segunda-feira, outubro 08, 2007

"Pura Anarquia" de Woody Allen

Allen, Woody, Pura Anarquia (Mere Anarchy), Gradiva, Tradução de Jorge Lima, 2007.

A “Pura Anarquia” de Woody Allen é-nos revelada através de um punhado de contos desenvolvidos em torno do conceito de anarquia literária, ou seja, um mundo de palavras escritas onde todas as realidades e personagens que as povoam são plausíveis. O autor diverte-se com as palavras, contamina-nos com a sua pura diversão, criando existências alternativas e, sobretudo, personagens que, num exagero risível, nos conduzem, porventura, a galerias de tipos reais por nós já observados no quotidiano. Este livro é uma revisitação ao subliminar de todos os dias.
Cada conto é um universo imenso de possibilidades infinitas apimentado por um “nonsense” que teletransporta o leitor para os locais e situações mais improváveis. E é esta massa de improbabilidades perfeitamente calculadas ou anarquicamente organizadas na sua pureza literária que gera no leitor uma insaciável vontade de habitar, ainda que apenas nos momentos dedicados à leitura, esses mundos que se inserem neste nosso mundo mesmo que de forma pouco visível.
O ridículo, a combinação de tudo com tudo, a confluência de situações e personagens díspares, eis o que Woody Allen consegue realizar com mestria nesta sua obra.

Eis a minha pequena Pura Anarquia:

Woody Allen aterrou uma avioneta por si pilotada no pequeno aeródromo de Trancoso às 14:53 deste Domingo, tendo sido recebido por um grupo de jovens membros da Associação Bibliófila da Paróquia de Marialva em cujas reduzidas instalações o autor efectuará uma muito aguardada palestra sobre a sua mais recente obra “Pura Anarquia”.
Profundo admirador desta obscura região de Portugal e, em particular, da aldeia da Moura Encantada donde, confessou-nos Woody Allen, é proveniente um seu antepassado de nome Martim, sapateiro de sua ocupação, sepultado em campa rasa no antigo cemitério local, aceitou o convite que lhe foi endereçado pela ABPM de imediato. A inédita visita não foi acolhida por nenhum político já que, deliberadamente, nenhum convite lhes chegou às mãos.
Woody Allen passará a noite de hoje no complexo turístico rural da aldeia que se engalanou para o receber apesar dos já poucos habitantes permanentes de Marialva. Allen manifestou o seu profundo agradecimento às gentes simples da aldeia que tão calorosamente o receberam e revelou a sua estranheza pelo facto de Marialva não ser alvo de estímulos de variada espécie ou atenção por parte do poder político. Encontrou uma aldeia em vias de extinção, sem crianças, e prometeu não deixar cair no esquecimento a cultura e tradição milenares daquela que é uma aldeia histórica de Portugal.

6 comentários:

hora tardia disse...

levei-o de férias...

______________

gostei bastante.



________________beijo.

/piano.

Abssinto disse...

Parece um livro suculento. Foste tu que escreveste o segundo texto? muito bem!

;)
bj

Carla Milhazes Gomes disse...

Hora Tardia: É um livro interessante sobretudo para quem conhece nem que seja um pouquinho do cinema de Woody Allen, permite-nos fazer algumas extrapolações que enriquecem a leitura:)

Beijo

Carla Milhazes Gomes disse...

Abssinto: É apetitoso sem dúvida, um pequeno manjar literário servido pela mão de um dos grandes mestres do cinema:)
Sim, o segundo texto em itálico é de minha autoria... Um excurso com algumas alfinetadas;)

Bj

Ana Paula disse...

Adorei, Carla!!! Não só o que dizes sobre o livro, mas também o teu texto giríssimo!
Certeiras alfinetadas, estou convicta. :)
Beijinho amigo

Carla Milhazes Gomes disse...

Obrigada Ana:)
Este livro do Woody Allen é, de certa forma, um incentivo para criarmos as nossas puras anarquias, no fundo para anarquizarmos (no bom sentido!) a nossa vida e a dos que nos rodeiam tendo sempre em vista um fim positivo; impele-nos até a revolucionar certos aspectos do quotidiano... Nem que seja no papel;)

Beijinho Amigo