domingo, setembro 07, 2008

"Teresa, a Santa apaixonada" de Rosa Amanda Strausz

Strausz, Rosa Amanda, Teresa a Santa Apaixonada, Casa das Letras, 2006.

“Teresa, a Santa apaixonada” é uma cativante narrativa da autoria de Rosa Amanda Srausz sobre o percurso de vida de Teresa Ahumada Sanchez y Cepeda, mais conhecida como Santa Teresa de Ávila. Acompanhamo-la desde os primeiros anos em que a sua beleza ímpar atraía os olhares de inúmeros pretendentes, em que a leitura ocupava os seus dias e em que a sua imaginação indómita a transportava para os mais diversos lugares, literalmente.

Talvez por lhe parecer demasiado insubmissa e sem a referência moral da mãe recentemente falecida, o pai de Teresa, D. Alonso, encaminha-a para o convento das Agostinianas de Nossa Senhora das Graças onde se deu o primeiro encontro de Teresa com Deus, mas “não com o amoroso Deus cristão, tal como o concebemos no século XXI, mas com a entidade terrível que regia a vida espiritual do século XVI.”. Teresa estava, pela primeira vez na vida sozinha, na presença de um “…Pai severíssimo [que] não se podia enganar. E, para ser admitida na sua família, eram necessárias provas tão duras quanto as que formariam qualquer cavaleiro. Falhar nas demonstrações de virtude e obediência era caminho certo para o Inferno, com letra maiúscula. Qualquer desvio era atribuído à força do Demónio – também com maiúscula. E quem determinava o que levaria ao céu ou ao Inferno era a Igreja, com as suas regras implacáveis.”.
Despojada de tudo o que a caracterizava como Ser único, individual, Teresa ouvia ecoar as palavras “Para sempre” em cada recanto daquele sinistro convento, como se uma eternidade de perda e dor a aguardasse numa qualquer pedra inexplorada do espaço de clausura em que se refugiava.

As primeiras provações, experimenta-as nesse período terrível passado no convento das Agostinianas. À bela jovem por todos admirada sucede-se uma pálida réplica que luta por não se sentir culpada ante a rejeição do seu corpo ao silêncio frio que as paredes do convento lhe devolviam. Teresa adoece. Tudo é controlado, vigiado no convento e a alma inquieta, ávida de vida de Teresa, decai lentamente até lhe restar apenas um imenso cansaço, lágrimas abundantes e a ausência de apetite.

D. Alonso toma conhecimento da doença da filha e leva-a para casa julgando ser esse o remédio para uma rápida recuperação. Mas Teresa continua a “desaparecer”, aquela Teresa alegre e bela de que o pai se recordava, teima em voar para um refúgio distante e desconhecido onde já nem a família tem acesso.
Envia-a para o campo, para junto da irmã mais velha, e é lá que Teresa melhora, pressentindo a presença não do Deus vingador e terrível que lhe impunham no convento e a empurrava para o Inferno, mas do Deus criador e caridoso que a aproximava do Céu.

Restabelecida, foge para onde Deus a conduz: o mosteiro carmelita de Nossa Senhora da Encarnação onde os muros não estão fechados à vida.
A determinação de Teresa torna-se verdadeiramente feroz e é tomada de estranhos arroubos de êxtase traduzidos na mortificação do jejum levado ao limite, da exposição a temperaturas demasiado baixas ou elevadas e da auto-flagelação com urtigas. Teresa fica, mais uma vez, muito doente. É o empenho de quem quer celebrar a sua devoção a Deus com núpcias de sangue oferecendo-lhe a sua veneração perpétua e ilimitada.

Mais uma vez junto da família, desta vez em casa do tio Pedro, este oferece-lhe uma obra que mudaria a vida de Teresa, o “Tercer Abecedário” de Francisco de Osuna.
Teresa coloca-se na situação de ser sugada para “… dentro do livro. As letras desaparecem, as páginas somem-se, o mundo à volta desvanece-se e o texto passa do papel para a nossa mente como uma transfusão. Nessas horas, não parece que estamos a ler, mas a pensar. As ideias formam-se com muita nitidez, e traduzem exactamente o que sentimos – só faltavam aquelas palavras para organizar o que borbulhava informe dentro de nós.”.

E o problema da orientação religiosa inconsistente de Teresa terminou.

Através da constante prática da oração mental, prodigalizada no livro de Osuna, Teresa encontrou o equilíbrio que há tanto buscava apesar do momento em Espanha ser de censura e ódio com o recurso a perseguições e autos-de-fé em que a presença feminina cada vez mais se fazia notar.

Teresa foi uma mulher que abdicou de si, que se entregou à obra de Deus incondicionalmente mas não sem antes perscrutar qual o melhor rumo a seguir dentro das várias “tendências” existentes na Igreja de então.
A severidade nunca lhe assentou bem e era na prática do bem com alegria que Teresa de Jesus, a Santa apaixonada que conversava com Cristo e foi acusada de louca, se sentia realmente pertença de um universo de amor que ajudou a propalar.

6 comentários:

Pedro disse...

Não conhecia o livro, mas fiquei interessado por ser um livro, pode-se dizer, histórico, e falar de Igreja, que geralmente tem sempre bons temas para a literatura... Ou será que se tornou um cliché? Talvez, mas a verdade é que são interessantes!

Carla Milhazes Gomes disse...

Trata-se de uma biografia muito bem explanada de Santa Teresa de Ávila, uma mulher de carne e osso que sacrificou o conforto de uma vida como nobre pela devoção absoluta a Cristo... Os temas que tocam de algum modo a História da Igreja ou que a têm como pano de fundo, fascinam-me por ser um percurso tão desequilibrado e também porque cada vez mais acredito que para se ter legitimidade para criticar, tem que se conhecer...

Iceman disse...

Muito interessante esta tua opinião.

Vou ficar de olho neste livro.

Carla Milhazes Gomes disse...

Iceman: É um livro interessantíssimo, vale muito a penas.

amanda disse...

adorei muito interesante

Carla Milhazes Gomes disse...

Amanda: É mesmo muito interessante, leia e poderá comprová-lo:)