domingo, fevereiro 01, 2009

“O Meu Diário de Guantánamo - Os Prisioneiros e as Histórias que me Contaram” de Mahvish Rukhsana Khan

Khan, Mahvish Rukhsana, O Meu Diário de Guantánamo – Os Prisioneiros e as Histórias que me Contaram (My Guantánamo Diary – The Detainees and the Stories They Told Me), Bizâncio, Tradução de Cláudia Brito, 2008.

Filha de pais afegãos, nascida nos Estados Unidos da América, dividida entre a tradição, cultura e língua pashtun e uma vivência ocidental, Mahvish Rukhsana Khan, mergulhou na realidade periférica de Guantánamo ainda enquanto estudante de direito mas conhecedora dos costumes e idioma que fariam com que os advogados que tratavam dos processos dos prisioneiros de origem afegã, mais facilmente com eles comunicassem e lhes transmitissem a confiança necessária numa relação advogado/cliente.

Três casos em particular a ocupam no tempo interrompido que significa Guantánamo para os prisioneiros inocentes que aguardam uma acusação alguns há três anos. Esse tempo imóvel desde que haviam sido separados das suas famílias, parece retomar o seu andamento com a presença familiar de uma mulher que fala a língua deles, que conhece os seus costumes, que os observa com o respeito que a cultura pashtun incutida pelos pais reservava a todo o Ser-Humano. E confessam-se, inundam aquelas celas de histórias de horror, ódio e traição protagonizadas não só pelos americanos que os maltratavam enquanto pretensos terroristas, como também pelos conterrâneos que os tinham vendido.

É um conjunto de histórias de vidas suspensas aquelas apresentadas por Mahvish Khan, de pessoas normais que na espiral de medo que se seguiu ao 11 de Setembro (impelindo os americanos a distribuir milhares de panfletos nos países que albergavam terroristas nos quais eram oferecidas recompensas milionárias a pessoas que viviam abaixo do limite da pobreza e que movidas pela inveja, pela oposição política ou social, pela mera rivalidade tribal, entregaram adversários aos americanos sem qualquer prova de culpa – bastava apontar e dizer que aquele ou aquela estava envolvido em actividades terroristas) foram apanhadas na teia de uma febre inquisitorial e farisaica própria de um qualquer improvável farwest.

Contudo, a autora não se limita a expor os casos de injustiça evidentes existentes em Gitmo. Ressalva sempre que por trás daquelas paredes, estão não só inocentes como culpados, embora a acusação não formada dos prisioneiros de Gitmo e a tortura de que todos foram vítimas, não seja, forma digna ou humana de conduzir qualquer processo, seja ele qual for.

Gitmo funciona não só como símbolo do autoritarismo selvagem e sem lei da Administração Bush, mas igualmente como súmula da indiferença do mundo perante tão evidente transgressão do direito internacional e do que é humanamente tolerável.

Como é possível libertar-se um prisioneiro depois de anos de cativeiro, provada que ficou a sua inocência, e largá-lo simplesmente no local onde o haviam inicialmente interceptado? Será isto civilização? A estas e muitas outras questões se alude no presente volume que deixa marca.

6 comentários:

Homem do Leme disse...

Olá,
o meu blog tem um prémio para este blog.

Pedro disse...

Costumo ficar tocado com histórias como esta. Quem diria que existe uma coisa chamada Direitos Humanos? =P

Fiquei curioso. Adorei a tua pergunta final, deixou-me com uma vontade tremenda de ler o livro!

Miar à chuva disse...

Só para te dizer que tens uma pequenina prenda no meu blog. Espero que gostes.
Bjinhos
Sandra
http://vidasdesfolhadas.blogspot.com/

Carla Milhazes Gomes disse...

Homem do Leme e Sandra: Obrigada pelo prémio, sinto-me honrada com a sua atribuição e sobretudo porque é entregue por vocês, autoras de blogues de relevo, de prestígio no âmbito do nosso motivo de interesse comum, os Livros...

Abraço a ambas:)

Carla Milhazes Gomes disse...

Pedro: É um livro que se lê de coração pesado... Embora seja uma leitura sem dificuldades linguísticas, acarreta dificuldades de outra natureza: Sentes-te envolvido no drama dos que foram presos sem qualquer acusação e anos mais tarde libertados porque inocentes, sentes uma estranha culpa por viveres num mundo em que apesar de se ter conhecimento dessa situação, nenhum governo do dito mundo civilizado condenar abertamente tal ignomínia...

Ana Paula disse...

Olá, Carla!

Fico-te muito agradecida pelo prémio! É um prazer recebê-lo, sobretudo vindo de ti :)

O teu blogue dá-nos sempre referências literárias interessantes e úteis. Renovo os meus parabéns de sempre.

Voltarei para recolher o selo do prémio e ler a tua última sugestão, sobre a qual estou curiosa.

Agora, deixo-te um beijinho amigo associado ao meu Obrigada! :)