domingo, outubro 19, 2008

"A Queda da Casa de Usher" de Edgar Allan Poe

Poe, Edgar Allan, A Queda da Casa de Usher (The Fall of the House of Usher), Edições Quasi, Tradução de Vasco Gato, 2008.

Este pequeno livro é composto por três contos de Edgar Allan Poe representativos do legado sui generis deixado pelo autor americano natural de Boston – “A Queda da Casa de Usher”, “Uma Descida ao Maelström” e “O Homem da Multidão”.
No primeiro conto – “A Queda da Casa de Usher” – o leitor é arrastado, tal como o próprio narrador, para um ambiente de reclusão bafienta e loucura inquietante personificados pela fantasmagórica Casa dos Usher e pelos seus habitantes, os derradeiros herdeiros de um nome antigo e condenado ao desaparecimento precoce a que a doença, irremediavelmente, o parece sentenciar. O isolamento dos dois irmãos Usher, Roderick e Madeline, é quebrado apenas pelo aparecimento do narrador, amigo de longa data do primeiro, chamado pelo enfermo para o serenar com a sua companhia no momento particularmente opressivo que vivia. A razão abandonara Roderick e quando Madeline sucumbe à doença que a atormentava, o estado já irreversível da sua incapacidade mental, avança rumo à loucura declarada, a um total apartamento do mundo circundante. A permanência durante vários dias do corpo da irmã Usher nas masmorras da Casa, cria na mente perturbada do irmão o que pareciam ser delírios e alucinações auditivas que, no entanto, são partilhadas, pelo menos a um nível subconsciente, pelo narrador que assiste à queda do mal enraizado e simbolizado pela Casa de Usher e pelos seus últimos descendentes.

Em “Uma Descida ao Maelström” um visitante é conduzido numa viagem às memórias de um pescador norueguês, único sobrevivente de um fenómeno sobrenatural que implicava a descida a uma espécie de submundo sem retorno. O pescador relata o dia em que se fizera ao mar com os irmãos e foi surpreendido pelo prodígio conhecido de todos os homens do mar da região, um vórtice surgido do nada que sugara o seu barco para as entranhas sem fim do inexplicável turbilhão. Vivia de contar a fantástica história a quem não o conhecia porque os seus conterrâneos, apesar de serem testemunhas do seu envelhecido regresso, não acreditavam na assombrosa narrativa.

No terceiro e último conto – “O Homem da Multidão” – acompanhamos o voyeurismo de um narrador que a partir da janela de uma casa vislumbra a buliçosa vivência exterior, adivinhando nas feições e características dos sujeitos que desfilam à sua frente, toda uma existência. Perde-se a seguir com o olhar os interessantes “tipos” que constituem a “fauna” londrina de meados do Século XIX mas apenas desperta verdadeiramente quando se depara com uma figura em particular, “o semblante de um velho decrépito” que se destacava da multidão pela expressão indecifrável que possuía, próximo de uma “encarnação pictórica do demo”. Tal é a sua curiosidade que sai de casa e decide segui-lo pelas ruas e vielas que percorre, desesperado por interpretar aquela existência.

Os três contos de Poe de que é composto este livro, guiam-nos a mundos fora deste mundo, mundos esses visíveis ao olhar dos crédulos, mundos de horror. O confronto do improvável com a realidade cria a rejeição e a vida por detrás do vidro que limita as realidades paralelas é, não raro, acossada pelo temor de que o impossível por vezes também acontece.

13 comentários:

Pedro disse...

Já li os contos de Edgar Allan Poe e gosto bastante. "Uma Descida ao Maelstrom" é dos meus preferidos ;))

Carla Milhazes Gomes disse...

Confesso que o meu preferido nesta edição foi mesmo "A Queda da Casa de Usher", é de uma morbidez constante, insistente e o fim com aquela apoteose invertida é extraordinário:) aliás, a técnica da repetição como forma de contágio do próprio leitor está também bem patente no seu mais popular poema - The Raven.

Iceman disse...

Este é tido por muitos como o melhor conto de Poe.

Pessoalmente prefiro outros, no entanto o que sublinho é a excelência da escrita de Poe, um mestre de sensaçoes.

Ana Paula disse...

Olá, Carla! Estive a tomar nota das tuas recomendações anteriores... agradeço-te sinceramente as sugestões e opiniões.

Esta tua última referência, de E.A. Poe, é uma leitura magnífica, a de todos os três contos! Bom, eu sou admiradora do autor, por isso, suspeita. Mas julgo-o incontornável.


Um beijinho grande :)

Miguel Garcia disse...

Olá Carla,
Edgar Allan Poe é considerado o pai do Horror e do Policial, pode não ser o melhor, mas foi ele quem fecundou os géneros!
É dono de uma obra vasta e de grande qualidade, confesso que gosto mais dos contos de Horror.
O meu conto é: Enterro Prematuro, mas o maior momento literário, para mim, é As Aventura de Arthur Gordon Pym, penso que é o único romance do autor, vale a pena.
No seu enredo está a inspiração de vários filmes e outras histórias, como As Montanhas da Loucura do seu aluno e meu mestre Lovecraft!

Para quem gostar das adaptações de Roger Corman, ainda que tenham algum cunho de "vamos mudar a história que eu é que sou o realizador", vale a pena ver House of Usher (1960), com a excelente participação de Vincent Price.
Beijinhos**

Carla Milhazes Gomes disse...

Iceman: É, de facto, um excelente conto embora outros existam que possam concorrer em termos de qualidade com este, sem dúvida; Poe é um mestre na transmissão de sensações muito específicas correlacionados com um mundo de medos, obsessões e terrores pessoais ou colectivos... É um mergulho num universo próximo e distante em simultâneo, um mergulho no desconhecido, no indefinível.

Carla Milhazes Gomes disse...

Ana: É imprescindível, claro! é absolutamente necessário ler Poe para se compreender muito do que se escreveu depois de Poe... É um contista nato e mesmo quando lemos a sua poesia entrevemos pequenas narrativas difusas e sempre sempre muito sombrias:)
Beijinho grande*

Carla Milhazes Gomes disse...

Miguel: É verdade... as adaptações de Roger Corman, apesar de não serem nem de longe nem de perto obras-primas, tenho boas recordações de maratonas de cinema em que lá mais para o fim da noite aparecia um filme do Corman:) o Lovecraft sempre me pareceu mais "apurado" que o Poe, Poe é mais cru, a sua escrita mais "despida", mais directa; H. P. é mais complexo, mais aprimorado, mais intrincado, menos liniar... espero ter oportunidade muito em breve de escrever algo sobre Lovecraft;)

Beijinhos:)

Psykhe disse...

O maior escritor de todos os tempos. Apesar de ser um fã incondicionado da sua poesia, reconheço a sua grande capacidade literaria nos seus contos... Devo felicitar-lhe por este blog. É bastante promissor
Cumprimentos

Carla Milhazes Gomes disse...

É um grande escritor, de facto:)
A poesia de Poe dispensa apresentações, é de uma intensidade na obscuridade imensa... Os contos, são uma quase continuidade (muito natural) da sua poesia, brilham apesar da escuridão em que mergulham.
Obrigado pela visita:)

S. G. disse...

gostei mais do primeiro (arrasta-nos por completo para aquele mundo terrífico) e menos dos outros dois. agora vou procurar ler o novo (livros de bolso) editado pela leya.

Carla Milhazes Gomes disse...

S.G.: O primeiro é também o meu favorito talvez porque seja mais Poe, mais negro e envolva o horror mais inspirado de um autor que de forma tão brilhante entrou nesse "backyard" da mente humana.

Anónimo disse...

alquem pode me dizer aonde acho o conto original da queda da casa de usher pois os da internet estão modificados.