obrigado por continuares a passar por aqui Ana:) o Catharsis também é um espaço por onde passo SEMPRE, apesar do meu silêncio, por manifesta falta de tempo opto por me concentrar mais nos comentários que vão sendo deixados aqui e só ao fim-de-semana:(

Beijinhos grandes e a continuação de um bomfim-de-semana para ti também Ana!

Claudia Sousa Dias disse...

Tenho-o na estante para ler...


Vou de certeza gostar.


Bjo


CSD

Carla Milhazes Gomes disse...

É uma obra incontornável Cláudia, vais com toda a certeza gostar:)

Beijo

Iceman disse...

Este foi um dos livros que mais gostei de ler o ano passado e um dos que, de certeza, irei reler.

Para além da história que me agradou imenso, achei fascinante a linguagem "da época". Um trabalho notável!

Este é um livro que merecia melhor publicidade, pois trata-se de um dos melhores livros da literatura portuguesa dos últimos anos.

G.G. disse...

Li "o remorso de baltazar serapião", de valter hugo mãe. é de facto, uma obra extremamente forte do ponto de vista narrativo e descritivo, mas sendo o tema a violência doméstica contra as mulheres, ainda para mais decorrida durante a idade medieval não seria de esperar leitura menos forte. o final não desvendo, pois considero ser um livro de leitura quase obrigatória. de leitura quase obrigatória para termos consciência do mal que o homem pode fazer consoante a sua educação e os seus valores. deixo no entanto um pequeno apontamento... ainda bem que as vacas (sargas) não têm remorsos...

Carla Milhazes Gomes disse...

Iceman: Concordo que é uma obra sem divulgação à sua medida, infelizmente e apesar do reconhecimento que Valter Hugo Mãe conhece nos círculos dos leitores mais apurados, não se verifica uma amplificação do livro a uma escala mais abrangente... Por vezes o tempo encarrega-se de corrigir esses estranhos acasos...

Carla Milhazes Gomes disse...

g.g.: Tens razão, a consciência é que origina o remorso, o remorso é um produto da aptidão humana denominada errar... Um filósofo cujo nome não me recordo afirmou num dos seus escritos que quanto mais nos misturamos uns com os outros (suposta humanização) mais nos desumanizamos e "O Remorso de Baltazar Serapião" toca um pouco essa perspectiva desumanizada do Ser-Humano.