domingo, janeiro 11, 2009

"O Carteiro de Pablo Neruda" de Antonio Skármeta

Skármeta, Antonio, O Carteiro de Pablo Neruda (El Cartero de Neruda), Biblioteca Sábado, Tradução de José Colaço Barreiros, 2008.

Desde que vi a transposição para o grande ecrã de “O Carteiro de Pablo Neruda” dirigido por Michael Radford que queria ler a obra de Antonio Skármeta na qual o filme se baseou. Criei grandes expectativas em relação a esta leitura porque a história contada no cinema era muito simples mas repleta de uma aura poética e humana que muito admirei e aplaudi.

Contudo, a riqueza das personagens no filme de Radford (quem não se recorda da magnífica interpretação de Massimo Troisi como Mario, o carteiro de Neruda?) esbate-se no suporte inicial e desilude pela simplicidade sem magia que patenteia.
Falta-lhe a genuinidade e pureza das vozes que deram corpo à história de um carteiro que entregava cartas à única pessoa que as recebia naquele mundo do fim do mundo, Pablo Neruda, estabelecendo-se uma relação de cumplicidade e mesmo amizade entre dois homens fruto de gerações diferentes mas feitos da mesma matéria sensível.

Em contraste com a política de aldeia que se desenrolava na ilha, palco menor mas ainda assim revelador de tendências nacionais, surgia a grande política na qual Neruda era actor principal no proscénio do destino do Chile.
É evidente que para além das questões políticas que muito ocupavam Neruda, Mario trazia-lhe sempre com o correio as suas francas interrogações sobre poesia e o amor por Beatriz, questões que assumiam proporções salientes na vida do carteiro de Neruda e nas quais envolveu o poeta.

Era um mundo de coisas simples, de pessoas que sonhavam a vida e o pequeno mundo que habitavam sem complicações e a convivência de Neruda com as pequenas dificuldades que Mario encontra para conquistar as poucas coisas a que poderia aspirar, servem de inspiração ao poeta que descobre no jovem carteiro essa sensibilidade tão difícil de percepcionar, de presenciar.

Não existe uma correspondência de qualidade entre livro e filme e por muito que quisesse, não consigo deixar de efectuar esta associação, ainda para mais tratando-se de um filme que tanto aprecio. Ocorre-me dizer que Antonio Skármeta desenvolve com alguma pobreza uma bela ideia e Michael Radford transforma um livro vulgar numa obra cinematográfica, para mim, inesquecível.

De notar, contudo, que a espaços assistimos a momentos de prosa poética que não posso deixar de valorizar e destacar conforme poderão confirmar na barra lateral esquerda na rubrica “Excertos” onde reproduzo um dos mais belos instantes lidos da presente obra.

10 comentários:

Canochinha disse...

Concordo com tudo o que dizes em relação ao livro e não vi o filme! De facto, pareceu-me uma excelente ideia que podia ter sido muito melhor explorada. Foi pena.

Carla Milhazes Gomes disse...

Fica a sensação de que poderia dali ter nascido uma grande obra e tal não sucedeu. Em resumo: Uma desilusão!

Mas vê o filme, é incomparável, muito distante da pálida imagem deixada pelo livro:)

Pedro disse...

Está por ler... Ou melhor, já comecei a ler, mas depois deixei de lado, pouco avancei.
No entanto, acho que tenho a mesma sensação que tu: esperava mais riqueza nas palavras, mais riqueza nas descrições, enfim este é um livro demasiado pequeno. A simplicidade é... demasiado simples, se é que me faço entender.

No entanto, ainda o hei-de acabar. Quando lá chegar, darei a minha opinião...

Joana Pinto disse...

Olá Carla!
Um agradecimento especial pelo prémio que me atribuíste! =)
Gosto muito de visitar o teu espaço e partilho desta tua última leitura. O livro é de uma sensibilidade extrema...Também apreciei bastante o filme, principalmente o jeito humilde do carteiro.Achei que estava muito bem encarnada a personagem.

Beijinhos,
Joana Pinto

Carla Milhazes Gomes disse...

Pedro: Eu não o diria melhor... É de uma simplicidade demsasiado simples... Não move e não comove como deveria:/antes demove a uma eventual busca de outras obras de Skármeta:(

Carla Milhazes Gomes disse...

Joana: O prémio é atribuido com toda a justiça, mereces pelo Amor à literatura demonstrado no teu blog:)
Quanto a este carteiro que Skármeta nos apresenta, não me convenceu, vale a pena pelo facto de ter inspirado um belo filme...

Bjs.

Paula disse...

Li o livro "O Carteiro de Pablo Neruda" o ano passado e realmente o filme supera o livro. O que raramente acontece.
Parabéns pelo teu blog

Carla Milhazes Gomes disse...

Paula: É realmente um acontecimento raro, pelo menos de acordo com a minha experiência enquanto leitora e cinéfila, o facto de o filme superar o livro no qual se baseia... Obrigado pela tua visita Paula, espreitei o teu blog pelo qual desde já te congratulo também e já o adicionei aos meus "imperdíveis";)

tonsdeazul disse...

Não vi o livro, mas não gostei do livro. Esperava melhor e desiludiu.

Carla Milhazes Gomes disse...

Tonsdeazul: Existe alguma unanimidade em relação às expectativas criadas pelo livro e a sua leitura... Para mim e para os que viram o filme não se perdeu tudo porque a distância qualitativa de uma obra para outra é suficiente para dizer que valeu a pena Skármeta escrever o livro...