domingo, março 23, 2008

"O Livro do Deslumbramento" de Lord Dunsany

Dunsany, Lord, O Livro do Deslumbramento (The Book of Wonder), Saída de Emergência, Tradução de Marta Oliveira, Ana Margarida Canelas, Susana Clara, José Manuel Lopes, 2007.

A editora Saída de Emergência reuniu num só volume “O Livro do Deslumbramento” e “O Novo Livro do Deslumbramento” materializando, assim, a própria vontade de interligação e continuidade do autor expressa no epílogo de “O Livro do Deslumbramento”: Aqui acaba o décimo quarto episódio do Livro do Deslumbramento e o relato das Crónicas das Pequenas Aventuras na Orla do Mundo. Despeço-me dos meus leitores. Mas talvez nos encontremos outra vez, pois ainda ficou por contar como os duendes roubaram as fadas, a vingança das mesmas, e até como tudo isso perturbou o sono dos deuses. Ficou também por contar como o Rei de Ool insultou os trovadores, julgando que estaria a salvo, no meio dos seus muitos arqueiros e centenas de alabardeiros; como os trovadores se instalaram, pela calada da noite, nas torres do rei e, por debaixo das suas ameias, à luz da Lua, e o ridicularizaram para todo o sempre com os seus cantares. Mas para isso, terei primeiro de regressar à Orla do Mundo. Atenção, as caravanas partem.

Lord Dunsany criou um mundo paralelo que situa numa região designada de Orla do Mundo e as histórias narradas, ocorridas nesse espaço distante e desconhecido, são quase sempre transmitidas por via oral através do relato sonhador ou ébrio de viajantes e marinheiros em alguma taberna à beira mar, contadas como se de uma realidade com roupagem de lenda se tratasse. E o nosso narrador, sempre pronto para ouvir as façanha fantásticas de homens comuns transmutados em figuras temíveis e respeitadas ou os feitos assombrosos de piratas terríveis e ameaçadores convertidos em homens passíveis de suscitar a admiração do leitor, conta-nos as aventuras dos que ousaram quebrar com a normalidade de uma vida banal, que partiram em busca de transformar o irreal em algo concreto.

Destaco a inabalável vontade do Capitão Shard, personagem que nos é apresentada no “Livro do Deslumbramento” e que é retomada no “Novo Livro do Deslumbramento” a bordo do seu navio pirata, o Desperate Lark, perseguido, acossado, navegando por mar e terra, resistindo à instabilidade que a sua posição de comando lhe conferia mediante o sucesso ou insucesso da fuga que empreendera.

O deslumbramento aqui significa não só o espanto perante as inúmeras possibilidades da vontade humana ou sobre-humana, mas também o propósito último de todos estes seres. Conquistar esse estado de esplendor, de ofuscação ante a beleza do fim domado, eis o objectivo da grande viagem delineada pelas personagens de Lord Dunsany.

4 comentários:

Miguel Garcia disse...

Bom dia!
Boa Pascoa!
Tenho de confessar que este livro ficou uma bocado a baixo das expectativas que tinha antes de o ler, mas devo também dizer que as expectativas eram demasiado altas...
isto porque na contra capa há uma descrição muito favoravel de Lovecraft... e tendo eu Lovecraft num pedestal, assumi que iria ser um livro Lovecraftiano... e é... na temática mais fantástica e não do terror... percebi a influència dos contos mais fantásticos de Lovecraft, como por exemplo a Chave de Prata, A Desconhecida Kadath.. é claro o paralelismo que existe, (nessa área da escrita), entre Tolkien e Lovecraft.
É um livro que faz parte do nascimento da literatura fantástica e é de louvar o trabalho da Saida de Emergencia com estes autores esquecidos no tempo e memória.
É um bom exercicio de leitura!
Beijo

Carla Milhazes Gomes disse...

Boa Páscoa para ti também Miguel:)
Percebo a tua "desilusão" em relação ao livro do Deslumbramento, eu própria também o comecei a ler perspectivando algo mais próximo da escrita de Lovecraft mas segue muito mais a linha de Tolkien... É como dizes, trata-se de um bom exercício de leitura e devemos reconhecer o fantástico trabalho da Saída de Emergência no que respeita a estes autores menos falados:)

Beijinhos!

Ana Paula disse...

Claro que a editora está de parabéns! É preciso diversificar as publicações contemplando também estes autores algo esquecidos.

Na verdade, não li o livro mas tinha curiosidade acerca dele.
A tua informação foi-me muito útil.

Obrigada, Carla!

Beijinho amigo!

Carla Milhazes Gomes disse...

Apesar do nível de dificuldade, deslumbra, não há dúvida de que deslumbra:)

Beijinhos amigos:)