domingo, novembro 16, 2008

"A Cura de Schopenhauer" de Irvin D. Yalom

Yalom, Irvin D., A Cura de Schopenhauer (The Schopenhauer Cure), Saída de Emergência, Tradução de Carlos Romão, 2006.

Julius Hertzfeld é terapeuta e é-lhe revelada a inesperada notícia da sua morte iminente.

Esta é a história da forma como Julius partilha essa revelação com um grupo de terapia que acompanha e, sobretudo, como inclui nesse conjunto de pessoas por si “escolhidas” um antigo paciente, tido como um fracasso marcante na carreira de Julius.
A reabertura do dossier de Philip Slate traz à memória de Julius uma patologia que não fora possível debelar e ocorre-lhe que uma das suas últimas missões enquanto Ser-Humano seria procurar Philip e tentar compreender o que falhara e se recuperara.

Encontra um homem diferente graças ao seguimento de uma filosofia que transpusera para a sua vida quotidiana, uma auto-prescrição de pensamentos e normas provenientes dos escritos de Arthur Schopenhauer.

Philip estava curado do problema que o afligira vinte anos antes contudo, o facto de reger a sua vida em torno de um conjunto de ideias rígidas, anti-sociais e deterministas, transformara o seu mundo de descartável (visto as relações humanas que encetava serem fugazes e, consequentemente, sem significado profundo, tudo era substituível e procedia sem remorso) em insular. Ele isolara-se conscientemente da massa humana imprópria, convertera-se num Ser hibernante, preso numa cela de ideais dourados, refugiado da influência nefasta que o contacto humano lhe proporcionara. Philip rompe com a vida.

Julius sente que é seu dever resgatar alguém que em vida não vive e que ele não conseguira ajudar a encontrar um rumo. É quase como se sabendo da sua ausência para breve e para sempre, pretendesse restaurar a alma enfraquecida de Philip, lhe pegasse na mão para ocupar o lugar que ele, Julius, deixaria vago no teatro do mundo.

A frieza das doutrinas de Schopenhauer apodera-se da semi-vida de Philip, contribuindo para a fruição que parecia retirar da absoluta solidão em que sustinha a sua existência. E é então que, gradualmente, a partilha de experiências com o grupo, o exorcizar de todo o mal que o apoquentara e que via reflectido nas mágoas dos “outros”, dos seus companheiros de viagem, relegam-no para um estado de entendimento, de comiseração, de compaixão pela humanidade ali representada e por si próprio como elemento constituinte desse universo humano.

A cura de Schopenhauer facilitara-lhe a fuga de um abismo mas conduzira-o a outro, à denegação da sua condição humana. E o ressurgir de Philip como homem completo faz-se por meio do choro, acto humano por excelência.

6 comentários:

Pedro disse...

Fiquei com água na boca! =PP

Carla Milhazes Gomes disse...

É uma leitura duplamente interessante: por um lado tens uma história de renascimento bem contada, por outro essa história principal é acompanhada de trechos que permitem conhecer melhor a vida e pensamentos de Arthur Schopenhauer.

Homem do Leme disse...

Gosto muito da filosofia de Schopenhauer, pelo que já há algum tempo que ando curiosa sobre este livro. Do mesmo autor li "Quando Nietzsche Chorou" e adorei. Como a lista para o Pai Natal já está feita, será uma compra a fazer.
Obrigado pelas sugestões.
Boas Leituras.

Psykhe disse...

Parece ser um livro com um grande nivel de interesse... Estou a começar a ler "Quando Nietzsche Chorou" do mesmo autor, que promete...

Carla Milhazes Gomes disse...

Homem do Leme: Comprei-o precisamente pelo interesse que sempre tive pela filosofia de Schopenhauer, queria ver até que ponto é que as suas ideias seriam trabalhadas num romance e gostei bastante do resultado final... Hei-de repetir a experiência com Nietzsche:)

Carla Milhazes Gomes disse...

Psykhe: Para quem tem interesse pela filosofia e em simultâneo pela psicologia, este é definitivamente um livro relevante:)