domingo, março 15, 2009

"Desconhecidos" de Taichi Yamada

Yamada, Taichi, Desconhecidos (Ljin-Tachi Tono Natsu), Civilização Editora, Tradução de Helena Serrano, 2006.

Hideo vive num Japão contemporâneo impessoal. Descobre que habita um imenso bloco de apartamentos que, durante a noite, se esvazia a ponto de nele só permanecerem duas almas solitárias nessas horas nocturnas: O próprio Hideo e uma mulher atormentada por uma deformidade física chamada Kei.

A vida pessoal de Hideo sofrera recentemente o golpe de um divórcio apetecido e descobria os primeiros passos de um percurso que desenvolveria sozinho. Não esperava importar-se com o facto de um amigo lhe confessar que iria cortejar a sua ex-mulher, pressentindo nessa manifestação uma pequena traição.
No silêncio do condomínio deserto, ele reflecte sobre as implicações que o conhecimento da relação entre o amigo e a mulher com quem estivera casado quase vinte anos teria na amizade de ambos quando ouve alguém bater-lhe à porta. Um gesto tão íntimo e deslocado do contexto de retiro e isolamento que o mausoléu em que estava encerrado simbolizava.
Demasiado ocupado com os pensamentos de ruptura com o círculo de pessoas que lhe eram mais próximas, Hideo enxota da forma mais diplomática possível a mulher que pernoita no prédio tal como ele. Ele compreende que a presença de Kei à sua porta é um pedido de ajuda, um último recurso para sobreviver a mais uma noite de reclusão que se adivinha e, no entanto, egoisticamente, volta-se para si e repele aquela mulher que não conhece de lado nenhum mas cuja súplica no olhar ele não ignora.
Ao fechar a porta, Hideo tem a perfeita noção de que terá cometido um erro e que algo perturbava Kei de forma tão excessiva que lhe ocorre que aquela poderia ser a primeira e última vez que falaria com ela.

A nova vida por que optara deixa-o nostálgico da infância que vivera numa pequena cidade não muito longe da grande cidade. E faz uma incursão a esse local que já quase não reconhece. É confrontado com o seu passado de privação ao encontrar duas pessoas que são a cópia fiel do pai e da mãe mortos num acidente de viação. Reúne-se sucessivamente aos dois (des)conhecidos numa tentativa de retomar a vida interrompida algumas décadas atrás e os três assumem essa convivência como natural até Kei, a quem Hideo pede desculpa pela sua falta de hospitalidade no dia seguinte e com quem desenvolve uma relação amorosa, reparar no seu envelhecimento acelerado de que ele próprio não se consegue aperceber ao olhar para o espelho.

Ao contar a Kei que visita regularmente os pais mortos há mais de trinta anos, esta parece não estranhar a história de fantasmas relatada e parte do princípio que as duas assombrações sugam a vida do filho para se manterem nesta dimensão. Aconselha-o a deixá-los partir, a despedir-se deles para sempre. E assim faz. Contudo, a rapidez com que os traços físicos de Hideo decaem continua e a descoberta de que é vítima de uma vingança sobrenatural sobrevém-lhe.

Esta obra é mais um exemplo da rara criatividade dos japoneses na forma como olham o mundo dos mortos a partir de uma perspectiva pulsante de vida. Um livro de enganos, uma história de fantasmas, de interditos e de palavras não ditas. Uma história de amor entre pais e filhos que ultrapassa a barreira do plausível. E uma história de vidas em potência, de vidas não concretizadas.

6 comentários:

Homem do Leme disse...

Gosto muito de literatura oriental e este parece-me ser um livro muito interessante.

Carla Milhazes Gomes disse...

Também gosto muito de artes orientais sobretudo literatura e cinema. Este livro foi uma feliz descoberta feita por mero acaso, sem recomendação, simplesmente pareceu-me interessante e revelou-se uma daquelas gratas surpresas:)

djamb disse...

Fiquei curiosíssima!
Adoro literatura (e cinema, by the way) oriental e tento acompanhar estas áreas tanto quanto possível.
Sem dúvida que este livro vai para a minha wishlist.
Obrigada pela partilha!

Carla Milhazes Gomes disse...

Djamb, foi exactamente esse o meu sentimento quando peguei no livro pela primeira vez: curiosidade.
Comecei a ler os comentários da sobrecapa (entre os quais uma recomendação do Bret Easton Ellis)e tive que o comprar...

Anónimo disse...

este livro é fascinante... eé uma história de fantasmas que nos agarra intensamente e msm mt bom.


adorei lê-lo.. aconselho a toda a gente a ler pois é simplesmente fantástico

Carla Milhazes Gomes disse...

É realmente um livro de grande qualidade que também aconselho vivamente:)